O homem que trouxe o gado da Índia

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05/08/2014

 

Pecuarista conta como o pai cumpriu a missão dada por Celso Garcia Cid no final dos anos 1950 

Seu Celso era apaixonado pelo gado Gir, ele sempre ia lá em Minas comprar um ou outro animal da raça, que na época era misturada, não havia a criação aqui no Brasil. Só que quando ele chegava com o gado na Fazenda Cachoeira, meu pai falava: “seu Celso, essas vacas não têm mais jeito”. Ou eram velhas, não se criavam, sempre tinham algum problema. Os produtores mineiros nunca venderam alguma coisa boa para ele. Um dia seu Celso fala pro meu pai: “e como é que faz para comprar um gado novo?” “Só se for comprar na Índia. Lá tem gado bom”.

Essa história está viva na memória do pecuarista Ildefonso dos Santos Júnior, de 57 anos, o filho único do homem que convenceu Celso Garcia Cid a importar e iniciar por aqui a produção das principais raças indianas de gado. Aquelas que viriam a revolucionar a pecuária brasileira. Ildefonso dos Santos, o pai, era mais que empregado de Celso Garcia Cid. Era braço direito, confidente, amigo, e um profundo conhecedor de gado, embora tivesse sido criado em meio a plantações de café lá no interior de São Paulo, onde nasceu. A trajetória dele em Londrina, marcada pela ida à Índia para trazer pessoalmente a raça Gir ao Norte do Paraná, teve início no comecinho dos anos 1940, quando veio casado com Dezolina Foggia dos Santos.

O sogro já tinha ouvido falar da fama da cidade erguida em meio a plantações de palmito por uma companhia de terras inglesa, e resolveu trazer o casal a tiracolo. “Ele veio para cá por causa da fama de Londrina, da região que estava aflorando, de ouvirem o que os pioneiros falavam do Norte do Paraná”, conta Ildefonso Júnior. O gado só cruzaria o caminho de Ildefonso tempos depois. Seu primeiro emprego foi atrás do balcão do armazém de secos e molhados que o sogro abriu na Viação Velha (zona sul). “Meu avô acabou comprando um sítio de 50 alqueires em Tamarana e meu pai comprou outro num terreno vizinho”, recorda o filho. Plantavam café, meio a contragosto de Ildefonso, que havia tido uma experiência traumática com a cultura na década de 30. Foi uma época em que a economia cafeeira encarou uma forte recessão, afetando as lavouras – e as finanças – do pai.

A primeira experiência de Ildefonso como homem de fazenda em Londrina foi ainda nos anos 40, quando trabalhou para o então prefeito Hugo Cabral. “A fazenda era mata fechada e meu pai ajudou o Hugo Cabral a abrir aquilo tudo. Ele tocava os peões e administrava a propriedade. Trabalhou lá até 1948”, afirma Ildefonso filho. A parceria acabou por obra do destino, que o aproximou de Celso Garcia Cid. O pecuarista espanhol precisava de uma pessoa de confiança e tarimbada para ajudá-lo a castrar seu gado na Fazenda São João, no Distrito da Warta (zona norte). Cabral, amigo de Celso, indicou Ildefonso. “Meu pai foi lá na fazenda e disse que não podia castrar aquele gado porque morreria tudo. Seu Celso perguntou: ‘Você ajeita isso pra mim?’. Meu pai respondeu: ‘Ajeito’.” Começava ali um laço de estreita amizade que só seria desfeito no início da década de 70, quando Celso Garcia Cid faleceu.

Obstinação

A epopeia da importação das raças indianas veio no fim dos anos 1950. Tudo começou numa pescaria na Fazenda Cachoeira (em Sertanópolis), residência oficial do seu Celso. “Seu Celso vira para o meu pai e fala: ‘Então, Ildefonso, vamos?’ ‘Vamos aonde, seu Celso?’. ‘Vamos buscar o gado na Índia!’. Meu pai topou: ‘Vamos, ué!’”, relata o filho de Ildefonso. O fiel escudeiro do pioneiro espanhol embarcou pela primeira vez para a Índia em 26 de dezembro de 1957. Levou quase exatos três anos para que o gado da raça Gir tomasse o pasto da Fazenda Cachoeira. Foi na véspera do Natal de 1960 que o “presente” chegou, na forma de 118 cabeças. A segunda importação ocorreu dois anos depois, com a mesma quantidade de reses.

Só que a ousadia daquela dupla transformou a primeira empreitada num caminho recheado de percalços. Uma história de obstinação. Primeiro, porque, ressalta Ildefonso filho, a ideia de se importar a raça pura indiana estremeceu o mercado agropecuário interno na época. “É uma história de muita luta e sofrimento. Inclusive de brigas políticas. Havia muitos interesses em jogo porque esse gado revolucionou a pecuária nacional. Quem detinha a hegemonia genética da criação do gado, perdeu. Só quatro produtores trouxeram o gado Gir para o Brasil; do Paraná, apenas o seu Celso. Um era de Minas e os outros dois, de São Paulo”, conta. “Meu pai fez quatro viagens para a Índia, três na primeira importação e duas na segunda”, afirma Ildefonso Júnior. Eram estadias longas, com uma adaptação penosa. “Ele falava da fome que passou lá (risos). Não só a alimentação, mas os costumes, a cultura do povo de lá, eram bem diferentes”, pontua.

