O novo ciclo da borracha

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Texto Luciana Franco | Fotos Ernesto de Souza

Cultivada no Brasil desde a segunda metade do século XIX, a borracha natural, que sustentou um dos mais importantes ciclos de desenvolvimento do país, volta a ter destaque na agricultura nacional. Do extrativismo ao cultivo passaram-se 150 anos. Nesse período, a borracha obtida a partir do látex da seringueira tornou-se produto mundialmente valorizado, graças às múltiplas aplicações e a seu uso indispensável para certos fins industriais. O contínuo aquecimento da demanda mundial colocou as cotações do produto em altos patamares e vem estimulando a expansão do plantio no Brasil e no mundo. Aqui, a produção se deslocou da Região Amazônica para o Sudeste do país, e hoje o estado de São Paulo se posiciona como maior produtor de borracha natural, respondendo por 54,5% da produção brasileira, seguido por Mato Grosso, com 13,5%, e Bahia, que tem 12,8%. São Paulo é também o estado que mais tem expandido o plantio da seringueira, cultivando 20 mil hectares por ano ao longo dos últimos cinco. Atualmente são 77 mil hectares destinados à cultura, um aumento de 32% em relação à área registrada em 1998. “Estamos vivendo um novo ciclo de crescimento”, diz Heiko Rossmann, analista de mercado e diretor executivo da Associação Paulista de Produtores e Beneficiadores de Borracha (Apabor).

EM 2020, O BRASIL CONSUMIRÁ 570 MIL TONELADAS DE BORRACHA, MAS A PRODUÇÃO SERÁ DE 360 MIL

A expansão da seringueira em terras paulistas é estimulada pela Secretaria de Agricultura, que desde a década de 1980 cria planos de incentivo à cultura. O avanço dos seringais no estado se dá basicamente sobre as áreas de laranja e de pastagens degradadas. Segundo Rossmann, a própria empresa Coopercitrus criou um viveiro de mudas de seringueiras há alguns anos e tem incentivado o pessoal que produz laranja a diversificar. “A borracha é muito rentável. Um hectare gera, em média, 3 mil reais de lucro por ano. Por esse motivo, ela ajuda inclusive a segurar a expansão da cana”, diz Rossmann. A desvantagem, entretanto, é o tempo que a árvore leva para começar a produzir – cerca de seis anos. “Esse aspecto assusta um pouco os produtores que querem ingressar no segmento, mas quem apostou na cultura está muito satisfeito”, conta o analista. É o caso do casal Getúlio Ferreira Junior e Naiara Ferreira, que começou vendendo equipamentos para o manejo e a exploração de seringais. Dois anos depois, em 2002, eles resolveram instalar o viveiro Polifer Agrícola, em Macaubal, SP, que hoje abriga 1,6 milhão de mudas. “Atendemos os investidores que não têm conhecimento sobre o setor. Atuamos do preparo do solo à exploração das árvores”, diz Ferreira, que conta com 26 clientes espalhados pelos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Goiás, onde administra 3 milhões de árvores.

Apostando na expansão da seringueira no Brasil, Getúlio acredita que plantará 10 milhões de árvores até 2016. “Além de atender clientes individuais, montamos um projeto de investimento em grupo, em que as pessoas contribuem com cotas”, diz Ferreira, que também mantém uma área de produção própria. A Polifer não vende apenas a muda da seringueira, mas sim um projeto de cultivo de borracha. Em geral, a empresa implanta módulos de 50 hectares com 25 mil plantas. “Isso garante uma renda média mensal de 25 mil reais ao investidor”, calcula Ferreira.

O investimento inicial, no entanto, é alto e gira em torno de 700 mil reais, aplicados ao longo de seis anos na formação da planta. Por esse motivo, os agricultores buscam constantemente o aumento da produtividade dos seringais. No estado de São Paulo, a produtividade média é de 2.500 quilos de coagulo por hectare. Há seringais, entretanto, que chegam a 3.900 quilos por hectare. “Quanto mais informação o fazendeiro tiver, melhor será o manejo de seu seringal, o uso de herbicidas, o cuidado com o corte na hora da sangria e, consequentemente, sua produtividade”, diz Ricardo Marques Mendes.

