Raça Caracu

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Com certeza, é o gado europeu mais adaptado ao clima tropical, no mundo inteiro, pois está presente no Brasil desde o período colonial. Descendente de bovinos portugueses (Minhota e Alentejana), por meio de cruzamentos nos Brasil, resultou no Caracu. Ou simplesmente, foi formado a partir da mistura de diversos gados ibéricos nos séculos XVI e XVII.

A história ancestral começa, por volta de 27 a.C. quando o imperador César Augusto alcançou o rio Loire, na região da Gália, com suas tropas, ali deixando um gado que, depois, chegaria a Portugal e a Hispânia, por volta do ano 200 d.C., subdividindo-se um gado de chifres longos o curtos. O ramos do Bos taurus aquitanicus cruzou-se com o do Bos taurus ibericus o também com o do Bos taurus batavicus (ancestral do gado holandês) formando diversas raças na península ibérica, destacando-se a Alentejana, a Minhota, a Mirandesa, a Barrosa, a Brava, a Transtagana, a Arauquesa, a Galesa e outras.

Esse gado chegou ao Brasil, logo no início da colonização, principalmente no Sergipe, Ceará, Bahia e Pernambuco. Em 1817, Aires do Casal escrevia que “a serra do Caracu ficava entre os rios Curu e Acaracu”, ou ainda, “o rio Caracu, na vila de Sobral deságua a onze léguas a leste da enseada de Jericoacoara”; e mais, “Sobral, noutro tempo chamada Caracu, assentada numa planície que lhe deu o nome primitivo, a 20 léguas do mar… (Coreographia Brasílica, 1817.

Existem outras explicações para o nome “Caracu”; a) do peixe “Caracu”, uma espécie de cascudo amarelo (coIoração igual a do bovino; b) a expressão tupi-guarani Caariacu que significa “bicho que vive escondido no mato”, indicando um veado avermelhado da Bahia; c) a expressão “caracu”, indicando o animal de “cara-curta” do Vale do Sapucaí. E “karaku”, da língua guarani, significando “tutano”, indicando um bovino graúdo e forte.

Felius (1985) mostra que o Caracu é bastante similar ao “Horned Sinú”, também desenvolvido a partir de gado espanhol, na Venezuela e Bolívia, tanto quanto é similar com o Criollo argentino e com o “Romo Sinuano”.

A seleção mais antiga, que persiste até hoje, teve início em 1893, na região de Poços de Caldas, no sul de Minas, sob o nome de “Caracu caldeano”, da família Carvalho Dias.

O Registro Genealógico foi fundado em 1916. Os cafezais praticamente não teriam sido tão ricos sem a ajuda imprescindível do Caracu, pois ele era responsável pelo transporte, pela aração de terras e pela produção de leite. A partir de 1935, a pecuária mudava-se para fronteiras longínquas e procurava novas raças, abandonando aquelas que haviam servido nos cafezais.

O governo introduziu o Caracu na Estação Experimental de Nova Odessa, SP, desde o inicio do século XX. Em 1976, o Instituto de Zootecnia, em Sertãozinho, SP, introduz o Caracu em suas pesquisas, tornando-se importante referência para a raça. Em 1980 surge a Associação Brasileira de Criadores de Caracu, retomando o registro que havia sido paralisado desde 1960.

Na década de 1990, foi aprovado um Herd Book especial para o Caracu Mocho, obtido por meio de infusão com o gado Mocho Nacional, também de origem aquitânica e ainda preservado no Brasil. O Mocho Nacional foi consolidado, no inicio do século, por infusão de sangue Caracu sobre o gado mocho goiano, este de origem desconhecida. O habitat da raça está no sul de Minas Gerais, no Estado de São Paulo, no Paraná e Mato Grosso do sul, embora encontram-se animais espalhados pelo país inteiro.

Funcionalidade – No início, a pelagem era a mais variada possível (Cotrim, 1913, p. 137). Hoje, a pelagem é amarela, variando até o vermelho, evitando-se pêlos negros ou manchas brancas. Em regiões ou situações em que se busca um produto cruzado rústico e lucrativo, o Caracu surge como excelente opção pela sua secular adaptação ao clima tropical. Afinal, a raça já viveu no Nordeste, Sudeste, Brasil Central, Pantanal matogrossense e até no sul do país. Os touros Caracu são rústicos, cobrindo as vacas em regime de pasto: é a única raça européia com tal desempenho sob o sol tropical.

