Quanto custa produzir cordeiros?

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Carina Simionato de Barros; Alda L.G. Monteiro; Odilei R. Prado

A pergunta “quanto custa produzir…” é muito comum, e é aquilo que mais se escuta em eventos, palestras e conversas entre produtores. A questão é: Como responder de forma correta e segura?

 Em primeiro lugar, para se ter a resposta de “Qual é o custo de produção”, há necessidade de se fazer uma coleta de dados na propriedade e da organização destes para gerar informações úteis aos cálculos.

 Em segundo lugar, deve-se ter em mente: O que é o custo de produção? Quando se fala em custos, há diversas classificações: custo variável, fixo, operacional efetivo, operacional total, custo total de produção etc. Aqui já surge a primeira problemática… Qual desses custos deve ser usado nas análises?

 Portanto, tendo em mãos as informações necessárias e a metodologia de cálculo a ser utilizada, pode-se calcular o custo de produção, que pode ser da atividade em seu todo, por hectare, por matriz, por cordeiro, por quilo, entre outros.

 É muito importante ter em mente que o custo de produção, normalmente, é feito para uma propriedade, sendo, dessa forma, específico para a que cria animais sob determinadas condições específicas. Qualquer alteração no processo produtivo ou em preços acarretará mudanças no custo produtivo. Por isso, deve-se ter muita cautela ao comparar propriedades diferentes. Isso até é possível, desde que se tomem alguns cuidados e seja avaliada com critério a metodologia de cálculo empregada.

 Agora vamos a alguns exemplos, já que os leitores esperam alguns números em reais como base. Os custos apresentados são de sistemas de terminação de cordeiros realizados no Laboratório de Produção e Pesquisa (LAPOC) da UFPR, sendo o custo de um ano, com uma estação de monta. O cálculo foi realizado para um rebanho de 150 ovelhas numa área de pastagem cultivada (capim Tifton e azevém) de nove hectares em três sistemas e sete no confinamento. Quatro sistemas distintos foram realizados:

1. Cordeiros terminados ao pé da mãe em pastagem, sem o desmame;

2. Cordeiros desmamados precocemente (45 dias), mantidos em pastagem e suplementados com concentrado com 20% PB em 2% do seu peso por dia;

3. Cordeiros desmamados precocemente (45 dias), mantidos em pastagem e suplementados com concentrado com 20% PB à vontade;

4. Cordeiros desmamados precocemente (45 dias) e confinados em aprisco suspenso com dieta composta por 60% de silagem de milho e 40% de concentrado com 20% PB.

 Para o cálculo do custo, optou-se por utilizar o Custo Total de Produção, ou seja, aquele que leva em conta todos os itens relacionados à atividade e também os encargos financeiros (juros, custo de oportunidade do capital investido). Os itens considerados foram:

– Alimentação;

– Medicamentos;

– Pastagem;

– Energia elétrica;

– Conservação das benfeitorias;

– Conservação de máquinas;

– Impostos e taxas;

– Mão de obra temporária;

– Mão de obra permanente;

– Juros sobre capital de giro;

– Custo com a compra de animais;

– Despesas gerais;

– Depreciação das benfeitorias;

– Depreciação de máquinas;

– Depreciação da pastagem;

– Custo de oportunidade capital investido.

 Todos esses itens foram devidamente orçados e organizados no software CUSTARE Carne 2009 para gerar um gráfico (Figura 1).

Figura 1. Percentual de contribuição dos componentes do custo no custo total de produção num módulo de 150 ovelhas.

 

De todos esses itens, o que apresentou maior representatividade na formação dos custos foi a alimentação, por isso, o produtor deve se preocupar em utilizar alimentos de baixo custo capazes de gerar boa produtividade.

