O desenvolvimento da produção de soja no Brasil nas últimas décadas

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Ao longo das últimas décadas, a soja se espalhou pelos campos do Brasil. De lavoura secundária nos anos 60, tornou-se um dos destaques do agronegócio do país.

A safra recorde deste ano é o ponto alto de um longo caminho. Para falar sobre o assunto, o repórter Vico Iasi e o Francisco Maffezoli Júnior acompanharam o final da colheita em Mato Grosso, estado que mais produz soja no Brasil.

Nos primeiros meses do ano, o movimento é grande nas fazendas de Mato Grosso. É tempo de colheita da soja. Época de muito trabalho, barulho, máquinas imensas em ação.

No município de Campo Verde, a 150 quilômetros de Cuiabá, a fazenda, as colheitadeiras e soja pertencem a Sr. Milton Garbugio.

Nascido no Paraná, ele planta soja em Mato Grosso há 28 anos e se diz um apaixonado pela atividade.

“Está aqui o resultado do trabalho do produtor. A safra esse ano foi excelente, tivemos no soja precoce uma excelente produção. É uma satisfação ver a qualidade do grão”.

De grão em grão, os agricultores brasileiros colheram 67 milhões de toneladas de soja neste ano. Safra recorde, que é também resultado de uma longa escalada.

Segundo o IBGE, em 1970, a produção de soja não passava de 1.9 milhão de toneladas. Em 1980, o país já colheu 15 milhões de toneladas do grão.

Em 1990, 19 milhões, e no ano 2000, 32 milhões de toneladas. Ao longo da última década a produção mais do que dobrou de tamanho, chegando ao patamar atual.

Sr. Milton viveu na prática essa evolução. Ele conta que quando chegou em Mato Grosso, a paisagem era muito diferente.

“Naquela época, as fazendas eram tudo cerrado. Foi época de abertura de terra mesmo aqui. Quando eu começou a produzir aqui, nos anos 80, eu plantei em torno de 150, 200 hectares. Quando chegou nós anos 90 foram 500 hectares. Em 2000, 1.200 hectares e hoje estou com 2.600 hectares. Antes era um mundo de cerrado e hoje de soja.”

A história de Sr. Milton se repete por toda a região. Ao longo das últimas décadas, a área plantada de soja cresceu principalmente nas fazendas do centro-oeste, tocadas, na maioria, por produtores vindos do sul do país.

Ao longo dos anos, a soja se tornou a lavoura que mais ocupa espaço no Brasil, bem na frente do milho ou da cana.

Nessa safra, a área plantada teve crescimento de 6% e chegou a 23 milhões de hectares, o equivalente a cinco vezes o Estado do Rio de Janeiro.

Além do crescimento da área plantada, a safra deste ano também se destaca pela melhoria da produtividade, ou seja, a quantidade de soja colhida por hectare.

Na maior parte das regiões produtoras do Brasil, o clima ajudou. Outro ponto importante é o aumento do uso de tecnologia.

Na média nacional, a produtividade do ano também foi recorde, ficando pouco acima de 2.900 quilos por hectare.

Para se ter uma ideia do que representa esse número, 20 anos atrás, a quantidade média colhida por hectare estava na casa dos 1.700 quilos.

É que, ao longo do tempo, os agricultores aprenderam a cuidar melhor do solo, passaram a combater pragas e doenças com mais eficiência, compraram máquinas e colheitadeiras mais modernas, adotaram o plantio direto .

Na base da modernização está o trabalho de milhares de técnicos e cientistas, ligados a universidades, Embrapa, cooperativas.

O agrônomo Agnaldo Noushi trabalha na Fundação Mato Grosso, entidade de pesquisa mantida pelo setor privado.

Especialista em melhoramento genético, ele explica que a fundação já lançou dezenas de cultivares de soja. Todas adaptadas ao clima e ao solo do centro-oeste.

“O que se tinha de opções para plantar na região eram variedades desenvolvidas fora em outros estados e hoje através da pesquisa pode-se desenvolver variedades especificamente aqui e com produtividades maiores e também resolvendo os problemas da própria região.”

