Perspectivas para o produtor de soja na safra 2011-2012

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18/01/12 – 16:51
Por *Sebastião Pedro da Silva Neto

Após uma safra 2010-2011 excepcionalmente boa, onde o mercado proporcionou bons preços e as condições climáticas a melhor produtividade de soja da história, a safra 2011-2012 está plantada e o cenário de preços e produtividade a serem auferidos pelo produtor está indefinido até o momento. Embora com aumento da área plantada e do nível tecnológico, as condições climáticas não estão indicando níveis de produtividade médios semelhantes aos alcançados na safra 2010-2011. Da porteira para dentro, os produtores em geral terão produtividades e preços menores, o que resultará em uma margem operacional mais apertada que a do ano passado. Permanecendo esse quadro, a sensação de aperto deve aparecer na época da colheita, pois, ao colherem e venderem a safra, os produtores de soja terão um menor faturamento disponível para pagar o financiamento da safra passada e estarão diante de uma relação de troca soja/insumos mais estreita para financiar a próxima safra 2012-2013.

As condições climáticas ocasionadas pelo fenômeno “La Niña” estão afetando algumas das regiões produtoras de soja mais importantes do Brasil. Parte das regiões produtoras do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Sudeste de Mato Grosso enfrenta desde os meses de novembro e dezembro longas estiagens, o que já está comprometendo o desenvolvimento e a expectativa de produtividade das lavouras. No Paraná, as primeiras lavouras de soja precoce plantadas em setembro já estão sendo colhidas e proporcionando rendimento 15% abaixo do previsto em função de estiagens ocorridas no período posterior ao plantio. Nos demais estados e regiões citadas, os graus de perda de produtividade são variados, mas já se estimam perdas significativas ao nível de 6% no potencial produtivo da safra brasileira. Nos demais estados da região Centro-Oeste, Nordeste e Norte, embora não se percebam ainda impactos negativos causados por estiagens, tem-se observado um regime de chuvas mal distribuído, com microrregiões bem supridas e outras mal supridas dentro da mesma região edafoclimática.

Devido à crise econômica europeia, os preços internacionais da soja recuaram bastante, desde os preços obtidos na colheita da última safra. Embora o câmbio tenha expressado uma valorização do dólar perante o real desde que os indícios da crise europeia ficaram mais evidentes, e isso possa internamente ter arrefecido a percepção de queda no preço interno da soja, a relação de troca de soja por insumos já piorou muito, pois os insumos tendem a acompanhar a valorização do dólar. Os especialistas sinalizam que, pelo fato de a Europa não ser uma consumidora de produtos agrícolas brasileiros, seus efeitos sobre a queda dos preços não deve ser muito drástico.

Nos mercados agrícolas, especialmente de alimentos, a demografia tem papel de grande relevância para a demanda, que possui como crescimento mínimo a taxa de elevação da população mundial. A produção, porém, é limitada pelo estoque de terras disponíveis, recursos hídricos e tecnologias. Dessa forma os preços da soja em 2012 não devem continuar a tendência de queda iniciada em 2011, pois é necessário incentivar a produção futura. Além disso, o consumo da China e da Índia não deve diferenciar significativamente dos níveis atuais. Porém, a desaceleração econômica da Europa certamente terá reflexos de alguma magnitude nas economias do mundo todo, incluindo nas dos países asiáticos, que atualmente são os nossos maiores importadores de soja.

Embora não se possa afirmar categoricamente qual será o cenário de preços na colheita da safra 2011-2012, é prudente que o produtor se prepare para uma situação mais apertada e se ajuste desde já. Enquanto os preços da soja permaneceram elevados, os possíveis problemas estruturais e de gestão de cada propriedade puderam ser, em boa parte, compensados por um fluxo maior de receitas. Com os preços da soja menores associados aos custos dos insumos maiores, tais problemas tendem a vir à tona.

Os agricultores brasileiros colheram 75,324 milhões de toneladas de soja no ano agrícola 2010-2011, representando safra recorde. De acordo com levantamentos da Conab (3ª avaliação, publicada em dezembro de 2011), a área plantada na safra 2011-2012 será de 24,350 milhões de hectares – 0,7 % (169,2 mil hectares) superior à da safra 2010-2011. E a previsão para a produção de soja na safra 2011-2012 no Brasil indica um volume de 71,287 milhões de toneladas, que é 5,46% (4,038 milhões de toneladas) menor que a safra anterior, devido ao cenário climático já citado.

As cotações futuras de soja fecharam com ganhos inexpressivos, no dia 23 de dezembro de 2011, na Bolsa Mercantil de Chicago, chegando US$ 26,07 por saco de 60 kg (cotação para maio de 2012, posto Chicago), valor 3 US$/saco (quase 10%) abaixo do ocorrido em 17 de dezembro de 2010 (um ano atrás). A principal motivação dos compradores futuros da soja foram os comentários sobre previsões climáticas adversas para a Argentina durante a semana útil iniciada em 26 de dezembro de 2011 e preocupações com a possibilidade de o clima mais seco do que o normal se estender naquele país vizinho à fase de pleno desenvolvimento reprodutivo da soja (janeiro de 2012), que se traduziram na manutenção de prêmios de risco climático ora incorporados às cotações futuras da oleaginosa, em Chicago.

Diante desse cenário de preços em Chicago, o mercado interno ficará muito dependente das variações cambiais a ocorrerem no primeiro semestre de 2012. Estas, por sua vez, dependerão da evolução ou recuperação da crise europeia. E os produtores devem ficar atentos para aproveitar eventuais momentos de picos de preço e ir travando alguns lotes da soja a ser colhida no primeiro trimestre de 2012, pois, de agora em diante, ao se aproximar a colheita da safra sul-americana, o mercado especulativo de clima deve começar a atuar, juntamente com os humores da crise europeia.

Vencida a etapa do plantio, o produtor de soja agora não deve se preocupar somente com o controle da ferrugem-asiática, lagartas, percevejos, etc., em suas lavouras, mas principalmente ficar de olho nas variações dos preços da soja, e na negociação da próxima safra. Especial cuidado se deve ter ao negociar os insumos para o plantio da safra 2012-2013, pois estes estão ainda com preços elevados, puxados pela alta da soja e das commodities ocorrida no último ano.

Com o dólar elevado, possivelmente o preço dos insumos não deverá cair tão rapidamente. O produtor deve lutar para negociar uma relação de troca similar à que houve na última safra, pois, na ocorrência de quedas ainda maiores do preço da soja, o produtor não conseguirá bancar um patamar de custos tão elevados como os da última safra. A isso devem-se somar as prestações de financiamentos de custeio e investimentos que a grande maioria dos produtores terá para pagar ao longo do ano 2012.

À grande maioria dos produtores que não estão capitalizados para custear a próxima safra com recursos próprios, este planejamento será fundamental. Embora não seja o mais provável, um desfecho desordenado da crise europeia, que empurre mais países para a reestruturação forçada de suas dívidas, pode ocorrer. Nessas circunstâncias, o sistema financeiro global seria afetado, produzindo um estrangulamento dos fluxos internacionais de crédito. O crédito para custeio vindo de tradings e empresas de insumos poderia se tornar escasso e ainda mais caro do que já é. No cenário incerto que neste momento se apresenta, o mais importante é o produtor tentar fazer um custo de produção baixo na safra 2012-2013, com especial atenção ao custo financeiro.

Sebastião Pedro da Silva Neto é pesquisador da Embrapa Cerrados

Embrapa Cerrados

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