Se haviam amantes devotados pelo Caracu, também havia os inimigos ferrenhos do gado nacional. O governo fez publicar o majestoso livro “A Fazenda Moderna”, em 1913, de Eduardo Cotrirn, com muitas páginas coloridas (foi impresso em Bruxelas, na Europa), para mostrar as melhores raças bovinas do mundo e, ao mesmo tempo, criticar severamente todas as raças nacionais e até o Zebu, gastando várias páginas para desancar o Caracu e congêneres. Este livro foi um ponto decisivo para o abandono da raça, na ocasião. Finalizava Cotrim: “não temos método algum; o nosso gado até hoje tem vivido em completo abandono. A indústria não existe porque o sistema adotado como o mais cômodo é o da perfeita selvageria. O gado nutre-se das plantas que crescem espontaneamente no campo e os animais ferozes se alimentam com o produto novo do mesmo gado. Quando houvermos criado meios de proteção para o gado, quando tratarmos de melhorar os nossos campos, plantando neles melhores forragens e quando selecionarmos os reprodutores, eliminando o que houver de inconveniente, teremos dado principio ao processo da criação extensiva que, por ora, não existe nem mesmo na boa vontade dos criadores”.

Poderia ter dito que tudo isso era possível de ser realizado sem pregar a destruição do patrimônio genético bovino já consolidado na época Modernamente, tanto o Zebu como o Caracu são vencedores diante dos rigores do sol tropical.

Aptidões econômicas ? No início do século, o período de lactação foi de 12 meses para as vacas de Nova Odessa, com 6 animais acima de 2.200 kg e máxima de 2.701 kg de leite. O Caracu pariu entre 89.95%, de mestiças de Flamengo entre 65-70% de Schwyz entre 70-73% de Simental entre 50-60% de Red Polled entre 75-80%, de Devon entre 70-74% de Hereford entre 75-80% . No tratado “L´élevage en Europe et en Amérique”, obra premiada de Henri Scheider, de 1914, é fácil verificar que o Caracu é mas pesado que os “precoces”, posando 298 kg aos 12 meses, 521 kg aos 24 meses, 745 kg aos 36 meses, enquanto que os precoces pesam 300 kg aos 12 meses, 498 kg aos 24 meses e 650 kg aos 42 meses.

Atualmente, as vacas pesam entre 500-650 kg, com recordes acima de 770 kg; os machos pesam entre 850-1.100 kg, com recordes acima de 1.200 kg. São animais de muita longevidade produtiva. E de dupla aptidão, com carne suculenta e apreciada. A produção leiteira varia de 2.100-3.000 kg, e 3,5-5,0 % de gordura, com recordes acima de 5.000 kg.

No mundo – O Caracu constitui o “maior patrimônio biológico europeu no Brasil”, tendo grande importância para o mundo inteiro. Atualmente, o Caracu vem sondo pesquisado na Argentina, Bolívia o outros países, devido a boa qualidade da carne. Jorge de Alba, da OEA, disso em 1956, que “o Caracu era uma grande surpresa para a Zootecnia mundial dentro de um país cheio de surpresas”. O Caracu é uma raça com a idade do Brasil, nascida no Brasil e, sem dúvida, é o primeiro taurino tropical das Américas e, por 550 mesmo, apresenta um valor incalculável para a moderna Zootecnia. Tecnologia genética – Foi instituído recentemente o “Census Caracu”, administrado pela USP/Ribeirão Preto e endossada pelo Ministério da Agricultura, para promover um melhoramento acelerado da carcaça do Caracu, tendo em vista massificar o uso do Caracu e do gado Mocho Nacional nos cruzamentos.

No CNPGC, da Embrapa/Campo Grande, MS, o Caracu participa de um programa de cruzamentos com as raças Romo Sinuano, Semepol, Tuli e outras.

Fonte: Os Cruzamentos na Pecuária Tropical – Ed. Agropecuária Tropical – Digitalizado pelo Boletim Pecuário.

http://cienciadoleite.com.br/?action=1&type=1&a=60

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