Trigo de Duplo-Propósito na integração lavoura-pecuária

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Renato Serena Fontaneli
PhD em Agronomia, Doutor em Zootecnia, Pesquisador Embrapa Trigo/CNPq e Professor da Universidade de Passo Fundo

Cultivo de cereais de inverno produtores de grãos e oleaginosa, predominantemente trigo, mas também aveia branca, cevada cervejeira, triticale, centeio e canola, além de produtos animal como leite e carne, são as principais atividades primárias na região sul-brasileira durante o inverno. Essa matriz produtiva é semelhante a existente na Argentina e no Uruguai, e nas grandes planícies do centro-sul dos Estados Unidos da América. Sabe-se que durante a estação fria do ano (outono-inverno) a disponibilidade de forragem com bom valor nutritivo é reduzida, pois a base forrageira da bovinocultura de corte é pastagem nativa, composta por espécies predominantemente estival (primavera-verão) que têm capacidade de suporte superior a praticada. No sul do Brasil é conhecida a carência forrageira qualitativa e quantitativa durante o período frio nas regiões de pecuária de corte tradicional como Campanha, Depressão Central, Missões e Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul, Planalto de Lages em Santa Catarina e Campos Gerais do Paraná. Na zona produtora de grãos, graças a consolidação do sistema plantio direto (SPD) cujo sustentáculo é a cobertura vegetal, resíduo cultural ou culturas de cobertura, mormente cultivo de aveia preta ou em áreas sem cultivo de cereais de inverno, a dádiva do azevém anual por ressemeadura natural. Assim, há abundância de forragem no inverno e início de primavera, base para a integração lavoura-pecuária e uma das razões da corrida do leite na região. Nesse contexto, há falta de forragem de bom valor nutritivo no outono, pois as espécies de verão estão maturando, com baixa qualidade e, as forrageiras anuais de inverno estão em estabelecimento. Em resumo, os meses mais críticos nesse caso, março-abril-maio é conhecido como vazio forrageiro outonal. A utilização de cereais de inverno de duplo-propósito (DP) é uma alternativa para minimizar esse gargalo, para aumentar o leque de opções de geração de renda no inverno. Nesse período é usado 20 a 25% da área cultivada de verão, ou seja de cada ha cultivado para grão no inverno há outros 3 a 4 ociosos, que geram despesa, pela necessidade de cultivo de culturas de cobertura de solo. Fruto de trabalho persistente e até obstinado de equipe da Embrapa Trigo liderada pelo pesquisador aposentado, Dr. Léo Del Duca, culminou a partir de 2002 com o lançamento de cultivares brasileiras de trigo DP. Em decorrência agropecuaristas sul-brasileiros contam com uma tecnologia já praticada em outras partes do mundo, da Argentina à Austrália, do Uruguai aos Estados Unidos. Para exemplificar os fazendeiros do estado de Kansas, cultivam cerca de dois terços da área de trigo para pastoreio durante o inverno e depois colhem grãos do rebrote. No Texas o trigo é cultivado para grãos ou para pastagem, onde a renda final é o somatório das duas atividades. Na verdade, o fazendeiro das grandes planícies americanas têm dois negócios (carne e grão), podendo optar durante a desenvolvimento das plantas, qual a melhor combinação entre produção de carne e leite para ao final da estação, obter mais lucro. Na Autrália, variedades de trigo DP foram responsáveis pela ampliação da área, aumento do cinturão do trigo o que viabilizou milhares de pequenos agricultores naquele país, um dos principais exportadores de trigo.

