Sub-produtos complementares da renda de um seringal

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Paulo de Souza GONÇALVES 1

A seringueira [Hevea brasiliensis (Willd ex Adr. de Juss) Müell. Arg.] no Estado de São Paulo foi originalmente introduzida visando a explotação do látex natural como fonte principal de renda, sempre procurando a obtenção de alta produtividade econômica.

Na Ásia, ao longo do final do século passado o início deste, têm-se buscado algumas alternativas para elevar a renda do produtor. A exploração da madeira tem sido a alternativa complementar mais importante, extraída quando o período produtivo das árvores se encerra (25 a 30 anos) e, em escala moderada, a produção de sementes e de mel. A extração do óleo de sementes de seringueira vem apresentando grande potencial industrial, no entanto a sua utilização depende dos custos de mão-de-obra para a coleta e das condições de armazenamento.

Principalmente para pequenas propriedades que buscam diversificar a sua produção, a exploração de uma ou mais dessas alternativas propostas podem equilibrar a renda do produtor.

Produção de Óleo das Sementes

 

Fatores de produção

Entre os países produtores de borracha natural a Índia foi o primeiro país a explorar comercialmente as sementes de seringueira visando a extração de óleo e, posteriormente, a Nigéria e a Malásia, embora ainda em condições rudimentares.

Existe uma grande variação na quantidade produzida de sementes em cada ano, devido a influências climáticas, incidência de doenças e a diferenças entre e dentro dos clones. No Estado de São Paulo, alguns clones sofrem o ataque de Antracnose, podendo restringir o número de sementes viáveis para o uso comercial. Na Nigéria, a produção de sementes varia de 73 kg/ha para o clone PB 86 a 424 kg/ha para o clone PB 5/51. A média de produção na Índia gira em torno de sementes 150 kg/ha ou 500 g/árvore. Na Malásia obteve-se 65 kg de sementes/ha, sendo possível uma produção duas vezes maior se as condições do meio forem mais favoráveis ao desenvolvimento dos frutos. Além disso, existe também uma considerável variação do peso de sementes individuais, apresentando média de 3,25 e 4,27 g/semente para os clones GT1 e RRIM 600, respectivamente. Cerca de 40% da semente fresca representa o endosperma (parte mais interna da semente), 35% do tegumento e os 25% restante é umidade.

As sementes contêm uma quantidade média de 43% de óleo de boa qualidade industrial, podendo variar de 38 até 46%.

Armazenamento

É importante o conhecimento da influência do armazenamento na qualidade das sementes. Nas indústrias de extração de óleo é comum a formação de estoques para o abastecimento constante das máquinas.

A semente da seringueira (Figura 1) é considerada recalcitrante, cuja a viabilidade decresce com a redução do grau de umidade quando esta apresenta-se fora dos limites de 12 a 31%, não podendo ser armazenadas em locais com baixa umidade relativa. Ainda, ocorrem problemas de fermentação, tornando rançoso o óleo produzido. O armazenamento das sementes para a extração de óleo afeta a qualidade das sementes quando não é bem executado, com mudanças de coloração, odor e concentração de peróxidos. O óleo extraído de sementes frescas é mais brilhante que aquele extraído de sementes armazenadas por um período de um ano, assim como, a coloração é menos intensa quando as sementes são armazenadas antes da extração e a acidez é mais elevada quando são armazenadas, devido à degradação por enzimas catabolísticas. O valor da concentração de peróxidos, que mede a deterioração do óleo, é maior quando as sementes são armazenadas (5,10%) em relação às sementes frescas (0,40%), demonstrando a queda da qualidade do óleo.

Figura 1 - Sementes de seringueira.

Figura 1 – Sementes de seringueira.

Qualidade e quantidade das sementes produzidas

Vários fatores influenciam diretamente a qualidade e a quantidade produzida de sementes, destacando-se principalmente: a) expressão genética do clone; b) luminosidade dentro da copa da planta; c) número de frutos/inflorescência e distância média entre frutos; d) variação climática durante o desenvolvimento do fruto; e) deficiências nutricionais durante o florescimento e no período de desenvolvimento dos frutos, principalmente N e K; f) baixa porcentagem de polinização e g) ataque de doenças em geral.

A falta de sincronia na ântese das flores masculinas e femininas, o baixo número de flores femininas por inflorescência e a baixa quantidade de grãos de pólen, também influenciam na quantidade de sementes produzidas.

