Propaganda é um gargalo no setor de borracha

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O artigo “Queda de preço não gera preocupação” gerou uma rica e salutar discussão sobre o preço da borracha natural brasileira, mas um comentário chama a atenção – a falta de propaganda do setor.

 

A cultura da seringueira sofre com a ignorância da sociedade em geral. Ignorância no mais puro sentido da palavra, ou seja, o desconhecimento. Grande parte da população, incluindo muitos daqueles que tomam decisões que interferem no setor heveícola, ainda associa a borracha natural ao extrativismo na Amazônia simplesmente por não saber que mais de 80% da produção nacional é oriunda de plantações nos estados de São Paulo, Bahia e Mato Grosso apenas.

 

A “propaganda do setor” é praticamente inexistente e representa um entrave para o seu pleno desenvolvimento. O agronegócio borracha natural ainda não faz parte do senso comum e, por isso, a dificuldade de convencimento sobre sua importância é corriqueira. Pneus, calçados, preservativos e bexigas são alguns exemplos de uma infinidade de produtos presentes no dia-a-dia de qualquer pessoa e que contém em sua composição a borracha natural. Imagine o mundo moderno sem o pneu de borracha…

 

A Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor) tem desempenhado um papel importante de divulgação da cultura da seringueira por meio da realização de oficinas em diversos municípios e pela contratação de uma assessoria de imprensa, cujo trabalho tem resultado em inserção mais frequente da atividade na mídia.

 

A Revista Lateks é uma outra iniciativa para divulgar a cultura da seringueira. Única publicação brasileira especializada em heveicultura, ainda hoje a revista é de distribuição gratuita. Alguns poucos, que reconhecem o valor da publicação, se perguntam como pode um negócio se sustentar desta forma. A resposta é “não é possível sustentar este modelo de negócio sem a participação das empresas ligadas ao setor”. Inserir a marca na revista é uma forma de contribuir para o crescimento da heveicultura brasileira pela difusão da boa informação.

 

Outro exemplo que beneficiaria a heveicultura é o selo “Seringueira Ambiental”, do Instituto Tecnológico da Borracha (ITeB), que certifica toda empresa que realiza a compensação voluntária das emissões de gases causadores do efeito estufa por meio do plantio de seringueira em áreas credenciadas pelo instituto. As empresas que tem a borracha natural como matéria-prima poderiam se engajar no combate ao aquecimento global e, “de quebra”, incentivar a cultura.

 

A heveicultura é uma atividade que se ampara nos princípios de sustentabilidade, proporcionando benefícios sociais, ambientais e econômicos. A geração de empregos diretos e indiretos, associada ao aumento da renda familiar, cria condições extremamente favoráveis para a fixação do homem no campo. Estima-se que a atividade seja responsável pala geração de mais de 25 mil empregos diretos no campo.

 

A floresta de seringueira propicia a proteção do solo contra erosão e a proteção de nascentes e mananciais. Cultura pouco exigente em relação à fertilidade do solo (isso não quer dizer que dispensa correção do solo e adubação), é utilizada na recuperação de áreas degradadas. O Estado de São Paulo é pioneiro em permitir o uso da seringueira em projetos de recomposição de Reserva Legal. Além disso, a Hevea brasiliensis é também uma das espécies cultivadas com maior potencial de fixação dos gases causadores do efeito estufa, processo comumente chamado de “seqüestro de carbono”.

 

A heveicultura também contribui com o desenvolvimento econômico local e regional, gerando receita e impostos com a venda da borracha natural, tanto in natura (látex virgem ou coágulo) quanto beneficiada (GEB, FFB etc). Tem-se ainda a receita obtida com a venda da madeira e o potencial de geração de “créditos de carbono”.

 

Isso tudo sem falar da valorização da terra e dos benefícios da substituição parcial da borracha sintética, uma matéria-prima não-renovável também utilizada na formulação de alguns artefatos de borracha.

 

Preços

 

A questão “preço” impulsionou a discussão no artigo anterior. Enquanto situações como as ilustradas na Figura 1 forem comuns no campo, não parece plausível a elevação do preço do coágulo. Ambas mostram falha no gerenciamento da plantação e são apenas dois exemplos do que pode ser visto nas fazendas do interior paulista.

 

A situação (A) mostra o desperdício de látex causado por problema na sangria. O látex que se vê no chão é de apenas um corte e representa perda de produção.

 

A situação (B), também muito comum nos seringais, é puro e simples desleixo do proprietário ou arrendatário, que deveria orientar melhor o sangrador [sim, eu sei que a gestão de pessoas é um grande desafio] para que o coágulo não fosse depositado no chão, evitando assim a sua contaminação por terra, folhas e ramos secos. Um coágulo sujo exige um processo de lavagem eficiente durante o beneficiamento, elevando o custo de produção da borracha natural.

 

O fato de a oferta não atender a demanda não justifica falta de atenção para a qualidade do produto oriundo da fazenda. A elevação da renda do produtor deve necessariamente passar pela atenção à qualidade do produto ofertado no mercado. Somente assim, o setor poderá crescer de forma sustentável, demonstrando também maturidade.

 

Algumas medidas simples podem ser adotadas para melhorar de imediato a qualidade do coágulo, dentre elas: (a) coletar o cernambi separadamente, não o depositando na caneca; (b) acondicionar o coágulo em caixas plásticas suspensas, de forma a se evitar o contato com o solo; e (c) armazenar o produto em banca coberta por alguns dias, permitindo a perda de água e reduzindo assim o custo no transporte, que hoje é de responsabilidade das usinas de beneficiamento.

 

Também é essencial o estabelecimento do [polêmico] contrato por safra entre o produtor rural e a usina de beneficiamento, fornecendo segurança comercial para as partes, e beneficiando o setor como um todo na medida que minimiza as turbulências de mercado causadas por ofertas de preço irreais que só fazem elevar a participação do produtor no preço recebido pelas usinas a níveis que inviabilizam a atividade de beneficiamento por não permitir a composição de reserva financeira para reinvestimento e ampliação da capacidade de produção para atender o aumento de oferta esperado para os próximos anos.

 

Em resumo, faz-se necessário adotar medidas que permitam que o setor se organize e cresça de forma sustentável, com proteção ao produtor rural, ao parceiro-sangrador e às usinas de beneficiamento, elos que possuem forte interdependência.

 

A defesa de um ou outro elo da cadeia produtiva da borracha natural é um equívoco. Deve-se defender ideias e práticas que possam impulsionar o desenvolvimento do setor com o um todo.

 

Por fim, um selo de qualidade para a borracha natural está sendo forjado por um grupo altamente qualificado, embasado nos melhores critérios de produção. A adoção do selo será voluntária e deve resultar na valorização da matéria-prima, contribuindo fortemente para o crescimento do setor heveícola brasileiro.

 

Fonte: http://www.agroblog.com.br/borracha-natural/propaganda-e-um-gargalo-no-setor-de-borracha/

 

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