No sul do Brasil, além das pastagens anuais tradicionais de azevém anual, sendo a maior parte de ressemeadura natural (azevém guaxo ou “nativo”), e de aveia preta, pode-se dispor agora dos cereais de inverno como DP. Pastagem de cereais DP podem forragear ruminantes em até 5 meses, durante fim de outono, inverno e início de primavera. O trigo é a principal alternativa, pois além da tradicional produção de grãos, pode ser cultivado como DP a partir de 2002 com o lançamento da cultivar BRS Figueira, seguindo-se BRS Umbu, BRS Guatambu e BRS Tarumã. Assim, pode-se colher a soja e, imediatamente, semear o trigo, de ciclo vegetativo mais longo, propiciando cobertura de solo, ampliando o tempo de desenvolvimento de folhas e raízes, aumentando o potencial produtivo desse cereal que mediante manejo apropriado, é usado como pastagem e retirando-se os animais no início do elongamento das plantas não comprometem o potencial produtivo de grãos. Forragem de trigo DP é de elevada valor nutritivo, sendo comparáveis à alfafa em termos de proteína bruta e digestibilidade. Trigos DP, portanto, devem ser semeados antes da época tradicional propiciando cobertura antecipada de solo, fornecendo forragem para produção de carne e leite e, mediante manejo específico, fertilização adicional de nitrogênio e retirada dos animais no momento adequado, geram grãos para alimentação humana ou de animais domésticos. Gerar renda durante o inverno com trigo DP é estratégico, pois permite diversificação de receita, aumento de sustentabilidade econômica-social-ambiental e maior flexibilidade aos sistemas de produção regional. Essa prática permite renda antecipada, diretamente pela engorda de novilhos, leite e carne e lã ovina, ou indiretamente via manutenção do estado corporal dos animais durante os meses de maior carência forrageira no Sul do Brasil. Além de manter estado corporal dos animais, permite engorde de novilhos na entre-safra, com ganhos de peso vivo diário superior a 1,0 kg, manutenção de gestação desejável pela nutrição adequada e produção diária de até 20 kg de leite por vaca e até mais de 30 kg de leite mediante suplementação com grãos de cereais. Assim, proteção de solos agrícolas a partir de abril e minimizam os riscos inerentes às oscilações climáticas e de mercado, comuns durante o ciclo da cultura de trigo, permitindo priorizar a atividade mais rentável conforme as projeções do ano, produção animal ou produção de grãos.

Este artigo sumaria aspectos importantes sobre o estabelecimento (época de semeadura, densidade, cultivares e adubação nitrogenada), utilização (na forma de pasto, corte, feno e silagem) e, também, potencial de produção animal apresentando resultados de dezenas de fazendeiros que adotaram a nova tecnologia nos últimos quatro anos na região Sul do Brasil.

Estabelecimento – época de semeadura e densidade

Os cereais de duplo-propósito são semeados antes do período recomendado para produção de grãos exclusivamente. Assim, recomenda-se para o caso do trigo, a semeadura de até 40 dias antes da época recomendada para as cultivares BRS Tarumã e BRS Guatambu (variedades tardias) e de até 20 dias para as cultivares BRS Figueira e BRS Umbu (variedades semi-tardias). Para exemplificar, em Passo Fundo, RS, o início da época de semeadura para cultivares precoces, exclusivas para produção de grãos, é 1 de junho. Portanto, as cultivares tardias podem ser semeadas na segunda quinzena de abril e as cultivares semi-tardias, no início de maio (Figura 1). Semeando-se no início da época recomendada para duplo-propósito é possível propiciar um período de pastejo, aproximado, de 30 a 60 dias, para as cultivares semi-tardias e tardias, respectivamente, sem afetar sobremaneira a produtividade de grãos.



Figura 1. Época de semeadura dos trigos de duplo-propósito (DP) disponíveis no mercado brasileiro em comparação com a semeadura do trigos precoces semeados na época normal independente de região sul-brasileira.

Cultivares de trigo de duplo-propósito são 100% da Embrapa Trigo

Atualmente o agricultor sul-brasileiro dispõe de quatro variedades de trigo com dupla aptidão (para pastagem e posterior colheita de grãos) que são:

1. BRS Figueira – ciclo semi-tardio, primeiro lançamento como duplo-propósito, no mercado desde 2002. Ciclo da emergência ao espigamento de 100 dias e 159 dias até a maturação. Estatura média de planta de 86 cm.Potencial produtivo superior a 3.500 kg de grãos/ha. Especial atenção à ferrugem, pois quebrou resistência.

