Mercado aberto para o LEITE

0
19

Muito além da oferta de carne e lã, produtores mostram como o leite pode ser uma alternativa entre os criatórios de caprinos e ovinos

Denise Saueressig
denise@revistaag.com.br

De um lado, um mercado ainda restrito. De outro, uma cadeia que trabalha para aumentar a oferta do alimento e popularizar o consumo no Brasil. Para os caprinovinocultores que investem no leite, o desafio é grande, afinal, a atividade está muito mais relacionada à produção de carne e de lã.

Iniciativas envolvendo o leite existem em diferentes regiões do país e abrangem distintos perfis de produção. No Nordeste, os projetos com rebanhos caprinos estão relacionados mais frequentemente a estratégias governamentais, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). “Na região, em estados como Paraíba e Rio Grande do Norte, a organização do setor ocorre justamente em função de programas de compra e distribuição, e onde os produtores estão reunidos em associações ou cooperativas”, explica o veterinário Leandro Silva Oliveira, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos.

Além da Paraíba e do Rio Grande do Norte, no Nordeste, os sistemas produtivos estão mais evoluídos na Serra do Rio de Janeiro, na Zona da Mata em Minas Gerais e em regiões de São Paulo e do Rio Grande do Sul. “Normalmente são produtores que têm rebanhos maiores e uma infraestrutura mais tecnificada, com ordenhadeira mecânica e tanque de resfriamento, por exemplo. São iniciativas ligadas a laticínios particulares que compram, beneficiam e distribuem o produto em formas variadas, como leite UHT, leite em pó, queijos, sorvetes e cosméticos”, detalha Oliveira.

As principais raças de caprinos leiteiros presentes nos rebanhos do país são Saanem, Anglo-Nubiana, Parda Alpina, Alpina e Toggenburg. Em média, os produtores recebem R$ 1,20 pelo litro do alimento. Os custos na propriedade variam muito de acordo com o sistema adotado, com a região de produção, com a facilidade da aquisição de insumos e com a época do ano. A estimativa é de que os valores fiquem entre R$ 0,70 e R$ 0,90 por litro.

O mercado para os produtos lácteos é interessante especialmente nos grandes centros urbanos, onde naturalmente é maior a demanda por diferentes tipos de alimentos. No entanto, é preciso encontrar maneiras para aproveitar esse potencial. “É preciso investir mais na divulgação das qualidades nutricionais desses produtos, assim como é necessário buscar técnicas de manejo que ajudem a reduzir os custos dos criadores”, considera o pesquisador da Embrapa.

Situação semelhante enfrenta quem investe na produção do leite de ovelha. “O desafio é incrementar a produção por meio do aumento do rebanho em várias partes do país, de forma que os derivados do leite possam estar presentes em todos os mercados. Ainda trata-se de um produto de luxo com poucos concorrentes importados que são vendidos a altos preços”, define o criador Márcio Aguinsky, que tem um rebanho da raça Lacaune.

Mesmo que o mercado ainda seja bastante restrito, o produtor percebe mudanças no comportamento do consumidor desde que iniciou os investimentos no setor, na década de 90. “Observamos que aquele quase total desconhecimento com relação à existência de produtos derivados do leite ovino não se faz mais tão presente. O público já conhece alguns produtos e aprecia sua qualidade”, menciona.

Potencial para a expansão

A CCA Laticínios trabalha com o leite de cabra desde 1995. Em 2009, foram adquiridos quase 1,9 milhão de litros de leite de criadores parceiros nos estados do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Atualmente, 116 produtores fornecem a matéria-prima para a fabricação dos leites e queijos que chegam ao consumidor com a marca Caprilat. Os criadores recebem pelo litro um preço base de R$ 1,18, mais bonificações referentes a diversos aspectos da qualidade do produto. Com essa fórmula, o valor final normalmente se aproxima de R$ 1,30 pelo litro.

O veterinário Paulo Roberto Celles Cordeiro, diretor técnico da Caprilat, afirma que existe o interesse em ampliar a captação. “Acreditamos especialmente no potencial para o mercado de queijos”, salienta o empresário. A justificativa para a afirmação vem do fato de que o consumo do leite, voltado basicamente para uso terapêutico, é estável nos últimos anos.

De todo o volume captado pela empresa, 85% é destinado para a produção dos leites em pó e UHT. Na Europa, países grandes produtores, como França, Grécia e Espanha, destinam entre 90% e 95% do leite para a elaboração de queijos.

Um dos grandes desafios à ampliação do consumo no Brasil está relacionado aos preços mais altos do produto final, uma consequência da baixa escala de produção. O leite de cabra em pó é comercializado ao consumidor final com valores em torno de R$ 50 o quilo, enquanto o leite de vaca tem custo ao redor de R$ 18 o quilo. Entre os queijos, o quilo do alimento feito a partir do leite de cabra pode chegar a cerca de R$ 70. Ao mesmo tempo, um produto equivalente, mas fabricado com o leite de vaca, é vendido por aproximadamente R$ 32.

