Perdas e qualidade

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O controle de qualidade da soja é de fundamental importância dentro do contexto das  cadeias produtivas, pois, ou o produtor adota regras claras desse controle, ou provavelmente será eliminado do mundo dos negócios. O novo milênio descortina a ascensão irrefreável  da marca certificada, a garantia dos consumidores por alimentos de alta qualidade. É ela que provoca a conciliação entre a oferta rural e a demanda urbana; que integra e aproxima; que racionaliza os mecanismos de distribuição de produtos de alta qualidade. Dentro desse cenário, o processo de competição entra em evidência e os países detentores de altas tecnologias tentam a todo custo depreciar  os produtos originários do terceiro mundo, especificamente do Brasil, (segundo produtor mundial de soja).

Como exemplo dessa evidência, artigo publicado recentemente no “UNITED SOYBEAN BOARD, USB”, Estados Unidos, indica que a soja brasileira e argentina têm apresentado sérios problemas de qualidade, com variações nos percentuais de proteína, quando comparada com a soja produzida nos Estados Unidos. Todavia, resultados de três de pesquisa conduzidos pela Embrapa Soja e Emater-Paraná em parceria com outras instituições brasileiras contestam tais afirmações e mostram que a soja produzida no Brasil, apresenta índices elevados de proteína, de óleo e reduzidos níveis de acidez (Figura 2 – veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF) indicando desta forma que a afirmação do “UNITED SOYBEAN BOARD” é inverídica e sem suporte científico.

Problemas na colheita mecanizada

Sabe-se que a soja é um dos produtos de maior importância para a economia nacional. Na década de 70, a expansão de área cultivada desta leguminosa chegou a registrar taxas geométricas anuais de crescimento de 30%. Todavia, a tecnologia de produção utilizada naquela época pela maioria dos produtores era considerada precária. Na operação de colheita, por exemplo, os desperdícios tanto quantitativos como qualitativos eram extremamente elevados. Atualmente, apesar de todo avanço tecnológico, o produtor ainda deixa nos campos grandes quantidades de sementes e/ou grãos nas lavouras de soja do Brasil. Segundo Costa et al. (2001), este desperdício é superior a um milhão e 500 mil toneladas por ano, resultando em cifras superiores a 700 milhões de reais. Além dos desperdícios em quantidade, a qualidade do produto é também afetada de modo expressivo.

Essa situação pode ser atribuída à falta de cuidados operacionais, de manutenção preventiva e de ajustes na máquina colhedora, e também ao manejo inadequado das lavouras de soja. No contexto do programa brasileiro de qualidade e produtividade, o governo brasileiro definiu como uma de suas prioridades o desenvolvimento de ações voltadas a reduzir o desperdício. Estima-se que, no Brasil, jogam-se no lixo US$ 2,3 bilhões por ano. Há setores que chegam a perder 80%  do que produzem.

No intuito de resolver esse grave problema o Estado do Paraná foi praticamente o único do Brasil que adotou seriamente o programa de combate ao desperdício na colheita da soja, obtendo resultados significativos em termos de redução de perdas na colheita, conforme valores contidos na Figura 1 (veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF). Por outro lado, o problema de controle de qualidade merece destaque especial, pois, os estados do Paraná, de Minas Gerais, do Mato Grosso e do Rio Grande Sul têm realizado nos últimos três anos levantamentos de amostras de sementes/grãos de diferentes cultivares de soja durante a colheita mecânica, enviando-as à Embrapa Soja para análise de qualidade.

Os  resultados desse período mostram que mais de 10% dos lotes já chegam comprometidos em termos de quebras e de injúria de percevejos (Costa et. al. 1999). A semente de soja é muito sensível aos impactos mecânicos, uma vez que as partes vitais do embrião, como radícula, hipocótilo e plúmula estão situados sob o tegumento pouco espesso que praticamente não lhes oferece proteção. A  principal  fonte  de danos mecânicos é a operação de colheita, ainda que parte expressiva dos mesmos possam resultar das operações de secagem, processamento, transporte, armazenamento e semeadura (França Neto, 1984). Para melhor entendimento do problema, Costa et al. (1979) através de estudo realizado no Estado do Paraná, detectaram que a faixa ideal para colheita mecânica da soja, com o mínimo de dano mecânico, situou-se na faixa de 12% a 14% de umidade da semente (Figura 3 – veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

Sabe-se que o tegumento da semente de soja é muito fino e apresenta reduzido conteúdo de lignina, oferecendo pouca proteção ao frágil eixo-embrionário que está posicionado logo abaixo. Os valores de sementes quebradas e “bandinhas” aumentam quando a umidade da semente/grão estiver abaixo de 12% e os de sementes amassadas e com injúria não visualmente perceptíves aumentam com grau de umidade acima  de 15%. Ambos os tipos de danos mecânicos podem ser facilmente identificados através do teste de tetrazólio. A negligência e a falta de cuidados por parte de alguns produtores de soja, durante a operação de colheita, têm resultado na obtenção de matéria prima abaixo dos níveis dos padrões toleráveis, o que poderá comprometer, em futuro próximo, a competição de mercado da soja brasileira. Dessa forma, parece inadmissível, como segundo produtor mundial de soja e dispondo de tecnologia avançada para o desenvolvimento de cultivares para baixas latitudes, que o Brasil não utilize corretamente as técnicas consideradas factíveis e fundamentais ao aumento da eficiência e, por conseguinte, na melhoria da qualidade e da produtividade. Já são conhecidos, na indústria de sementes, alguns problemas referentes à qualidade, onde as condicões climáticas rigorosas de algumas regiões, associadas à aplicacão deficiente de técnicas de manejo de pragas, especialmente para prevenir a alta incidência de percevejos, têm comprometido as qualidades físicas, fisiológicas e sanitárias das mesmas.