O jovem de apenas 26 anos mantém 100 mil pés de seringueiras em três propriedades localizadas nos arredores de São José do Rio Preto. Filho de um empresário da construção civil, Ricardo é o primeiro membro de sua família a investir na agricultura e há um ano se associou a outros oito produtores para trocar ideias sobre a seringueira. “Inicialmente nos unimos para melhor manejar os seringais. Montamos um escritório para a realização de palestras e reciclagem de mão de obra. O projeto deu certo. Hoje comercializamos nossa produção em conjunto e temos 1 milhão de pés de seringueira plantados, dos quais 150 mil estão em produção”, conta Mendes, que tem outros 80 alqueires a ser plantados no próximo ano e pretende investir o lucro da atividade na compra de mais terras na região de São José do Rio Preto, principal polo de produção do estado.

Outro aspecto positivo da seringueira é que não é só o dono da terra que lucra alto. A atividade é de longe a que melhor remunera o trabalhador rural. Daniel Xavier da Hora é um dos sete funcionários de Mendes e como sangrador chega a tirar 3 mil reais por mês. “Ele veio do Norte e já tinha prática como sangrador, mas o colocamos num curso de reciclagem para que pudesse melhorar a sangria sem machucar a árvore”, conta Mendes. A especialização da mão de obra é necessária para que a seringueira produza bem durante toda a sua vida útil. “Um sangrador ruim destrói a árvore e acaba com seu negócio”, diz Mendes. Para garantir que a sangria seja feita da melhor maneira, a maior parte dos produtores atua em sistema de parceria com seus funcionários, remunerando-os com 30% do total produzido. “Assim o sangrador é dono do serviço dele”, diz o produtor Sebastião Lucas Teixeira, que tem seringueira desde 1985. Antes disso, ele foi boia-fria e bancário. Na década de 1980, recebeu um sítio de herança, onde plantou café, cana, manga e laranja – antes de descobrir a seringueira. “Comecei a sangrar em 1992. Tenho hoje 70 mil pés de seringueira e 7 mil pés de laranja. Já tirei toda a cana que tinha e coloquei seringueira. Agora estou transformando a laranja em borracha. Não vou ficar com laranja nem para chupar”, diz Teixeira. Segundo ele, a seringueira tem custo dez vezes menor que a laranja e lucro dez vezes maior. Atualmente, ele mantém 20 pessoas na sangria. Pelos cálculos de Marcio Antonio de Aquino, sangrador e gerente de produção da propriedade de Teixeira, o salário médio de um funcionário é de 1.800 reais, “mas há meses em que chega a 3 mil”, conta Aquino.

COM 77 MIL HECTARES, O ESTADO DE SÃO PAULO CONCENTRA A PRODUÇÃO DE BORRACHA NATURAL DO PAÍS

Hoje os preços pagos aos produtores estão em torno de 2,69 reais por quilo de coágulo com 56% de borracha seca. O valor é considerado excelente (há dez anos se situava em 80 centavos por quilo), e como a demanda é maior que a oferta, o produtor parece bastante satisfeito. O Brasil produzirá neste ano 135 mil toneladas de borracha, período em que o consumo deve alcançar 350 mil toneladas. O deficit entre o que é produzido e consumido pelo país vem da Tailândia, Indonésia e Malásia. Uma ironia para o país que dispõe do maior volume de terras do mundo apto para o cultivo da borracha (cerca de 15 milhões de hectares). Ainda assim, as projeções mostram que em 2020 o consumo brasileiro será de 570 mil toneladas, ao passo que a produção deve se situar em 360 mil toneladas. “Em 2030, estaremos consumindo um milhão de toneladas”, conclui Rossmann.

A BORRACHA NO BRASIL | O cultivo de seringueira é uma das atividades mais lucrativas do campo e supera em mais de 50% a cana-de-açúcar. Ainda assim, o Brasil depende de importação para abastecer a indústria local
Revista Globo Rural
Fonte: http://revistagloborural.globo.com/Revista/Common/0,,ERT149193-18283,00.html

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