Processamento das sementes para a obtenção do óleo

Para a extração do óleo, primeiramente as cascas das sementes são removidas, deixando apenas o endosperma, seguida de uma secagem para diminuir a porcentagem de umidade. O endosperma extraído e seco ao sol suporta o armazenamento por quatro meses sem deterioração.

Há métodos de processamento para extração do óleo: extração por solventes, prensagem e centrifugação.

A escolha do método depende da quantidade de sementes produzidas. Sendo que o método de extração por centrifugação (método mais simples de moagem) apresenta bom rendimento, girando em torno de 250 kg/operador em uma jornada de oito horas de trabalho. Como a coleta de sementes de seringueira se restringe aos meses de fevereiro/março para as condições do Estado de São Paulo, poucos moinhos podem depender exclusivamente da safra da seringueira. Geralmente, pode-se utilizar sementes de seringueira na entressafra da extração de óleo de outras culturas como o amendoim, mamona, etc.

Usos do óleo

Embora em pequena escala, alguns países asiáticos tem produzindo óleo à partir de sementes de seringueira, como substituto ao óleo de linhaça, na indústria de tintas e na produção de sabões e resinas. O uso como revestimento anti-corrosivo e adesivos vem sendo utilizado com sucesso na Ásia.

O óleo tem potencial para ser utilizado como combustível substituto ao diesel convencionalmente utilizado em máquinas motoras e veículos. No entanto, sua viscosidade é mais elevada, necessitando um tratamento para reduzí-la. Nesse sentido, tem sido experimentado, com sucesso, alguns tratamentos tais como: aquecimento do combustível, mistura do óleo das sementes de seringueira com óleo diesel e uso de alteração química do óleo (óleo transesterificado).

A Tabela 1 mostra a porcentagem dos principais componentes do óleo, comparando sementes armazenadas pelo período de um ano e sementes frescas. A fração composta pelos ácidos graxos saturados não apresentou variação entre as sementes armazenadas e as frescas. Já na fração dos ácidos graxos insaturados, o ácido linoléico apresentou valores mais elevados nas sementes armazenadas e o ácido linolênico comportou-se de forma contrária, com valor mais elevado nas sementes frescas. Os ácidos graxos insaturados são importantes para a produção de derivados do óleo de seringueira, sendo considerado como semi-secante devido à sua alta quantidade nesse tipo de ácido graxo. Essa característica é muito importante para a produção de tintas, medindo a capacidade de formação de um filme sobre a superfície tratada e a rapidez de secagem do produto.

Tabela 1- Composição química do óleo das sementes de seringueira.

Propriedades Valores
Índice de acidez 4 – 40
Índice de saponificação 190 – 195
Índice de Iodo 132 – 141
Fração não saponificada (%) 0,5 – 1,0
Índice de refração à 40ºC 1,460 – 1,469
Gravidade específica 14/15ºC 0,924 – 0,930
Ácidos Graxos Composição %
Ácido Palmítico 11
Ácido Esteárico 12
Ácido Oléico 17
Ácido Linoleico 36
Ácido Linolênico 24

 

Produção de Torta

Na extração do óleo do endosperma da semente, obtêm-se 66% do seu peso na forma de torta, podendo ser utilizada na alimentação de bovinos e aves. A Univesidade de Kerala (Índia), conduziu por 12 anos um longo estudo utilizando a torta no arraçoamento de bovinos, porcos e aves, apresentando composição química e valores nutritivos (Tabela 2):

Tabela 2. Composição química e valores nutritivos da torta de sementes.

Componentes Valor nutritivo (%)
Proteína bruta 29,40
Proteínas 26,10
Extrato etérico 4,88
Fibra bruta 7,05
Carbohidrato total 58,30
Cálcio 0,22
Fósforo 0,76

 

A pequena quantidade de ácido cianídrico presente na torta não expõe ao perigo a vida animal. Na Índia 50% da torta de sementes é utilizada na alimentação de aves e animais.

Devido ao seu elevado valor alimentar a torta de seringueira pode ser utilizada como substituto da torta de amendoim e também pode complementar a fertilização nitrogenada em culturas comerciais.