Todavia, quanto ao aspecto químico, ou seja, as partes referente a proteínas, ao teor de óleo e à acidez de soja, não existem informações científicas suficientes que possam ser fornecidas, quando solicitadas pelos usuários.

Avaliação de perdas

Historicamente na década de 1970, o Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e outros estados produtores de soja compravam volumes significativos de sementes de soja do Rio Grande do Sul, apenas com base na germinação. Com a entrada de novas cultivares de soja e com o avanço do setor da tecnologia de sementes, a maioria dos estados produtores se tornou auto-suficiente, resultando atualmente em excesso de sementes na maioria dessas regiões.  Mesmo assim, o controle de qualidade em algumas regiões deixa muito a desejar tanto na produção de semente como do grão, principalmente, em algumas regiões onde predomina o emprego de sementes próprias, que reduzem de maneira substancial, tanto a qualidade como a produtividade das lavouras.

Durante três safras agrícolas foram avaliadas as qualidades fisiológicas, físicas e químicas de sementes/grãos de mais de 30 cultivares de soja, provenientes de três estados. Os resultados do estudo indicaram que a qualidade de sementes/grãos variou de região para região, tendo-se detectado que o material proveniente do Estado do Rio Grande do Sul, e do Sul do Paraná e região de Marilândia  do Sul (Norte do Paraná) apresentou melhor padrão de qualidade, tanto de sementes como de grãos. Ainda observou-se que a soja proveniente de todas as regiões foi sensivelmente afetada por índices relativamente elevados de quebras, de ruptura de tegumento, de danos mecânicos e de lesões de percevejos. O controle desses parâmetros é fundamental para obtenção de uma soja de alta qualidade, principalmente, quando a matéria-prima é destinada para a indústria de esmagamento, visando melhor padrão de qualidade química. Os dados também mostram que a soja brasileira apresentou percentuais elevados de proteína, óleo e com baixos índices de acidez, conforme valores contidos na Figura 2 em todas as regiões onde o estudo foi conduzido. Desse modo, pode-se afirmar que, mesmo não ocorrendo controle rigoroso na etapa de colheita, obteve-se, durante as  safras estudadas, um alto padrão de qualidade, considerado dos melhores do mundo.

Redução de desperdícios

1)    No período de 23 anos, o Brasil economizou, com este programa, segundo dados estimados, cerca de 5,4 bilhões de reais; 2) em 1978/79, as perdas na colheita de soja giravam em torno de 4 sacas/ha e na safra 2000/2001 essas perdas ficaram na faixa de 1,7 a 2,0 sacas/ha; 3) as perdas  durante a colheita de soja da safra 1999/2000 apresentaram níveis de desperdícios estimados para o Brasil, de 2,0 sacas/ha, proporcionando prejuízos superiores a 560 milhões de reais, porém, neste ano o Estado do Paraná apresentou os menores índices de perdas na colheita (1,1 saca/ha); 4) os resultados também indicam que cerca de 80% das perdas, durante a colheita da soja ocorrem na plataforma de corte e em torno de 20% nos mecanismos internos da máquina colhedora;  5) resultados de três anos de estudo, mostram que os níveis  de perdas de grãos, de danos mecânicos e de grãos quebrados independem das marcas e da idade das colhedoras, embora colhedoras com mais de 15 anos  tendam  a perder mais; 6) as médias de perdas de grãos, durante a colheita,  sendo inferiores a 60 kg/ha indicam boa capacitação de mão-de-obra de operação das colhedoras; 7) as perdas tendem a aumentar de forma acentuada com velocidades de trabalho superiores a 7 km/hora; 8) as sementes e grãos produzidos no Sul do Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Mato Grosso apresentam melhor qualidade fisiológica, em função do melhor vigor e da viabilidade, quando comparados com os de Minas Gerais, de Goiás e das regiões Norte e Oeste do Paraná; 9) elevados valores de ruptura de tegumento e de danos mecânicos ocorridos na colheita mecânica da soja comprometem seriamente a qualidade tanto da semente como dos grãos de soja; 10) os teores de óleo (média de 20%) e de proteína (média de 40%) contidos na soja produzida nas diferentes regiões do Brasil se encontram dentro dos padrões internacionais; 11) o índice de acidez do óleo, aparentemente não foi afetado pelos elevados índices de danos mecânicos e de ruptura do tegumento de sementes/grãos resultantes da colheita mecânica; 12) um indicativo bastante confiável para a colheita mecânica da soja com o mínimo de danos mecânicos e com índice de vigor dentro de um padrão seguro é quando a faixa de umidade das sementes estiver entre 12% a 14% conforme dados contidos na (Figura 3); e 13) de uma maneira geral sugere-se, quando possível, o emprego do teste de tetrazólio para avaliação da qualidade da semente de soja, pois, é uma  ferramenta indispensável  para o controle de qualidade dos lotes produzidos, conforme ilustrado na Figura 4.

Nilton Pereira da Costa e Cezar de Mello Mesquita,
Embrapa Soja

Fonte: http://www.grupocultivar.com.br/artigos/artigo.asp?id=720

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