 O segundo item, custos não-caixa, são aqueles que não representam desembolso para o produtor, mas que, em cálculos completos, devem ser avaliados, tais como: juros, custo de oportunidade do capital investido e depreciação. Deve-se observar que esse custo foi elevado, e, se ele não for incluído no cálculo de custo de produção, vai apresentar grandes diferenças no lucro obtido. O fato de o produtor não considerar esses itens pode levar a uma falsa impressão de lucro, quando, na realidade, pode estar havendo descapitalização progressiva da empresa rural.

 No sistema de cordeiros mantidos em pastagem ao pé da mãe, os custos não-caixa apresentaram maior importância que a alimentação, diferenciando-se dos demais sistemas.

 O terceiro item de peso em todos os sistemas é a mão de obra. Ao somar esses três itens mais representativos, observa-se que ultrapassam 80% do custo total de produção, ou seja, o foco para reduzir custos deve estar nesses itens.

 Ao analisar os valores em reais, por quilo de cordeiro produzido, obtém-se o gráfico abaixo (Figura 2).

Figura 2. Custo total de produção, por quilo de cordeiro, num módulo de 150 ovelhas.

 

O maior custo de produção foi o de cordeiros confinados, sendo o menor, cordeiros terminados em pastagem ao pé da mãe.

 O sistema de cordeiros desmamados terminados em pastagem registrou maior custo por quilo de cordeiro que o sistema com uso de creep feeding. Isso ocorreu porque a mortalidade no sistema de cordeiros desmamados terminados em pasto foi elevada, o que reduziu a produtividade. Já no creep feeding, como a produtividade foi maior, os custos foram diluídos, e mesmo fornecendo concentrado aos cordeiros, o custo por quilo de cordeiro foi menor.

 Os cordeiros confinados (sistema 4) apresentaram elevado custo de produção devido aos gastos com alimentação e aqueles ligados às benfeitorias (aprisco e depósito de alimentos).

 Nessa pesquisa realizada no LAPOC-UFPR sob condições específicas, o menor custo de produção foi para cordeiros terminados ao pé da mãe na pastagem.

 Cabe salientar que esse custo não deve ser considerado como padrão entre os sistemas, conforme comentado, qualquer alteração nos custos implicará resultados diferentes. Itens como custo da terra, mão de obra e alimentação são os mais importantes na maioria das propriedades.

O mais importante é o produtor ter ciência de que deve conhecer seu custo de produção, tanto para saber onde economizar, quanto para saber se o preço pago ao produtor é justo, tendo ferramentas consistentes para negociação. E, para chegar a isso, devem-se coletar dados na fazenda e ter conhecimento de métodos de custo de produção. Controlar o fluxo de caixa, entradas e saídas da propriedade, é tarefa árdua, mas a única forma de conseguir estimar custos. O resultado obtido compensa!

 E você, leitor, sabe quanto custa produzir um quilo de cordeiro na sua propriedade?

Referências bibliográficas

BARROS, C. S.; MONTEIRO, A. L. G.; PRADO, O. R. Custare Carne 2009. 1 CD-ROM.

CANZIANI, J. R. F. Uma abordagem sobre as diferenças de metodologia utilizada no cálculo do custo total de produção da atividade leiteira a nível individual (produtor) e a nível regional. In: SEMINÁRIO SOBRE METODOLOGIAS DE CÁLCULO DE CUSTO DE PRODUÇÃO DE LEITE, 1, 1999, Piracicaba. Anais… Piracicaba: USP, 1999.

BARROS, C. S., MONTEIRO, A. L. G., PRADO, O. R. Gestão e controle de custos nos sistemas de produção de ovinos e caprinos In: XIV Simpósio Paranaense de Ovinocultura, II Simpósio Paranaense de Caprinocultura, I Simpósio Sul Brasileiro de Ovinos e Caprinos, 2009, Curitiba-PR. Anais do XIV Simpósio Paranaense de Ovinocultura, II Simpósio Paranaense de Caprinocultura, I Simpósio Sul Brasileiro de Ovinos e Caprinos. Curitiba-PR: LAPOC-UFPR, 2009. v.1. p.1-13.

 Fonte: http://www.interural.com/interna.php?referencia=revistas&materia=342

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