Graças ao melhoramento genético, pesquisadores conseguiram desenvolver, por exemplo, variedades de soja resistentes ou tolerantes a pragas ou doenças graves – como o fungo do cancro da haste, o nematóide do cisto e, mais recentemente, o fungo da ferrugem asiática.

“Ao longo do tempo, os problema iam aparecendo e a pesquisa trabalhando e resolvendo esses problemas.”

Mesmo com melhorias de produção e produtividade, a safra recorde não vem sendo tão generosa para o bolso do agricultor.

É o que explica o agrônomo e analista de mercado, André Debastiani, que acompanha de perto os negócios com a soja.

“Essa colheita grande ela não ocorreu só no Brasil, mas também na Argentina e complementa com a safra brasileira. Hoje são 250 milhões de toneladas de soja que estão sendo produzidas, então isso reflete no preço. Então o produtor está vendo renda menor nessa safra, porém ainda positiva”.

Em março de 2009 os agricultores do sul de Mato Grosso venderam a saca de soja por um preço médio de R$ 37,70. Em março desse ano, o valor médio da saca não passou de R$ 27,20 na mesma região.

Outro problema é o custo do transporte. Com safra muito grande, a procura por caminhão aumentou e o preço do frete disparou.

Em alguns lugares de Mato Grosso, o transporte da soja até os portos do sul chega a custar quase 40% do preço de venda de uma saca de soja.

Vale lembrar que preços e custos variam muito segundo a região. Enquanto as contas da safra estão mais apertadas em Mato Grosso, a situação geral é mais folgada em outros pólos importantes, como Paraná e Rio Grande do Sul.

Apesar dos problemas, a comercialização da supersafra vai injetar uma montanha de dinheiro na economia: cerca de R$ 46 bilhões.

O recurso movimenta armazéns e transportadoras, alimenta a venda de insumos e equipamentos, sustenta comerciantes, prefeituras, exportadoras.

Em Campo Verde, a venda de máquinas agrícolas cresceu. “Foi um ano recorde devido à retomada do crescimento do nosso agronegócio brasileiro e nós tivemos uma venda em torno de 60 plantadeiras”, afirma o gerente da revenda de máquinas agrícolas, Everado Kayser.

O maior supermercado da cidade também comemora. “A cada ano vem melhorando e a expectativa é melhorar cada vez mais ainda”, diz o gerente de supermercado, Gilberto Provin.

Metade da soja brasileira é exportada em grão e a outra metade vai para as indústrias esmagadoras espalhadas pelo país.

O crescimento da produção de soja, também provocou o aumento do número de indústrias que processam o produto. Uma delas começou a funcionar em 2009 e é uma das mais modernas do Brasil.

Circulando por silos e torres, tubos e equipamentos, o grão é transformado em dois tipos de produto.

Os farelos de soja, que são a base para ração de animais, com destaque para frango e porco. Os diversos tipos de óleo, com finalidades variadas: óleo de mesa, óleos para indústria de alimentos, indústria química e ainda fabricação de biodiesel.

Não por acaso, nos últimos anos, as principais regiões produtoras de soja passaram a atrair também novas esmagadoras, fábricas de ração, usinas de biodiesel e grandes projetos de criação de aves e suínos.

Ao todo, a cadeia produtiva da soja gera cerca de 800 mil empregos, de norte a sul do país.

Ainda em Campo Verde, o Globo Rural foi conhecer um dos agricultores que melhor simbolizam essa história de expansão. Partindo de uma pequena propriedade familiar no Rio Grande do Sul, ele se tornou o maior produtor de soja do Brasil e quem sabe, do mundo.

Eraí Maggi Sheffer recebeu a reportagem em uma das fazendas do grupo agropecuário que ele dirige, ao lado de dois irmãos e um cunhado.

“No Rio Grande do Sul meu pai plantava mandioca, fazia farinha. Ele já era da agricultura, já tinha o cavalo que puxava o riscador e gente ajudava a fazer farinha. Meu pai tinha entre dez e 13 hectares lá”.

A escalada em busca de espaço começou nos anos 60. Foi quando o pai de Eraí imigrou com a família para o oeste do Paraná, para tocar um sítio de 65 hectares.

Já nos anos 80, Eraí e os irmãos começaram a procurar terras em Mato Grosso e, aos poucos, foram comprando as primeiras fazendas.

