Silagem de cana-de-açúcar na alimentação de ovinos e caprinos

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A estacionalidade climática, caracterizada por períodos prolongados de seca ou de umidade, proporciona produção desigual de forragem ao longo do ano. Neste contexto, torna-se necessário o uso de alternativas para suplementação de volumosos para o rebanho. A preferência pela utilização da cana-de-açúcar está associada a algumas características importantes da cultura, como: elevada produção de matéria seca (MS) e de nutrientes digestíveis totais (NDT), menores perdas, baixo custo por unidade de MS e coincidência da colheita com o período de escassez de alimento (BOIN et al., 1987). Porém, quando utilizada como alimento exclusivo para ruminantes, a cana-de-açúcar possui limitações importantes do ponto de vista nutricional, devido ao desequilíbrio de nutrientes, apresentando teor muito baixo de proteína bruta e da maioria dos minerais, principalmente fósforo.

O Brasil é hoje o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Estima-se que 10% da área plantada seja destinada à alimentação animal. Tradicionalmente a cana-de-açúcar é utilizada in natura na alimentação de rebanhos através do corte e fornecimento diário, entretanto, esta prática exige diariamente mão-de-obra para as atividades de corte, despalhamento, picagem e transporte, estabelecendo limitações logística e operacional na suplementação de grandes rebanhos e problemas relacionados à colheita em dias chuvosos. Além disso, a redução do teor de sacarose durante o verão leva à perdas no valor nutritivo (Matsuoca; Hoffmann, 1993), dificultando sua utilização como forragem durante o ano todo.

A conservação da cana-de-açúcar na forma de silagem é um tema que vem se destacando nos últimos anos, despertando interesse crescente de produtores e pesquisadores, em função dos benefícios em logística e operacionalidade que esse volumoso ensilado pode apresentar (Schmidt; NUSSIO, 2004). Ao ensilar, evita-se a manutenção da biomassa no campo, reduzindo os riscos de acamamento que normalmente inviabiliza o corte mecanizado. Da mesma forma, canaviais submetidos a incêndio voluntário ou acidental, ou queimados pela geada, precisam ser usados rapidamente para evitar a conversão de sacarose e a perda de carboidratos pela respiração, sendo nesse caso, obrigatório o processo de ensilagem (Schmidt; NUSSIO, 2004). Assim, esta alternativa possibilita a viabilização do uso da cana-de-açúcar na alimentação de rebanhos de qualquer tamanho.

A maioria das forrageiras ensiladas apresenta problemas para alcançar um processo fermentativo adequado devido ao seu baixo conteúdo de carboidratos solúveis. Com a cana-de-açúcar a situação é inversa, visto que há abundância desses carboidratos, o que estimula não só a ocorrência de fermentação ácido-lática no material ensilado, como também a fermentação alcoólica (PRESTON et al., 1976).

Uma das limitações da silagem de cana-de-açúcar seria o tipo de fermentação, que é alcoólica. A elevada produção de etanol se deve às leveduras epífitas que vêm do campo com as plantas e utilizam os carboidratos solúveis destas. Esta fermentação, além de levar a uma significativa perda de energia, ao passar de sacarose para álcool, a volatilização deste composto acarreta elevadas perdas de MS, do valor nutritivo da forragem e provoca diminuição do consumo pelo animal, principalmente na fase de adaptação, após o fornecimento das silagens no cocho (Schmidt et al., 2004).

O álcool produzido significa perdas por razões da fermentação do açúcar com perda de CO2 (McDONALD et al., 1991) e por volatilização do álcool na massa ensilada, fato que provoca diminuição de consumo pelo animal logo após a retirada do silo (NUSSIO et al., 2003). Contudo, deve-se considerar segundo Chalupa et al. (1964), que o etanol quando ingerido é convertido em acetato no rúmen, contribuindo assim energeticamente para o animal.

Deste modo, torna-se necessário a utilização de aditivos que alterem a principal rota fermentativa e reduzam as perdas de valor nutritivo nesses volumosos, seja por inibição da população de leveduras e/ou bloqueio da via fermentativa de produção de álcoois (NUSSIO; Schmidt, 2005). Recentes pesquisas têm buscado com a utilização de aditivos obter um melhor padrão de fermentação da silagem da cana-de-açúcar, que propicie controle da produção de etanol e aumento da estabilidade aeróbia da forragem.

Nos últimos anos tem-se observado um crescente número de trabalhos que avaliaram o desempenho animal, referentes à utilização de silagem de cana-de-açúcar com aditivos. Mendes (2006), em experimento com cabras com aproximadamente 83 dias de lactação no início do experimento, não verificou diferença na produção de leite, sendo 1,65 kg/d e 1,48 kg/d para cana-de-açúcar fresca e silagem de cana-de-açúcar inoculada com L. buchneri, respectivamente.

Com relação à composição leite, o teor de gordura foi maior para os animais do tratamento com silagem de cana-de-açúcar inoculada com L. buchneri (5×104 ufc/g MV). O mesmo autor avaliou a digestibilidade aparente no trato digestório total de cordeiros Santa Inês e constatou melhores coeficientes de digestibilidade na fibra em detergente neutro, fibra em detergente ácido e hemicelulose para as rações que continham silagens de cana-de-açúcar.

Gentil (2007) ao avaliar rações, com 50% concentrado e 50% volumoso, contendo cana-de-açúcar in natura e silagens de cana-de-açúcar com diferentes doses de uréia e inoculadas com L. buchneri na alimentação de cabras em início de lactação verificou que o consumo de matéria seca não diferiu entre os tratamentos avaliados (Tabela 1). O consumo médio dos animais foi de 2,25 kg/dia. Este fato refletiu na produção de leite, já que este também apresentou resultados semelhantes entre os tratamentos sendo a produção média de 2 kg/dia.