2. BRS Umbu – ciclo semi-tardio, ciclo emergência a espigamento de 97 dias e até a maturação de 157 dias. Trigo peladinho (espiga sem aristas). Estatura média de planta de 97 cm. Potencial produtivo superior a 3.500 kg grãos/ha. Trigo tipo brando. Desejável resistência ás moléstias. Apresenta resistência de planta adulta à ferrugem da folha.

3. BRS Guatambu – ciclo tardio, ciclo emergência a espigamento de 112 dias e até a maturação de 163 dias. Estatura média de planta de 96 cm. Potencial produtivo médio de 3.000 kg grãos/ha. Trigo tipo brando.

4. BRS Tarumã – ciclo tardio, hábito de crescimento prostrado com intenso afilhamento, com melhor fenótipo para duplo-propósito disponível no mercado. Ciclo emergência a espigamento de 110 dias e até a maturação de 162 dias. Estatura média de planta de 79 cm. Potencial produtivo médio de 3.200 kg grãos/ha. Trigo tipo pão (W médio superior a 230), grão duro e resitente a debulha natural. Resistente ao oídio e ao vírus do mosaico. Apresenta resistência de planta adulta à ferrugem da folha.

Densidade

Quanto a densidade, recomenda-se, pelo menos 350 sementes aptas por metro quadrado, que representa de 100 a 140 kg de sementes/ha, dependendo do valor cultural (germinação e pureza) e peso de mil sementes.

Adubação

Recomenda-se seguir a indicação da rede oficial de laboratório de solos do estados do RS e SC. Nitrogênio é o nutriente mais importante na rebrota rápida após a desfolha pelos animais, reduzindo o intervalo entre pastejos ou cortes. É importante lembrar que para cada 100 kg de ganho de peso vivo ou 1.000 kg de leite produzidos, os animais consomem, aproximadamente, 1.000 kg de forragem seca (MS). Considerando-se uma concentração de proteína bruta (PB) na forragem consumida de 18%, ou seja, aproximadamente 30 kg de N, cerca de 65 kg de uréia, são ingeridos pelos animais. Apesar de boa parte dos nutrientes ingeridos pelos animais através da forragem retornam via dejeções (fezes e urina) há uma desuniformidade de distribuição dessa excreta (manchas nas pastagens) com grande concentração, nas zonas de congregação dos animais, próximos a aguadas, sombra e cochos de minerais, que representam menos de 10% da área da pastagem.

Utilização e manejo para produção animal  Manejo em pastejo

O trigo DP deve ser pastejado por bovinos de corte ou de leite quando as plantas estiverem com aproximadamente 30cm de estatura, o que normalmente ocorre entre 40 e 60 dias após a semeadura (seis a oito semanas após a emergência das plântulas). Ao pastejar, devem ser preservadas as estruturas para o rebrote, limitando o pastejo até 5 a 7cm de estatura durante o período vegetativo. O ideal é usar o sistema de pastoreio rotativo que propicia maior controle de oferta de forragem e pressão de pastejo, diminuindo o risco de erros de manejo, sobrepastoreio. Os dias com excesso de umidade, freqüentes durante o período frio, devem ser evitados para minimizar o adensamento do solo, que pode comprometer as vantagens de geração de renda durante o inverno. Não esquecer de aplicar o fertilizante nitrogenado após a saída dos animais, conforme discutido na seção anterior. O pastejo deve ser finalizado quando atingir a altura de resteva de 5 a 10 cm e, para DP, quando for observado a formação do primeiro nó, variável de ano para ano, mas em Passo Fundo, ocorre geralmente no final de julho a início de agosto.

Manejo para onservação de forragem

Os cereais de inverno, incluindo o trigo, podem além de serem manejados exclusivamente para produção de grãos ou para compor pastagens, ou ainda como duplo-propósito (pastagem e grãos), podem ser colhidos e armazenados na forma de feno ou de silagem.

Fenação

Para obtenção de feno recomenda-se o corte no início da emissão das inflorescências, onde compatibiliza-se boa produção de biomassa e bom valor nutritivo. A forragem deve ser enfardada somente quando estiver com menos de 20% de umidade, pois do contrário permitirá o desenvolvimento de microrganismos que comprometem a qualidade do feno. Entretanto, pela dificuldade de secagem da forragem para feno, têm-se preferido a ensilagem, que pode ser de planta inteira ou pré-murchada.