Misturar os dois tipos de leite num mesmo alimento é uma estratégia para a redução de custos utilizada por indústrias europeias há muitos anos. “É uma saída interessante não apenas para diminuir os custos, mas também para deixar o produto mais suave e acostumar o consumidor aos poucos. Aqui no Brasil, já existe uma empresa que fabrica um tipo de queijo combinando os leite de vaca e o leite de cabra. É importante que iniciativas assim aconteçam para ajudar a impulsionar o mercado”, argumenta Paulo Cordeiro.

O principal apelo para o consumo do leite de cabra parte dos seus benefícios nutracêuticos. O alimento contém 20% mais cálcio que o leite de vaca. Pelo tamanho reduzido das partículas de gordura, é mais facilmente digerido. Também tem absorção duas vezes mais rápida em comparação com o leite de vaca e, por isso, é indicado para crianças e idosos com problemas de nutrição. O produto também causa menos problemas de alergias por ter melhor tolerabilidade em comparação com o leite de vaca.

Crescimento contínuo

Foi durante uma viagem à França, numa visita de estudos à região de Roquefort, que a família Aguinsky ficou empolgada com a raça de ovinos Lacaune. Em 1992, foram importados do país europeu um carneiro e dez matrizes para a Cabanha Dedo Verde, propriedade da família em Viamão/RS.

De lá para cá, a empolgação inicial virou negócio e a criação só cresceu. Hoje, a cabanha abriga o maior plantel do Brasil de ovelhas voltadas à produção de leite. O rebanho total é formado por cerca de 1,3 mil animais entre reprodutores e matrizes, sendo que 85% desse efetivo são de animais da raça Lacaune ou oriundos de absorção com Lacaune.

Em 2009, a cabanha comercializou 543 ovinos da raça. Desse total, 48 foram machos PO e o restante fêmeas PO e cruzadas. O criador Márcio Aguinsky diz que o mercado está em franca expansão, principalmente devido ao valor agregado dos produtos oriundos do leite de ovelha. “Para este ano, a expectativa é de vender pelo menos o mesmo número de animais, já que não aumentamos muito nosso efetivo. No entanto, a produção deve crescer nos próximos anos, já que praticamente dobraremos a área destinada à produção de alimentos para os animais a partir do segundo semestre e, assim, ampliaremos o plantel”, relata.

O leite produzido na Dedo Verde é utilizado para a fabricação de queijos na Confer Alimentos, unidade industrial que fica junto à propriedade, em Viamão. A produção média mensal é de aproximadamente 1,4 mil quilos de queijos finos, volume que deve aumentar no ano que vem, assim como a variedade de produtos. “A Confer também tem planos para captar leite de outras localidades, mesmo de outros estados, para poder aumentar o mix de queijos finos. Já estamos estudando meios de adquirir leite produzido em locais distantes da nossa planta”, conta Aguinsky.

Os principais compradores dos produtos que levam a marca Lacaune estão nos mercados do Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. A intenção é ampliar a distribuição, mas antes de tudo, preservar o atendimento aos consumidores fiéis. “Não podemos deixar faltar produtos para nossos clientes e temos que atender a todos adequadamente. Por isso, a conquista de novos mercados tem sido feita com certa cautela”, ressalva o criador.

Os queijos fabricados pela Confer são comercializados por preços entre R$ 100 e R$ 150 o quilo. Especialidades muito apreciadas pelos conhecedores de queijos finos, um Roquefort importado ou um português Serra da Estrela, têm preços ao redor de R$ 300,00 o quilo. “Acredito que quanto mais ofertarmos produtos de qualidade, maior será o consumo e o desenvolvimento de toda a cadeia, incentivando os produtores e a atividade industrial de transformação. É uma situação parecida com a que ocorre com o mercado de vinhos finos”, pontua Aguinsky.

Fonte de genética da raça Lacaune no Brasil, a Cabanha Dedo Verde é parceira de produtores de leite em diferentes regiões do país. “Temos um trabalho conjunto com os ovinocultores mais importantes de Santa Catarina e também de outros estados, porque o nosso objetivo é colaborar para o desenvolvimento da atividade”, frisa o criador.

Assim como o leite de cabra, o leite de ovelha também se destaca pelos seus benefícios à saúde. Entre os diferenciais, está o alto teor de cálcio, superior em 75% quando comparado ao leite de vaca. O alimento também tem fácil digestibilidade e é rico em vitaminas, com ênfase para a alta concentração de vitamina C.

Composição do leite por 100 gramas
Ovelha Cabra Vaca
Energia (Kcal) 107 68,8 61,4
Proteína (g) 5,98 3,56 3,29
Gordura (g) 7,0 4,1 3,34
Cálcio (mg) 193,4 133,5 119,4
Fósforo (mg) 158 110,7 93,4
Vitamina C (mg) 4,6 1,29 0,94
Fonte: USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos)

AG – A Revista do Criador

Fonte : http://www.edcentaurus.com.br/materias/ag.php?id=3088

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here