Soro de leite desaproveitado pode tornar-se fonte de poluição

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Alimentação, medicamentos, fins terapêuticos poderiam ter sido apenas algumas das aplicações a dar aos cerca de 440 milhões de litros de soro que, só em 2003, foram desperdiçados pelas indústrias de lacticínios nos Açores. Para além do factor desperdício, há que ter em conta que, esta mesma quantidade, em termos ambientais – uma vez que o seu destino é, maioritariamente, o esgoto – pode representar uma fonte de poluição equivalente à produzida por 210 milhões de pessoas. Por forma a combater estes desperdícios, o investigador na área da Tecnologia Alimentar da universidade dos Açores, José Batista, defende que Governo Regional e industriais se deveriam preocupar mais com a qualidade – quer da matéria prima quer dos subprodutos lácteos produzidos na Região – do que com a quantidade dos mesmos.

442,8 milhões de litros de soro foi quanto foi gerado pela indústria de lacticínios durante o ano de 2003, uma vez que neste ano a Região Autónoma dos Açores teve uma produção de quase 500 milhões de litros de leite. Do lactosoro, apenas cerca de 5% deste é aproveitado, por exemplo, na alimentação de animais ou na produção de leite e soro em pó – uma vez que são poucas as empresas de lacticínios nos Açores que fazem a secagem do soro – ou seja, 420 milhões de litros de soro poderão estar a ser desaproveitados e lançados no mar, solos ou na rede de esgotos, constituindo uma fonte de poluição deveras gravosa para o meio ambiente.
No artigo intitulado “Proteínas do Lactosoro – Poluição ou mais valia. Determinação da sua capacidade de gelificação”, publicado na revista Açoreana da Universidade dos Açores, da autoria de José Batista, investigador na área de Tecnologia Alimentar desta universidade, é possível ler-se que, num estudo realizado por dois estudiosos desta área – Sottiez e Zadow -, em 1993 e 1994, ficou comprovado que “uma fábrica de queijo que rejeite cerca de 50 mil litros de soro, promove uma poluição equivalente à provocada por uma cidade com 25 mil habitantes”.
Se fizermos as contas, em termos gerais, ao desperdício do soro na RAA, chegamos a números assustadores, pois, os 420 milhões de litros de soro desperdiçados, só em 2003, poderiam provocar uma poluição equivalente à provocada por cerca de 210 milhões de pessoas.
Questionado sobre a possível razão do não aproveitamento do soro produzido nos Açores, José Batista, diz que “não sei ao certo quais serão as razões que levam a que seja feito este desperdício, mas, ao certo, considero que este não poderia ser um trabalho feito apenas por uma empresa de lacticínios”, ou seja, este docente acredita que “o Governo Regional deveria, sim, promover a criação de um instituto de investigação em leites, uma vez que é esta a matéria prima que forma um dos pilares da economia dos Açores”.
Defende a existência, à frente deste instituto, de indivíduos com capacidades académicas directamente ligadas a esta área e a trabalhar na mesma, por forma a que fosse mais fácil a ajuda aos industriais de lacticínios.
“Os governantes estão, demasiadamente preocupados com a parte fabril, da produção e das quantidades e, esquecem-se do aspecto da qualidade que, poderá ser melhorado, tão simplesmente, com a melhoria das relvas dos nossos pastos”, acrescenta.
A formação académica e técnico-profissional em leites, é algo já praticado, há muitos anos, em países como a Holanda. Para além deste aspecto, José Batista defende que, uma vez que seria praticamente impraticável que cada indústria de lacticínios fizesse a secagem do soro, individualmente, esta mesma transformação poderia vir a ser feita numa unidade fabril que reunisse todo o soro destas proveniente. “A sua secagem e o seu condicionamento não são processos com custos demasiado elevados, se tivermos em conta que a Região Açores poderia receber grandes dividendos com a sua correcta aplicação e venda ao exterior”, conclui.

AFINAL, O QUE É O SORO?

MAIS VALIA OU DESPERDÍCIO?