Tabela 1 – Consumo de matéria seca (MS), produção de leite, eficiência alimentar e teor de gordura no leite das cabras no início da lactação alimentadas com as rações experimentais

Item

Tratamentos1

EPM2

Contrastes (P>F)3
CC SAD U1,0 U1,5 CC x SAD U1,0 x U1,5 CC x U1,0 e U1,5
CMS , kg/d 2,43 2,16 2,25 2,10 0,13 ns6
Produção de leite, kg/d 2,07 2,04 1,99 1,92 0,19 ns6
Eficiência Alimentar 0,83 0,96 0,87 0,96 0,09 ns6
Gordura ,% 3,23 3,43 3,65 3,86 0,08 0,07 0,06 < 0,01

1Tratamentos: CC= Cana-de-açúcar frescapicada, SAD= silagem de cana-de-açúcar inoculada com L. buchneri (5×104 ufc/g MV), U1,0= silagem de cana-de-açúcar aditivada com 1,0% de uréia, U1,5= silagem de cana-de-açúcar aditivada com 1,5% de uréia. 2Erro padrão da média; 3Probabilidade de haver efeito significativo entre tratamentos (P<0,05).

Ao comparar o tratamento cana-de-açúcar fresca com as silagens de cana-de-açúcar aditivadas com uréia (U1,0 e U1,5), Gentil (2007) observou aumento no teor de gordura do leite das cabras alimentadas com os materiais ensilados, o que segundo Susmel et al. (1995) pode ser explicado pelo fato de que a inclusão de uréia na forragem pode propiciar aumento na digestibilidade, com conseqüência direta da melhor utilização da fibra dietética disponibilizando assim, os precursores para a síntese de lipídios na glândula mamária. Adicionalmente os produtos da ensilagem podem, segundo Huhtanen et al. (2003), modificar a composição de nutrientes absorvidos pelo trato digestório e consequentemente a composição do leite.

Mendes (2006) avaliou rações contendo silagens de cana-de-açúcar na alimentação de cordeiros Santa Inês, compostas por 50% de volumoso e 50% de concentrado, diferindo quanto ao tipo do volumoso utilizado: cana-de-açúcar in natura, silagem de cana-de-açúcar sem aditivo e silagem de cana-de-açúcar aditivada com L. buchneri (5×104 ufc/g MV). O autor não verificou diferença no consumo de matéria seca (1,4 kg/dia e 3,9% do peso vivo, média entre os tratamentos). Estes valores são bastante satisfatórios, considerando que o NRC ovinos (1985) recomenda para cordeiros com peso médio de 30 kg e idade de 4 a 7 meses consumo de 1,3 kg de MS/dia.

A utilização da cana-de-açúcar na forma de silagem não afetou o ganho de peso e a conversão alimentar dos animais sendo os valores de 0,18 kg/dia e 8,10 kg de MS ingerido/kg de ganho, respectivamente. Considerando a relação volumoso:concentrado utilizada e o objetivo deste estudo em avaliar o efeito do volumoso na dieta, os ganhos obtidos foram satisfatórios.

Tabela 2 – Desempenho de cordeiros confinados alimentados com silagem de cana-de-açúcar

Item Tratamentos1 EPM5 P6
SC SCS SCS+Lb
CMS2, kg/dia 1,43 1,39 1,33 0,06 0,47
CMS2, % PV 3,9 3,9 3,8 0,13 0,71
GMD3, kg 0,193 0,170 0,167 0,01 0,14
CA4, kg MS/kg de ganho 7,5 8,2 8,4 0,33 0,15

1Tratamentos: SC= Cana-de-açúcar in natura picada, SCS= Silagem de cana-de-açúcar sem aditivo, SCS+Lb= Silagem de cana-de-açúcar aditivada com L. buchneri (5×104 ufc/g MV); 2Consumo de matéria seca em kg/dia e porcentagem do peso vivo; 3Ganho médio diário; 4Conversão alimentar; 5Erro padrão da média; 6Probabilidade de haver efeito significativo entre tratamentos (P<0,05).

Em relação às características da carcaça o autor observou rendimentos da carcaça quente (RCQ), rendimento da carcaça resfriada (RCR) e quebra por resfriamento (QR) semelhante entre os tratamentos. Os valores médios entre os tratamentos foram de 47,6%; 46,3% e 2,63% para as variáveis RCQ, RCR e QR, respectivamente. Os valores observados para estes parâmetros estão de acordo com dados disponíveis na literatura para animais da raça Santa Inês.

Em experimento realizado por Amaral et al. (2007) verificou-se que ovelhas da raça Santa Inês alimentadas com silagem de cana-de-açúcar ou cana-de-açúcar in natura (relação concentrado:volumoso, 50:50) obtiveram valores semelhantes em relação ao CMS (1,94 e 2,12 kg/dia, respectivamente) e produção de leite (1,26 e 1,40 kg/dia, respectivamente). Contudo, os animais alimentados rações contendo silagem de cana-de-açúcar apresentaram maiores teores de gordura (7,96%) em relação às ovelhas arraçoadas com cana-de-açúcar in natura 6,24%.

Assim, a utilização da silagem da cana-de-açúcar na alimentação de ovinos e caprinos  se mostra uma valiosa ferramenta, para os produtores, na suplementação de seus rebanhos.

12/08/2007 – Renato Shinkai Gentil e Gustavo Henrique Rodrigues – Doutorandos em Ciência Animal e Pastagens – ESALQ/USP. rsgentil@esalq.usp.br
Fonte: Site da ACCOBA

Site: http://www.caroata.com.br/detalheArtigo.php?idartigo=17

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