Mesmo tendo providenciado toda a documentação sanitária exigida pelo Ministério da Agricultura para trazer o gado para o Brasil, Ildefonso dos Santos passou por muito perrengue para entrar com a mercadoria no País. O filho dele descreve a epopeia como se a tivesse ouvido ontem. “A logística foi complicada porque a comitiva veio de navio. De lá passaram pelo Canal de Suez e chegaram na Guiana Francesa. Por que lá? Porque o pessoal aqui do Brasil tinha caçado a licença de importação por conta dos interesses políticos. Meu pai ficou parado com o gado na Guiana, ficou escondido por lá para ver o que se podia fazer. Mas tinha toda a documentação legal”, relata Ildefonso Júnior.

A espera virou drama quando o empregado de Celso Garcia Cid contraiu uma malária. “Ele pensou que ia morrer. Foi feia a coisa lá (risos). Ele foi colocado numa maca, no cais do porto, e alguns pescadores o resgataram. Os pescadores já conheciam a doença, que era chamada de doença de pescador, e sabiam como tratá-la com remédio caseiro. Mas meu pai estava passando muito mal e falou pro seu Celso: ‘Olha, com ou sem gado, eu vou embora.’ ‘Mas você traz o gado?’, seu Celso perguntou. ‘Claro. O senhor pode me esperar em Paranaguá’, ele respondeu.”. O navio deixou a Guiana e desceu até Recife, onde, segundo Ildefonso filho, o capitão quis atracar. Ildefonso pai não deixou. Nova tentativa foi feita pelo comandante no porto do Rio de Janeiro. “Meu pai falou: ‘Não, é Paranaguá.’ Foi meio na marra (risos)”, detalha.

Quando chegou no litoral paranaense, o navio foi apreendido, relata Ildefonso Júnior. Ele diz que apesar do governo do Paraná, à época sob o comando de Moisés Lupion, e de setores do governo federal serem favoráveis à importação do gado, o lobby político da turma do contra funcionou. “Falaram que iam matar aquele gado todo e apreenderam o navio em Paranaguá. O seu Celso, que já estava lá, exigiu um laudo que mostrasse qual a doença do gado. Um ou dois veterinários, não sei se do Estado ou do governo, entraram no navio e depois quiseram sair para fazer o laudo. Meu pai não deixou: ‘vocês não vão descer. O capitão tem instrumentos, vocês podem fazer o laudo aqui e vão dizer o que viram’”, conta Ildefonso.

O laudo foi feito no interior do navio e atestou que o gado estava sadio, um pouco mais magro por conta da longa viagem, mas sem sinal de qualquer doença. Ildefonso afirma que o navio estava ancorado na baía de Paranaguá, o que fez com que seu pai conseguisse um pesqueiro emprestado para entregar pessoalmente o laudo técnico a Celso Garcia Cid no porto. “Eles não podiam mais afundar o navio porque havia um laudo atestando que o gado não tinha doença”, ressalta. Ainda assim, salienta Ildefonso Júnior, a mercadoria teve que cumprir uma “quarentena” na Ilha das Cobras antes de seguir viagem para o Norte do Paraná. “Aí que eu e minha mãe fomos para a Ilha e ficamos junto com eles e com o gado. Eu tinha três anos. Ficaram não sei quantos meses lá até que liberaram e trouxeram o gado para a Fazenda Cachoeira.”

O filho de Ildefonso guarda na memória fragmentos de lembranças do frenesi que a presença do gado indiano no pasto da fazenda de Celso Garcia Cid provocou. “O que a gente via era um bando de avião chegando todo dia para ver e conhecer o gado, que era uma coisa diferente no País”, recorda.

Herança

Comprovado o sucesso da importação e da criação da raça indiana Gir e, posteriormente, das conterrâneas Nelore e Guzerá, Celso Garcia Cid fez questão de incluir seu funcionário na participação dos lucros. “O combinado era que um terço do gado que o meu pai trouxesse seria dele, um terço do seu Celso e um terço dos filhos. Depois é que meu pai trocou a parte dele pela fazenda que temos até hoje em Sertanópolis. Eu acho que esse acordo foi em 1964, mas toda a amizade e colaboração continuaram até o dia que seu Celso faleceu. E depois continuou com os filhos dele”, esclarece Ildefonso Júnior. O pai morreu em agosto de 1994, já reconhecidamente um agropecuarista que ajudou a fundar a Sociedade Rural do Paraná, pela qual trabalhou de graça nos primórdios e da qual foi diretor. O reconhecimento veio em forma de homenagem eterna: Ildefonso dos Santos dá nome a um dos pavilhões do Parque de Exposições Governador Ney Braga.

Fonte: Folha Web
Autor: Diego Prazeres