Ensilagem

Para obtenção de silagem de planta inteira, recomenda-se colher as plantas de cereais de inverno no estádio de grãos em massa, quando além de propiciar boa colheita de biomassa, consegue-se uma boa preservação dos nutrientes via fermentação desejável. É importante triturar bem o material a ser ensilado em partículas de 0,5 a 5,0 cm de comprimento, compactar bem no silo para diminuir a respiração e permitir a condição de anaerobiose, indispensáveis para conseguir-se a obtenção de baixo pH para estabilização da forragem.

Potencial de rodução animal

Produção de carne

A indicação de manejo para obtenção de forragem de bom valor nutritivo com boa quantidade de forragem é a observação e compatibilização de três critérios, ou seja: a) tempo após a emergência – 40 a 60 dias no primeiro pastejo, e nos demais, rebrote de 28 a 35 dias; b) estatura de planta – entrada dos animais quando as plantas estão com 25 a 40 cm de altura e saída dos animais, com altura de resteva de 5 a 10 cm; c) acúmulo de biomassa de 1,0 kg de pasto fresco por metro quadrado, com amostras retiradas de 5 cm acima da superfície do solo. Nessas condições, obtém-se acima de 1.500 kg de forragem seca por hectare (1,0 kg de pasto fresco por m2 = 10.000 kg/hectare x cerca de 15 % de matéria seca (MS), corresponde a 1.500 kg MS/ha. Com essa oferta de forragem, que somente consegue-se com densidade acima de 350 plantas/m2, os animais pastejam com a “boca cheia” ou seja têm eficiência de pastejo alta, colhendo em torno de 70% da forragem ofertada, acima da altura de resteva.

Nessas condições, novilhos têm obtido ganho de peso diário de em torno de 1,0 kg de ganho diário (0,70 a 1,65 kg) e de 100 a 450 kg/ha, dependendo da utilização pretendida posteriormente, somente forragem ou colheita de grãos do rebrote (Tabela 1).

Tabela 1. Amplitude de dados zootécnicos e agronômicos obtidos por empresários agropecuários que adotaram a tecnologia de trigo DP no Paraná e Rio Grande do Sul de 2003-2006.

Produção de leite

A indicação de manejo para forrageamento de vacas leiteiras é similar ao preconizado para engorda de novilhos. Têm sido obtido com vacas da raça Holandês de bom mérito genético, produções diárias de 15 a 20 kg de leite, sem suplementação de grãos, podendo-se atingir 30 kg de leite/vaca.dia, mediante 6 a 8 kg de suplementos energéticos. Em termos de ganho por área têm-se registrado estimado de 1.500 a 6.000 kg de leite/ha, dependendo do sistema de utilização, pressão de pastejo e finalidade da área no verão. O final do período de pastejo quando o trigo é para duplo-propósito é por ocasição do primeiro nó visível, limite para não comprometer a produção de grãos.

Referências Técnicas

FONTANELI, Roberto Serena. Valor nutritivo de cereais de inverno e forrageiras. Laboratório de Nutrição Animal – CEPA/FAMV/UPF. Email: roberto@upf.br Telefone: (54) 3315-8458

FONTANELI, Renato Serena. Estabelecimento, utilização e manejo de cereais de inverno e forrageiras/ Integração lavoura-pecuária. Embrapa Trigo. Email: renatof@cnpt.embrapa.br Telefone: (54) 3316-5800

NASCIMENTO JUNIOR, Alfredo. Estabelecimento, utilização e manejo de centeio e triticale. Embrapa Trigo. Email: alfredo@cnpt.embrapa.br Telefone: (54) 3316-5800

CAIERÃO, Eduardo. Estabelecimento, utilização e manejo de trigos duplo-propósito. Embrapa Trigo. Email: eduardo@cnpt.embrapa.br Telefone: (54) 3316-5800

Fonte: http://www.plantiodireto.com.br/?body=cont_int&id=799

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