Eraí explica que o grupo já conta com 30 fazendas em Mato Grosso. Somando terras próprias e arrendadas, o cultivo de soja cobriu uma área gigantesca nessa safra: 233 mil hectares.

“Eu nunca imaginava virar um produtor com tanta terra. O que a gente fez foi trabalhar. Foi aparecendo arrendamento, adquirindo novas áreas e foi acontecendo, não foi nada programado, nada de vou querer ter, nada de ambição. A gente é uma engrenagem também no meio desse agronegócio.”

As fazendas do grupo abrigam mais de três mil quilômetros de estradas internas. Depois de uma meia hora, rodando entre lavouras, chegamos a uma área de colheita.

Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete colheitadeiras. Eraí explica que com várias máquinas em ação, o serviço fica mais ágil e essa velocidade é importante para aproveitar as horas secas do dia. Quando chove, a colheita pára.

“É nas terras que eu tinha no Paraná passava umas dez vezes e já terminava. Nessa safra que está terminando, nós colhemos 750 mil hectares de soja nessa safra, mais que a safra anterior.”

Com esse volume de produção, o grupo responde por mais de 1% de toda a soja colhida no país.

Além do movimento das colheitadeiras, o período de safra também é marcado pelo vai e vem de caminhões pesados.

Só nas áreas internas das fazendas do grupo, para levar a soja da lavoura até os armazéns, são mais de 400 carretas em atividade.

Nas horas de colheita, tem sempre alguém chegando, parando, carregando, saindo, rodando nas estradinhas de terra.

Uma vez nos armazéns, os caminhões são erguidos por plataformas. A soja cai, passa por secadores e, no final, é guardada em silos ou galpões enormes.

Somando armazéns, transporte, escritórios, lavouras, o grupo emprega pouco mais de quatro mil pessoas. Hounivaldo Costa é operador de colheitadeira.

“Com essas máquinas grandes eu trabalho há cinco anos. Um operador de colheitadeira ganha de R$ 1.500 a R$ 2.000.”

Mas a empresa não vive apenas de produzir e vender soja. Quando a colheita de verão acaba, as mesmas terras são ocupadas com lavouras de inverno.

Entre abril e setembro, o grupo cultiva 70 mil hectares de algodão e 60 mil hectares de milho – ficando entre os líderes do Brasil também nesses produtos.

Além disso, 14 mil hectares são plantados com pastagens temporárias, que recebem até 40 mil cabeças de gado.

“A gente propicia rentabilidade para uma área que normalmente a gente na seca não teria nenhuma receita e a soja depois tem os benefícios dessa cobertura”, afirma o agrônomo, Cid Ricardo dos Reis.

Tem ainda plantação de milheto, arroz e feijão, grandes áreas de eucalipto, produção comercial de sementes, dezenas de tanques para a criação de peixes. Segundo Eraí, essa diversificação é fundamental.

“Não pode fazer só soja, o produtor que só faz soja vai se dar com os burros n”água, vai entrar doença, ele precisa fazer a rotação de cultura. Ele vai ter emprego só naquele período. O resto do ano está parado, a sede, as pessoas, colaboradores. Ele pode aproveitar aquele solo com outra cultura, agregando valor, com algodão, milho, boi, integração boi, fazendo carne. Então você tem que ter todos para fazer uma cesta você faz uma média de preços, produzindo várias coisas, fazendo essa diversificação soja e outros produtos.”

Em fazendas grandes, como essa, ou em sítios pequenos, nas últimas décadas a soja se espalhou pelos campos do país.

Além de expandir as lavouras, os agricultores avançaram em tecnologia, aumentaram a produtividade e diversificaram a produção. Com isso, alimentaram comerciantes e fornecedores, estimularam esmagadoras, indústrias, criadores.

A colheita recorde desse ano acompanha, assim, uma trajetória de evolução. Um movimento que consolidou esse grãozinho miúdo como um dos pilares do agronegócio do Brasil.

Atualmente, o Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Com fazendas tecnificadas, a produtividade das lavouras brasileiras também fica entre as melhores do planeta.

Fonte: Globo Rural

 Site: http://www.noticiasagricolas.com.br/noticias.php?id=66013

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