Raça x alimentação

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Por

José Ubiraci Alves*

Dentro da produção animal, três fatores assumem capital importância no desempenho dos indivíduos: a genética, através da raça, da variedade ou da linhagem; o ambiente, através do clima, da alimentação/nutrição, do manejo, etc. e a interação entre eles.

No Nordeste, onde se encontram os maiores rebanhos caprino e ovino do País – 92% e 58%, respectivamente, do total existente – a produção é extremamente baixa e grandemente afetada pelo desequilíbrio entre a raça e a nutrição dos animais. Este desequilíbrio quase sempre é resultante de um manejo cuja idéia central tem a raça como única e independente saída para o sucesso produtivo desses animais. Grande equívoco!

A raça tem uma grande parcela no desempenho produtivo dos rebanhos. Mas, mesmo raças especializadas na produção de carne ou leite, sem um manejo alimentar/nutricional que faça jus à bagagem genética que as caracteriza, têm se apresentado com produções medíocres, muitas vezes inferiores às das raças naturalizadas e menos especializadas, porém adaptadas ao meio.

A introdução de novas raças especializadas, tanto para a produção de carne como de leite, tem sido utilizada nos rebanhos caprinos e ovinos de todo território nacional, e isto já vem acontecendo há algumas décadas. São raças de origens européia, africana, asiática, americana etc. afora, as raças naturalizadas que já passaram por algum tipo de melhoramento produtivo, como os ovinos Santa Inês, Morada Nova e Somalis Brasileira.

A despeito da variedade de raças introduzidas e do tempo que isto vem acontecendo, não se tem obtido um crescimento produtivo, que justifique os custos técnicos, sociais e econômicos desta prática.

A introdução de novas raças caprinas e ovinas no País, com elevados índices produtivos para carne ou para leite, tem sido praticada de forma indiscriminada e, muitas vezes, respaldada no modismo que periodicamente surge em torno desta ou daquela raça. Quase sempre são animais de custo muito elevado, oriundos de regiões cujas condições de alimentação, clima, instalações e manejo, são completamente adversos das que aqui se encontram; apenas trazem consigo um patrimônio genético especializado para produzir bem sob as suas condições de origem.

Porém, dado que o caprino e o ovino são animais com alta capacidade de adaptação, é certo que, a curto e médio prazos, as adversidades como o clima, as instalações e o manejo sejam logo superadas e não mais sejam motivo para uma drástica redução na produção.

Mas, por outro lado, se não lhes for fornecida uma alimentação compatível com sua capacidade de produção, nem mesmo a longo prazo a introdução dessas raças trará alguma melhoria na produção do rebanho, mesmo frente à especializada capacidade genética de cada uma delas. Pelo contrário, é provável que a produção apresente-se ainda mais baixa que a do rebanho original naturalizado, como se tem verificado na maioria dos rebanhos submetidos a esse tipo de intervenção, especialmente na região Nordeste.

A Embrapa Caprina, quando da realização de suas atividades de transferência de tecnologias, como visitas técnicas, palestras, cursos, dias de campo e clínicas tecnológicas, dentre outras, vem mostrando sua preocupação e alertando a empresários, técnicos e produtores, acerca da introdução de raças “melhoradoras” nos rebanhos nacionais, sem os devidos cuidados com a alimentação desses indivíduos, tanto na quantidade como na qualidade dos alimentos.

De modo geral, as raças introduzidas são de médio a grande porte, sendo, pois, de maior tamanho que as naturalizadas e, portanto, com exigências alimentares superiores, em relação aos animais naturalizados. Some-se a isso, a elevada capacidade de transformar os alimentos em carne e leite, em função de sua bagagem genética. Portanto, uma alimentação/nutrição fundamentada nas reais exigências desses animais torna-se imprescindível para se obter o sucesso esperado na melhoria produtiva dos indivíduos. Todavia, isto tem sido negligenciado pela maioria dos produtores de caprinos e ovinos que fazem uso de animais de raças exóticas para a melhoria de seus rebanhos.

Uma alimentação à base de forrageiras de alta qualidade como os capins Tanzânia, mombaça, tífton, estrela e outros de reconhecido valor nutricional, são indispensáveis no dia a dia dos animais. Também, é amplamente recomendada uma boa suplementação alimentar, à base dos fenos de leucena, de alfafa, de feijão guandu, etc. ou mesmo as silagens de sorgo, de milho e de capim elefante, que poderão ser muito bem utilizadas.

Aliado a estas considerações, não se pode esquecer o fornecimento contínuo de sais minerais, tendo em vista que os minerais, entre outras virtudes, são de extrema importância para o melhor aproveitamento do alimento consumido, favorecendo, grandemente, o desempenho produtivo do rebanho, com reflexos positivos na taxa de natalidade, no índice de prolificidade, na mortalidade e no ganho de peso dos animais.

Quanto ao uso de suplementos protéicos, mesmo sendo de elevado custo, a recomendação é que não seja negligenciado. A recomendação, então, sugere o uso de quantidade apenas suficiente para atender aos requerimentos diários dos animais. Assim poderão ser usados: farelo de soja, torta de algodão, feno da maniçoba e outros.

Assim, fica o alerta para todos aqueles que fazem uso da prática da introdução de animais exóticos nos rebanhos caprinos e ovinos nacionais, sem o devido e necessário cuidado com a alimentação/nutrição desses animais.

“A raça, por si só, não traz nenhum benefício produtivo aos rebanhos caprinos e ovinos do País! Os rebanhos somente poderão expressar elevada produção se forem submetidos a programas de alimentação que atendam à plenitude dos seus requerimentos nutricionais”.

*Pesquisador da Embrapa Caprinos

Fonte: http://www.nordesterural.com.br/nordesterural/matler.asp?newsId=3189

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