Produção de Mel

A produção de mel de seringueira pode ser uma alternativa de exploração em pequenas propriedades que tem seringal implantado. No entanto, nem todos os clones comerciais são produtores de néctar, foi observado que os clones RRIM 701, RRIM 600 e PR 255 são fontes potenciais de néctar para abelhas. O néctar se encontra em glândulas extraflorais localizadas na junção dos três folíolos jovens (Figura 2). A máxima produção de néctar ocorre na fase de reenfolhamento, fase de transição da coloração bronze para o verde claro. Para as condições do Estado de São Paulo o reenfolhamento ocorre entre os meses de agosto a outubro, sendo que a atividade das glândulas se estende por um período de 4 a 6 meses após o final dessa fase, logo as glândulas de néctar permanecem inativas por 3 a 5 meses durante o ano. Cerca de 30% do mel de seringueira produzido na Índia é coletado no período de reenfolhamento da copa das plantas, que ocorre entre os meses de janeiro à março naquela região.

A apicultura tem sido uma opção nos seringais asiáticos, sendo que aproximadamente 45% do mel produzido na Índia é originado de seringais. Essa técnica tem exigido a domesticação de abelhas da espécie Apis cerana oriunda desses seringais.

Figura 2 - Nectário extrafloral localizado na junção dos três folíolos jovens.

Figura 2 – Nectário extrafloral localizado
na junção dos três folíolos jovens.

O ideal é distribuir de 15 a 20 colméias por hectare de seringal, observando-se uma produção de 20 kg de mel/colméia/ano. Supondo uma produção potencial de 10 kg de mel/colméia e 15 colméias/ha, em um ano normal pode-se produzir 150 kg de mel, ao preço de R$ 6,00/kg de mel, consegue-se uma receita de R$ 800,00/ha (um apicultor pode manejar aproximadamente 30 colméias – 2 ha). As colméias podem ser colocadas no seringal apenas no período de produção de néctar podendo ser transferidas para um outro local após o término dessa fase. experimentos mostraram que três meses após a introdução das colméias no talhão é possível a coleta de mel, em uma área com boa produção de néctar.

Para suprir a alimentação das abelhas quando as árvores de seringueira não estão produzindo néctar, existem plantas forrageiras, fontes potenciais de néctar e devem ser plantadas em lugares comuns na propriedade como cercas, divisas ou espaços vagos no seringal.

Devido a coleta constante nas colméias o mel é límpido e contêm alta umidade. Logo, no processamento, para que haja uma concentração maior do mel, o mesmo deve descansar por alguns dias à luz do sol.

A Tabela 4 mostra a composição média e a variação dos principais componentes do mel de seringueira.

Tabela 4 – Propriedades do mel de seringueira.

Componentes Variação Média
Viscosidade (em centipoise) 550 – 3800 1358
Peso específico à 27 º C 1,40 – 1,34 1,379
Mistura (%) 21,50 – 25,50 22,00
Açucares redutores 69,08 – 74,80 72,80
          Levulose (%) 34,88 – 40,70 37,14
          Dextrose (%) 33,57 – 37,97 35,98
Açúcares não Redutores (%) 0,78 – 3,14 1,71
Acidez, % 0,06 – 0,20 0,13
Cinza 0,09 – 0,39 0,216
Proteína 0,05 – 0,25 0,138
Levedura (milhões/g) 103,9 – 159,0 139,39

 

Exploração da Madeira

 

Madeira

A madeira de seringueira tem se tornado uma fonte importante de renda após a exploração do látex da cultura, principalmente na Malásia, onde 70 % da madeira utilizada vem da seringueira, exportando para o Japão para produção de móveis ao preço de US$ 220/m3.

Geralmente, quando a produção de látex em um talhão não é mais economicamente viável, procede-se a derrubada das árvores, seguida do replantio da área. A madeira remanescente pode ser utilizada como combustível ou celulose, e com o tratamento químico, pode ser utilizada na indústria de móveis e na fabricação de portas, janelas, formas para concreto armado, vigas, colunas, painéis e artigos domésticos com aglomerado de “Flakes” (Figura 3).

Figura 3 – Aglomerado de “Flakes”.

As árvores no final da sua vida produtiva apresentam um perímetro médio do caule em torno de 110-100 cm (125 cm acima do solo), sendo aptas para corte aproximadamente 184 árvores/hectare. De uma árvore obtêm-se 0,62 m3 de madeira proveniente do tronco e cerca de 0,39 m3 provenientes dos ramos laterais, totalizando 1,10 m3/árvore.

