RESTOS DE PEIXES PODEM VIRAR RAÇÃO

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O estado do Amazonas desperdiça cerca de 40 mil toneladas de peixe todos os anos em função da sua elevada produção sazonal e da falta de infra-estrutura para conservação e armazenagem de pescado. De acordo com a Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulp), todos os dias são jogados 24 toneladas de peixe nas feiras municipais de Manaus. Além da falta de local apropriado para condicionamento do excesso de peixe, o Ibama aponta a falta de adequação dos barcos para armazenamento do pescado.

De acordo com a Agência de Pesca e Aquicultura do Estado do Amazonas (Sepa) a produção pesqueira do Amazonas é de 160 mil toneladas por ano, sendo que 90 mil são consumidas pela pesca de subsistência e o desperdício é de 25% por ano. O consumo médio anual de peixe em Manaus fica em torno de 35 quilos, enquanto no Brasil é de 7 a 8 quilos. Nos peixes são encontrados o cálcio, ferro, zinco, sódio, potássio e selênio – responsáveis em suprir as deficiências minerais das populações vulneráveis da Amazônia.

Para solucionar o problema do desperdício de peixe em Manaus, as autoridades do setor poderiam seguir o exemplo da vizinha cidade de Belém, onde já existe uma empresa responsável pela reciclagem de restos de pescados que, misturados com cereais, se transformam em ração.

De acordo com matéria veiculada no jornal O Liberal, assinada pelo jornalista Jorge Herberth, os resíduos de pescado produzidos em 44 feiras, 18 mercados, 3 portos e nas indústrias pesqueiras de Icoaraci, em Belém, poderão ser reciclados ainda este ano. Estima-se que a produção diária de vísceras, escamas, cabeças e espinhaços, somente na esfera pública, seja de 2.750 quilos, enquanto nos frigoríficos, onde o pescado é filetado para exportação, são geradas diariamente de 25 a 30 toneladas de resíduos. Contrariando a legislação ambiental, até o início deste ano todo esse ‘lixo orgânico’ era jogado direto na baía, canais ou depositado com o lixo doméstico no Aterro Sanitário do Aurá, contaminando a água e o solo. Sem fiscalização do Poder Público, a maior parte continua tendo o mesmo destino. Na água, esses resíduos produzem microorganismos, reduzem o oxigênio para a sobrevivência da vida aquática e comprometem a qualidade da água para consumo humano, afora os riscos de infecções, segundo informa a bióloga Paula Freitas, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belém (Semma).

Hoje, parte do que a indústria produz é reciclado, mas o sistema pode se adequar também às feiras e mercados, a partir do Ver-O-Peso, mercado de Icoaraci e feira da 8 de Maio, também no distrito. Na semana passada a parceria com uma empresa de reciclagem de Icoaraci foi proposta aos peixeiros, geleiros, feirantes e à iniciativa privada, com a intermediação da Secon. O projeto está em avaliação por uma comissão de técnicos de várias secretarias municipais e comissão de peixeiros, feirantes e geleiros. Em pauta, os benefícios, as responsabilidades e, principalmente, métodos para reeducação dos agentes envolvidos em respeito ao meio ambiente e à saúde pública.

As conseqüências estão evidentes diariamente quando a maré baixa no Ver-O-Peso, o maior cartão postal de Belém, e mau cheiro exala por causa dos restos despejados diretamente na baía de Guajará.

No mercado de peixe do Ver-O-Peso há 60 talhos, onde são vendidos cerca de 300 a 400 quilos de peixe por dia. O peixeiro José Alacir Soares Cordeiro, 49 anos, representa a categoria na comissão que analisa a proposta. Com 40 anos de experiência, ele acredita na reciclagem. ‘Todos nós queremos colaborar e não cobraremos nada pelos resíduos durante os três meses de experiência do projeto’, afirma. Hoje os peixeiros estão mais preocupados com o início do projeto e como ele será executado.

Manuel Rendeiro, o ‘Didi’, diretor do Departamento de Feiras, Mercados e Portos da Secon, a idéia é firmar um convênio que beneficie as duas partes. ‘É necessária a contrapartida do kit de trabalho e o compromisso com cursos para que peixeiros e feirantes conheçam a qualidade do pescado e dos resíduos que produzem’, disse ele.

EXPERIMENTAL

A empresa responsável pela reciclagem é filiada à Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra) e fica no Distrito Industrial de Icoaraci. Em fase experimental desde fevereiro deste ano, a empresa recicla até 30 toneladas de resíduos por dia de oito indústrias que filetam pescado para exportar. Até julho, a capacidade instalada será de 80 toneladas de resíduos por dia. Hoje Belém beneficia cerca de 50 toneladas de pescado por dia. Na indústria, quando as pesqueiras não estão usando a cabeça de peixe como isca para pescar lagosta a produção de resíduos chega a 55% do peixe beneficiado.

Como no varejo a produção é um pouco menor, em torno de 37 a 45 por cento, o projeto terá uma fase experimental de três meses, para que sejam avaliadas as vantagens econômicas. Na indústria, os resíduos ficam em câmaras frigoríficas ou no gelo, dentro de contêineres e a retirada só acontece uma vez por dia. No caso dos mercados e feiras os resíduos poderão ficar no gelo, com até duas retiradas ou apenas uma feita às 12h. Mas os diretores da empresa de reciclagem, Bruno de Freitas e Fábio Stival, alertam: ‘A reciclagem não pode ser feita com matéria-prima estragada, podre’. Os diretores acreditam que serão necessários alguns cursos para que a manipulação e a conservação dos resíduos sejam feitas de forma correta. ‘Tudo é reaproveitado e processado, mas não pode haver falha’, afirmam.

Depois da coleta e do transporte dos resíduos até a empresa, as fases do processo de reciclagem consistem basicamente em descarregar todo o produto em um tanque. Por meio mecanizado os resíduos são transportados para digestores, onde através de processo de hidrólise passam por cozimento e secagem. Dos digestores, já em forma pastosa, uma prensa separa as partes sólidas (os tabletes, em forma de bolo de farinha) e a líquida (óleo bruto). Hoje em Icoaraci a empresa está fazendo a reciclagem até esta etapa e envia por estrada os dois produtos, embalados em sacos e tambores para Fortaleza (CE), onde a parte sólida é moída, passa no homogeinizador e recebe tratamento com antioxidantes. O óleo é filtrado e refinado para retirar umidade e vácuo. Também é homogeneizado e tratado com antioxidante. Essas etapas serão feitas aqui até agosto. Segundo os diretores, uma tonelada de resíduos produz 150 quilos de insumos. E um quilo de ração contêm até 5 por cento desse insumo, o resto é composto com milho, farelo de soja ou outro produto. O preço do quilo de insumo não foi fornecido, mas com o ‘mal da vaca louca’ o insumo de pescado está mais valorizado e, no Brasil, Belém está entre as quatro primeiras cidades que já dispõem de uma empresa de reciclagem de resíduos de pescado.

Fonte: http://mariofrota.com.br/2011/01/restos-de-peixes-podem-virar-racao/

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