O soro do leite, tecnicamente intitulado ‘lactosoro’, é um sub produto resultante da fabricação de queijo ou da extracção da acseína e contém, aproximadamente, metade dos sólidos presentes no leite, incluindo cerca de 20% de proteínas, lactose, sais minerais, vitaminas hidrossolúveis e alguma gordura.
Mas o que a maior parte da população não académica sabe é que, as proteínas do lactosoro possuem um elevado valor nutricional, devido ao seu conteúdo em aminoácidos essenciais e apresentam conformações globulares compactas que lhes conferem propriedades funcionais próprias. Por exemplo, segundo o docente de Tecnologia dos Alimentos da UA refere, “uma forma desnaturada das proteínas, conhecida por “lactalbumina”, tem sido extraída e usada como suplemento proteico em diversos países, nomeadamente nos Estados Unidos da América e Canadá. Contudo, não é apenas pelo seu valor nutritivo que é adicionada aos alimentos, mas também pelo efeito qualitativo das suas propriedades funcionais”.
Assim, a necessidade de se formularem novos alimentos com melhores características nutritivas, organolépticas e com possibilidade de processamento automático, tem levado o mercado a exigir, cada vez mais, proteínas com propriedades funcionais específicas. Ou seja, o estudo feito por José Batista, em 1998, visava o estudo das proteínas do soro, que contém cerca de metade dos sólidos do leite. Diz que “para termos uma ideia da quantidade de proteínas que não se aproveitam, é ver a quantidade de litros de leite que são transformados em queijo”.
Ora, os Açores, em 2003, tiveram uma produção de leite que atingiu os 492 milhões de litros de leite, os quais geraram 442,8 milhões de litros de soro. Multiplicados por 4,5 gramas, vamos obter cerca de duas mil toneladas de proteínas que foram desaproveitadas, só neste ano e que, noutros países, com uma tradição de pecuária muito abaixo da da nossa Região, teriam sido, quase na sua maioria, aproveitados para fins diversos, na quase maioria para a alimentação.
Na altura em que José Batista realizou o estudo “Proteínas do Lactosoro – Poluição ou mais valia. Determinação da sua capacidade de gelificação”, publicado na revista Açoreana da Universidade dos Açores, as informações que lhe foram avançadas pelo Instituto de Alimentação de Mercados Agrícolas (IAMA), avançavam em 98 para um desperdício à volta das mil toneladas, se tivermos em conta que, do soro resultante da produção de queijo, apenas cerca de 5% é aproveitado.
“Das mil toneladas, passamos para as duas mil, que não são aproveitadas mas que deveriam ser, pois estas proteínas são mais pequenas que as caseínas, são mais digeríveis quer por pessoas com algumas dificuldades em digestão quer pelos bebés. Nalguns países, as farinhas para os bebés são feitas com as proteínas do soro. Mais, se eu for medir o valor nutritivo destas proteínas do soro comparadas com as outras, estas primeiras possuem uma maior quantidade de aminoácidos essenciais, substâncias não produzidas pelo nosso organismo mas que nos são necessárias”, refere José Batista.
Para além deste aspecto, outro prende-se com a função destas proteínas: “hoje em dia, cada vez mais, os mercados estão mais exigentes em encontrar alimentos com maior valor nutritivo e com melhores condições organolépticas. Ou seja, há a necessidade de se procurar proteínas que tenham, no organismo, funções específicas. Por exemplo temos enzimas com propriedades higroscópicas e que se adicionados a produtos de confeitaria, poderei aumentar o tempo de prateleira destes produtos. Outros enzimas há que têm propriedades de gelificação – géis – e outros têm outras funções. A sua aplicação poderá ser enorme no mercado de hoje”, acrescenta.
Outro aspecto que este investigador considera de realce é a importância da lactose, que constitui cerca de 45% da matéria sólida, que também é alvo de aproveitamento, por exemplo, por parte da indústria farmacêutica e da de panificação. “Se se adicionar lactose ao pão, o seu tempo de prateleira será maior e isso permite que o mesmo tenha uma maior qualidade”, diz ainda.

SORO: MIL E UM APROVEITAMENTOS POSSÍVEIS

Segundo o estudo publicado por este docente, uma forma racional de tornar competitivos o leite e os seus derivados, para além do inadiável aumento de maior rendibilidade, seria a possibilidade de valorizar os seus subprodutos, uma vez que o concentrado de proteínas do lactosoro (CPL), é uma fonte excelente de proteínas, obtidas a baixo custo, cuja não utilização e consequente rejeição não só se traduz em prejuízo económico, como até conduz a graves problemas ambientais.
Como aditivo ou complemento alimentar, pode ser utilizado em lete reconstituído, dietas infantis, gelados, bebidas, carnes processadas (hambúrgueres) e, devido às suas propriedades de gelificação, pode ser utilizado, com vantagem, na substituição da clara do ovo, uma vez que apresenta uma firmeza três vezes superior.
Entre os numerosos produtos derivados do lactosoro figuram o soro em pó, soro desmineralizado, lactose, lactose hidrolisada e proteínas purificadas.
Outro aspecto a considerar, defende este investigador, prende-se com o uso do lactosoro como complemento alimentar para animais, especialmente vacas leiteiras, uma vez que “tem-se observado que a qualidade do leite proveniente de manadas alimentadas nestas condições melhora, apresentado mais pontos ao nível da matéria gorda e das proteínas.
Mais, ao nível da saúde, de acordo com o investigador Neurath (1996), director do Laboratório de Bioquímica e Virologia do Instituto de Investigação “Lindsley F. Kimball – New York Blood Center”, a proteína mais abundante no lactosoro dos bovinos, a ß – lactoglobulina, pode intervir activamente na prevenção da transmissão do vírus HIV, que provoca a SIDA. Esta descoberta pode prevenir, a custos reduzidos, a rápida proliferação da SIDA, uma vez que esta proteína disponível no lactosoro “pode, facilmente, ser isolada por Cromatografia Líquida de Alta Pressão (HPLC) à escala preparativa num grau de elevada pureza, necessária ao uso terapêutico”, acrescenta José Batista.
Quanto à lactose, “devido ao seu poder de absorção de água e à sua afinidade com alguns compostos, pode ser utilizada na indústria alimentar como absorvente e fixador de cor e aromas, sobretudo na confeitaria. Na indústria farmacêutica, a lactose, obtida do soro desproteinizado é um componente de eleição, como substrato na fabricação de comprimidos, devido à sua grande estabilidade relativamente aos constituintes activos”, conclui.
Estes exemplos demonstram assim que, a utilização do lactosoro, até aqui visto como uma fonte de poluição e desperdiçada em grandes quantidades, desde a sua forma mais simples, como alimento para o gado, até uma forma mais elaborada, em farmácia e dietética, poderá vir a representar uma mais valia para a Região Açores. Nestes dois extremos podemos mesmo encontrar uma série de possibilidades “tecnologicamente viáveis”, segundo José Batista, que estão dependentes de outros numerosos factores, nomeadamente, geográficos, económicos, comerciais, financeiros e políticos.

Fonte: http://www.azoresglobal.com/canais/noticias/noticia.php?id=6030

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