Foi observado que em um hectare de seringal com 450 árvores, 200 árvores são aptas para corte, com a produção de 1 m3/árvore, possibilitando a extração de 130-180 toneladas de madeira/ha em um seringal no final do seu ciclo produtivo.

Propriedades

Normalmente a coloração da madeira se assemelha ao branco (Figura 4), às vezes pode apresentar um aspecto marrom claro ou amarelado. A densidade gira em torno de 560 a 650 kg/m3, e a umidade da madeira recém-cortada é de aproximadamente 60%, podendo ser reduzida para 15% quando seca ao ar, exigindo pelo menos 10 dias de exposição nessas condições.

Figura 4- Corte tangencial da madeira de seringueira tratada.

O grande problema da utilização dos produtos provenientes da madeira de seringueira é a alta susceptibilidade ao ataque de fungos e insetos (besouros e cupins), devido à ausência de cerne na madeira e a um alto teor de amido e açúcares (Tabela 5), necessitando, portanto, de um tratamento profilático logo após o corte, em um período menor que 24 horas. Além disso, problemas de contração da madeira, devido a existência de tração, dificultam a sua utilização. A ocorrência de tração é natural, e não pode ser evitada, porque suas causas ainda não são muito conhecidas. Para tentar minimizar esses problemas na madeira recomenda-se proteger o seringal do vento (quebra-ventos), diminuindo as torções dos ramos, troncos e a quebra das árvores.

Tabela 5 – Composição química da madeira de seringueira.

Constituintes Porcentagem (%)
Celulose 43,9
Lignina 23,3
Pentoses 18,0
Resinas 3,9
Outros 10,9

 

Tratamento

Dentre os fungos mais comuns que deterioram a madeira estão: Botryodiplodia theobromae associado com Aspergillus spp., Penicillium spp. e Fusarium spp., entre outros.

A recomendação de tratamento químico na madeira é a mesma para outras madeiras em geral. A escolha do tratamento mais adequado depende da finalidade a que se destina o material, os métodos mais utilizados são o tratamento por difusão e por vácuo.

O primeiro é o método mais comum, e consiste em pulverizar ou imergir a madeira logo após o corte em uma mistura de sódio pentaclorofenol (contra fungos), bórax à 1-2% (contra insetos) e ácido bórico à 25%. São necessárias três semanas para completar o tratamento. Cada prancha é mergulhada na solução por 5 a 10 minutos e empilhadas uma sobre as outras com um pequeno espaço entre cada uma delas, posteriormente a pilha deve ser coberta com uma lona de polietileno por três semanas. Normalmente utiliza-se esse tipo de tratamento em móveis que não serão expostos à chuva, pois o boro absorvido pelas células da madeira é solúvel em água, sendo facilmente lixiviado, o tratamento por difusão protege a madeira apenas superficialmente.

O outro processo consiste em impregnar às células da madeira com uma solução de cromo e arsênio, através de pressão e vácuo, permitindo uma maior resistência da madeira, por um período prolongado. Uma completa infiltração da solução é conseguida sem dificuldades em uma tábua de 5 cm de espessura, quando colocada por duas horas sob 15 kg/cm2 de pressão, mas é necessária secagem prévia da madeira. Esse método não preserva a coloração natural da madeira.

Considerações Finais

Atualmente, a margem de lucro do produtor agrícola é restrita. Para que a propriedade sobreviva economicamente é necessário diversificar às áreas de produção. Em um seringal já implantado, é possível planejar algumas explorações alternativas, buscando complementar a atividade principal de explotação de látex, seja através da apicultura ou visando a coleta de sementes para a extração de óleo. Além disso, ao final da vida produtiva do talhão, a exploração da madeira para uso na indústria de móveis, celulose e na construção civil ou na fabricação de artigos domésticos, também pode ser estudada.

Logo, cabe ao produtor escolher a alternativa de exploração que mais se adapta às suas condições, analisando o uso da mão-de-obra para a coleta das sementes ou para os cuidados das colméias, a facilidade de comercialização das sementes e a lucratividade potencial das novas atividades.

1 Programa Seringueira. Centro de Análise e Pesquisa do Agronegócio do Café. Caixa Postal 28.
CEP.: 13.001-970. Campinas, SP. Brasil. Fax: (019) 2415188 ramal: 322. Email: paulog@cec.iac.br. Pesquisador Científico.

Fonte: http://www.apabor.org.br/sitio/artigos/index.html#

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