Tratamento de dejetos:desafios da suinocultura tecnificada

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Os sistemas de produção de animais têm sofrido grandes transformações através do tempo para tentar suprir a demanda por alimentos de origem animal. Um fenômeno que se observa é a profissionalização do setor produtivo, transformando as granjas produtoras de animais ou de produtos destes em verdadeiras fábricas de proteína animal.

As características e tendências dos sistemas produtivos modernos apontam para um modelo de confinamento em unidades restritas, com aumento de escala de produção. Um dos aspectos que são considerados dizem respeito a redução de custos envolvendo a logística entre produção e a industrialização dos produtos cárneos.

Isto cria, em muitos casos, grandes problemas ambientais nas regiões produtoras, devido a alta geração de resíduos que na maioria dos casos tem como destino a simples disposição no solo. Esta prática faz com que, em muitas situações, se tenha um excesso de elementos no solo (nutrientes, metais, patógenos, entre outros), tornando difícil a absorção à mesma taxa em que estes elementos são aplicados. Este fato acarreta a lixiviação e/ou percolação destes resíduos para os corpos d´água superficiais e subterrâneos, causando a poluição destes ambientes.

Das alternativas existentes para o manejo de dejetos, o tratamento em muitos casos apresenta-se como única alternativa para viabilizar ambientalmente a atividade. Esta prática, via de regra, não é muito bem aceita pelos produtores, sofrendo resistência para sua aplicação. Os motivos para isto se devem, primeiramente, ao fato do dejeto suíno sempre ter sido visto pelo homem como um fertilizante do solo, tornando assim o seu tratamento desnecessário. Em segundo lugar pela necessidade da aplicação de recursos financeiros, nem sempre desejável pelo responsável da atividade, haja vista que na maioria dos casos os investimentos não são convertidos em renda direta.

No entanto, a situação ambiental crítica vivida em muitas regiões produtoras, aliada a possibilidade de restrições de mercado nacional e internacional já no curto prazo, demanda a necessidade de maior atenção no que diz respeito ao trato com os resíduos das atividade que produzem animais, assim como já aconteceu com o sistema produtivo (melhoramento genético, conversão alimentar, controle de doenças, etc.).

COMO ABORDAR O PROBLEMA

 

Antes de pensar em qualquer sistema de tratamento é importante voltar as atenções para dentro do sistema de produção. O manejo e o tratamento do dejeto devem ser vistos como parte do processo produtivo. Tudo que for feito dentro das instalações influenciará positiva ou negativamente a eficiência do sistema de manejo e tratamento de dejetos.

Uma série de cuidados devem ser tomados no que dizem respeito às instalações para evitar a diluição do dejeto. Desviar água de chuva, diminuir o desperdício com bebedores, otimizar a limpeza das instalações com uso de raspagem, para lavagem com água utilizar sistemas de alta pressão e baixa vazão (lava-jatos) e reuso da parte líquida dos dejetos.

O excesso de água para o sistema de tratamento de dejetos deve ser visto como um fato a ser evitado, pois um dejeto muito diluído causa:

 

– superdimensionamento das instalações de tratamento, com o respectivo aumento dos custos;

– baixa eficiência de alguns sistemas;

– consumo excessivo de produtos químicos, energia elétrica e em muitos casos transporte do dejeto para disposição final.

 

Outro ponto diz respeito a nutrição animal. Utilizando-se rações de alta eficiência, que permitam um maior aproveitamento pelo animal, evitará o desperdício de nutrientes não absorvidos no trato digestivo e que podem em muitos casos sobrecarregar o tratamento.

A entrada de antibióticos, detergentes e outros produtos químicos devem ser objetos de atenção e cuidado. Deve se ter em mente que os sistemas biológicos podem perder eficiência ou mesmo serem inativados por estes produtos, causando grandes prejuízos ao tratamento.

O último e mais importante ponto diz respeito a capacitação do pessoal responsável pela operação dos sistemas de tratamento. Na maioria dos casos o insucesso do tratamento está relacionado a erros humanos, causados pela má operação dos sistemas. Este pessoal deve receber constante capacitação e entender claramente a importância do processo e como ele funciona, tendo subsídios para a tomada de decisões. Caso o fator humano seja desconsiderado qualquer opção tecnológica adotada estará fadada ao insucesso.

