Prevenindo e combatendo casos de miíase (bicheira) em ovinos

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O termo miíase é utilizado para se referir a uma condição patológica em que há invasão de tecidos vivos por larvas de moscas dipteras, causando lesões ulcerativas que afetam o bem-estar, a higidez orgânica e, logo, a performance dos animais acometidos.

Vulgarmente conhecida como “bicheira”, a miíase ocorre em diversas espécies animais, domésticas ou silvestres, e, inclusive, no ser humano, representando uma das principais e mais frequentes enfermidades parasitárias na espécie ovina que ocasiona redução na produção, aumento de infecções bacterianas secundárias e em casos severos, mutilações e a morte dos animais massivamente parasitados.

Cochliomyia hominivorax é um parasita obrigatório dos vertebrados homeotérmicos e as fêmeas desta espécie ovipõem sobre feridas, abrasões cutâneas, tecidos traumatizados ou orifícios naturais, não sendo atraídas por tecido morto ou por cadáveres.

Apesar de muitos quadros clínicos se iniciarem a partir de lesões ocasionadas por práticas de manejo rotineiras (caudectomia, brincagem, tosquia e castração), por cortes acidentais (arame farpado, soluções de continuidade em instalações, vegetação nativa e plantas invasoras espinhosas), por intervenções cirúrgicas (vasectomia e cesariana) ou por condições clínicas específicas (dermatite interdigital, foot rot, retenção placentária e ixodidiose), um número significante de casos se iniciam a partir de traumatismos naturais, a exemplo dos tecidos lacerados na região perianal de ovelhas no pós-parto ou no umbigo não cicatrizado de cordeiros recém-nascidos (Figura 1 e 2), sendo a estação de parição um dos períodos de maior ocorrência de miíases.

Figura 1 – Ovipostura de Cochliomyia hominivorax em forma de massa plana sobre a borda seca do cordão umbilical de cordeiro recém nascido.

Figura 2 – Miíase umbilical ativa em cordeiro neonato apresentando larvas de primeiro estágio após a eclosão dos ovos dando margem a infecções bacterianas secundárias.

A fêmea de C. hominivorax realiza a ovipostura sobre a borda seca das lesões em massas planas (Figura 1) contendo de 100 a 500 ovos que após 10 a 24 horas eclodirão (Figura 2), liberando larvas que nos 4 a 8 dias seguintes passarão a se alimentar do tecido subcutâneo, aumentando e aprofundando ainda mais a lesão, e produzindo um exsudato de odor característico que atrai novas posturas de C. hominivorax e de outras espécies de moscas, favorecendo a instalação de infecções bacterianas severas que agravam rapidamente a condição clínica do hospedeiro, especialmente, em cordeiros, causando onfalopatias e a partir das mesmas, artrites infecciosas de difícil tratamento.

Após atingirem cerca de 1,5 cm de comprimento durante o período de desenvolvimento no hospedeiro, as larvas abandonam o animal e caem ao solo, seguindo o período pupal e emergindo como moscas adultas transcorridos 7 dias, dando início a um novo ciclo de vida.

Embora haja uma maior incidência de casos no período chuvoso – quando há maiores temperaturas e um ciclo de vida mais acelerado – quadros de miíases acontecem ao longo de todo o ano, e em função da velocidade com que a doença evolui. O não tratamento em tempo hábil pode determinar uma condição irreversível de deformação ou mutilação (Figura 3 e 4) ou, simplesmente, a morte dos animais parasitados.

Figura 3 – Ovelha apresentando cicatriz facial, deformação nasal e perda dentária após um quadro severo de miíase.

Figura 4 – Ovelha apresentando mutilação na região distal do membro posterior esquerdo com perda do casco, da terceira falange e do sesamóide distal após um quadro agressivo de miíase decorrente de dermatite interdigital.

A miíase por C. hominivorax pode ser prevenida e combatida quando presente por meio da implementação de algumas medidas preventivas, tais como:

1 – Monitoramento dos animais após práticas de manejo como tosquia, castração, caudectomia e brincagem, e intervenções cirúrgicas como vasectomia e cesarianas;

2 – Cauterização do umbigo de cordeiros neonatos com tintura de iodo a 10% logo após o nascimento, a fim de criar tão logo quanto possível um tecido de cicatrização;

3 – Aplicação preventiva de doramectina intramuscular na dose de 300 mcg/kg de peso vivo nas situações acima citadas, assim como, de repelentes do tipo “mata-bicheira” ou de ectoparasiticidas pour on;

4 – Dimensionar e realizar a manutenção das instalações evitando-se soluções de continuidade que possam lesionar os animais;

5 – Combater e controlar espécies vegetais espinhosas que possam traumatizar a pele dos animais em pastejo;

6 – Tratar tão logo quanto possível casos de dermatite interdigital e foot rot por meio de soluções podais (formalina, sulfato de zinco) e antibioticoterapia, quando necessário.

Por sua vez, o tratamento das miíases já instaladas consiste das seguintes etapas:

1 – Tricotomia da região em volta da lesão;

2 – Lavagem da área com água corrente e sabão neutro;

3 – Neutralização das larvas com éter, solução de cresol ou repelente do tipo “mata-bicheira”;

4 – Remoção total das larvas utilizando uma pinça desinfectada;

5 – Lavagem da lesão com solução fisiológica para a remoção do exsudato e sujidades presentes;

6 – Aplicação de tintura de iodo a 10% no local da lesão;

7 – Aplicação de pomada ou unguento cicatrizante;

8 – Antibioticoterapia sistêmica a base de oxitetraciclina de longa ação na dose de 20 mg/kg de peso vivo via intramuscular a cada 48 horas durante 7 dias como prevenção e combate a infecções bacterianas secundárias.

Daniel de Araújo Souza

Méd. Veterinário, consultor em sistemas de produção de ovinos.

Fonte: http://www.farmpoint.com.br

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