A ESCOLHA DO SISTEMA DE TRATAMENTO

 

A escolha do melhor sistema de tratamento sempre é uma tarefa bastante difícil, haja vista que não existe uma alternativa tecnológica que possa ser aplicado universalmente para todos os resíduos. A famosa “solução milagrosa”, que resolva todos os problemas ambientais da suinocultura, não existe. Todas as alternativas tem vantagens e desvantagens. A aplicabilidade ao resíduo deve ser avaliada levando-se em conta a realidade e complexidade da situação ambiental vivida em cada região.

A primeira pergunta que deve ser feita antes da escolha do tratamento diz respeito ao que se pretende com a escolha da tecnologia (abatimento de carga orgânica, remoção de nutrientes, inativação de organismos patogênicos, reuso da água, etc). Em função disso e das possibilidades financeiras de cada produtor, existe uma gama de tecnologias que podem ser utilizadas de acordo com a realidade de cada sistema de produção.

 

 

AS ALTERNATIVAS UTILIZADAS

 

Existem vários processos que podem ser utilizados para o tratamento de dejetos de suínos, sendo os processos biológicos os mais empregados. Isto é perfeitamente explicável pelas características altamente biodegradáveis da matriz em questão.

Devido a recente ratificação do protocolo de Kioto, a biodigestão anaeróbia pelo uso de biodigestores tem se difundido rapidamente dentro da suinocultura, pela possibilidade dos produtores obterem algum retorno financeiro pela venda de créditos de carbono. Cabe ressaltar que isto nem sempre é tão simples de ser realizado, necessitando na maioria dos casos da assessoria de empresas especializadas para viabilizar o negócio internacionalmente. No que diz respeito a fração líquida, o processo de biodigestão anaeróbia apresenta grandes limitações, principalmente quando se trata do abatimento de nutrientes, cabendo aí um cuidado especial com os efluentes que saem do sistema, sendo necessário um tratamento complementar.

A compostagem, embora o dejeto de suíno tenha uma baixa concentração de sólidos, que em muitas vezes dificulta o processo, também tem sido utilizada. Os cuidados com o manejo que deve ser diferenciado, quando comparado à compostagem tradicional, muitas vezes é limitante para a eficiência do processo. O composto produzido permite a exportação de nutrientes para outras regiões podendo ser utilizado como fertilizante orgânico, levando-se em conta os preceitos do balanço de nutrientes.

As lagoas de tratamento são úteis para estabilização dos dejetos e quando corretamente dimensionadas e manejadas fornecem um efluente final de boa qualidade. No entanto, são suscetíveis as condições climáticas e ao fato de ocuparem áreas que poderiam ser agricultáveis.

NOVAS TENDÊNCIAS

 

Pela alta complexidade e impacto ambiental dos dejetos de suínos, novas alternativas vem sendo estudadas envolvendo sistemas compactos de tratamento de dejetos. Estes sistemas permitem a estabilização dos dejetos baixando-se bruscamente os tempos de residência hidráulicas (TRH) de meses para alguns dias. As suas principais vantagens são maior controlabilidade do processo, com aumento de eficiência, e a redução da área necessária para implementação das unidades de tratamento. Estas unidades têm se mostrado muito eficientes na redução de carga orgânica (sem dúvida o primeiro desafio que deve ser atacado quando se pensa em estratégias de tratamento), no entanto alguns desafios ainda precisam ser superados (ex: alta carga de nutrientes), haja vista que muitas tecnologias têm sido adaptadas de unidades de tratamento de esgoto sanitário. Para resolver esta questão grandes esforços de pesquisa têm sido envidados nos últimos anos no sentido de se chegar a uma proposta que seja tecnicamente aceitável e economicamente viável.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O tratamento de dejetos de suínos parece cada vez mais uma necessidade em função dos seus impactos ambientais e da capacidade limitada do solo em reciclar os nutrientes nele aplicados. O grande desafio ainda reside em transferir as tecnologias de tratamento aos suinocultores brasileiros, que muitas vezes apresentam baixa capacidade de investimento para mitigação dos problemas ambientais da atividade. No entanto, este caminho parece ser irreversível em função das pressões dos mercados consumidores, que têm se mostrado cada vez mais sensíveis e preocupados com as questões ambientais.

 

Aírton KunzEnvie um email!
Pesquisador – EMBRAPA/CNPSA

Fonte: http://www.agronline.com.br/artigos/artigo.php?id=382&pg=4&n=4

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