Manejo Ecológico da Broca-do-Café com Inseticidas Biológicos

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A broca-do-café, Hypotenemus hampei (Ferrari, 1867), encontra-se amplamente disseminada em grande parte das regiões de plantio do café, onde tem causado importantes perdas na produção. A praga foi identificada no país na década de 1920, na região cafeeira de Campinas. Foi criada então uma comissão de investigação sobre o assunto que posteriormente foi transformada no Instituto Biológico de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, em São Paulo. Atualmente, diversas universidades e centros de pesquisa estaduais, como Iapar, Epamig, Incaper, entre outros, possuem linhas de pesquisas relacionadas ao controle da broca. A praga é bastante prejudicial à produção, ataca o fruto nos vários estágios da maturação, refletindo diretamente na perda dos grãos e/ou qualidade do café. Além disso, o inseto chega a dar até sete gerações no ano, podendo desenvolver, em condições favoráveis, altas populações no campo.
O controle da praga tem sido feito exclusivamente por meio de agrotóxicos, em especial o endosulfan. O uso constante desse produto pode ocasionar o desenvolvimento da resistência em populações da praga no campo e a eliminação de inimigos naturais da broca e de outras pragas importantes da cultura, como o bicho-mineiro. Devem ser considerados também os problemas relacionados à contaminação do ambiente, do produtor e do café a ser comercializado.
Por outro lado, uma das grandes preocupações do agricultor moderno é adotar técnicas que possam dar sustentação à sua cultura. Assim, alternativas biológicas de controle da broca estão sendo estudadas, com destaque para o fungo Beauveria bassiana . As primeiras referências sobre fungos atacando a broca-do-café no Brasil foram feitas por Neiva & Averna-Saccá (1930), que descreveram um fungo, inicialmente identificado como Botrytis stephanoderes , ocorrendo naturalmente sobre a praga. Anos mais tarde, referências sobre a ocorrência natural desse patógeno em populações de campo foram feitas no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Paraná, na Bahia, no Espírito Santo, em Minas Gerais e em Rondônia. Diversos estudos comprovam a patogenicidade de B. bassiana a insetos adultos diretamente inoculados ou expostos à folhas ou frutos contaminados com o fungo.
Apesar da evolução das pesquisas com fungos entomopatogênicos, o emprego desses microrganismos na cafeicultura nacional é ainda muito pequeno. Apenas a partir da década de 1990, com o início da produção industrial em larga escala de B. bassiana , iniciou-se em algumas áreas produtoras de café o uso desse fungo para o controle da broca.
Além de ser uma tecnologia econômica e ambientalmente sustentável, o controle da broca com fungos apresenta uma série de vantagens ao cafeicultor. O bioproduto não é tóxico ao agricultor, não deixa resíduo e não altera a qualidade ou sabor do produto final, sendo melhor aceito pelo mercado consumidor nacional e internacional. Seu impacto sobre o ambiente e outros agentes de controle biológico das pragas é muito pequeno, podendo ser associado com outros métodos de controle. Pode manter-se na lavoura naturalmente, controlando o inseto mesmo após a aplicação.
Contudo, o cafeicultor não deve entender essa modalidade de controle como uma simples substituição do produto químico convencional pelo biológico. Trata-se de uma mudança mais profunda e que deve ser encarada com uma visão mais ampla, dentro de um contexto de manejo integrado. Deste modo, qualquer ação dentro do manejo fitossanitário na cultura pode influenciar positiva ou negativamente no sucesso do uso do produto biológico.
Antes das aplicações é indispensável o monitoramento da população do inseto no campo. A broca, como para a maioria das pragas, distribui-se na lavoura de forma irregular, podendo ocorrer talhões de maior incidência do inseto. Talhões velhos, adensados e em locais mais úmidos, como baixadas, são geralmente mais infestados. São também as condições ótimas para o uso de B. bassiana . Esses focos da praga são importantes fontes de infestação de novas áreas e devem ser controlados rapidamente.
As aplicações do bioproduto podem ser feitas pulverizando-se toda a planta, durante o período de “trânsito da broca”, ocasião em que os insetos provenientes dos frutos remanescentes da safra anterior atacam os frutos novos, e quando o índice de infestação atingir cerca de 2% de frutos atacados. Deve-se usar entre 1×10¹² e 2×10¹² conídios por hectare, em 200 a 400 litros de calda, sempre em agitação. A concentração da calda deve variar entre 2×10 (elevado a 9) e 5×10 (elevado a 9) conídios por litro. Os insetos são infectados durante o caminhamento sobre os ramos e a folhagem ou quando iniciam a perfuração do fruto. É importante que o produto atinja os locais da planta com maior concentração de broca. Estes locais são os mais internos e mais baixos na planta, justamente por serem os mais sombreados e úmidos, preferidos pelo inseto. O polvilhamento, para produtos na forma de pó, é outro modo de aplicação que pode ser empregado. Nesse caso pode-se associar ao produto talco ou outro inerte que seja compatível com o fungo.
Um aspecto importante no manejo da broca, onde se utiliza o controle biológico, está relacionado ao efeito dos agrotóxicos sobre o entomopatógeno. O uso de fungicidas para o controle da ferrugem e da cercosporiose, de herbicidas e inseticidas na cultura do cafeeiro convencional é inevitável e freqüente. Esses produtos químicos afetam diretamente o inóculo natural de B. bassiana no campo ou o bioproduto a ser aplicado. Mesmo produtos naturais utilizados pelos cafeicultores orgânicos podem afetar o desempenho do entomopatógeno no campo. Desse modo, é importante que o cafeicultor busque, em centros de pesquisa e no fornecedor do produto biológico, informações sobre agrotóxicos compatíveis. Mesmo para agrotóxicos pouco seletivos, existem outras formas de evitar o efeito negativo desses produtos sobre o fungo. O uso de inseticidas e fungicidas granulados de aplicação no solo e respeitar intervalos de pelo menos 15 dias entre aplicações do bioproduto e do agrotóxico fazem com que não ocorra o contado direto entre o produto químico e o fungo.
Além das aplicações do fungo na época pré-determinada, outras estratégias podem auxiliar na redução de populações da broca no campo. Uma delas consiste no uso de variedades resistentes à doenças, reduzindo-se a aplicação de fungicidas na lavoura e, consequentemente, beneficiando a ação do fungo. Outra estratégia é o uso de armadilhas atrativas, na lavoura e no terreiro de secagem. Na entressafra, quando não existe a concorrência dos frutos pela atração dos adultos, as armadilhas coletam um grande número de insetos que ficam nos frutos remanescentes ou caídos. O mesmo ocorre no terreiro, onde brocas deixam os frutos que estão sendo secos e voltam para a lavoura. As armadilhas, nessa fase, também têm boa atração e em testes de campo capturaram um grande número de adultos.
Atualmente, o fungo é comercializado e utilizado principalmente em lavouras orgânicas e a área tratada vem aumentando a cada ano, com boa aprovação dos cafeicultores. Nessa modalidade de cultivo, o produtor rural tem disponível poucas alternativas para o controle de pragas, e o fungo B. bassiana passa a ser indispensável. A adoção de outras práticas culturais e a não utilização de agrotóxicos que possam afetar negativamente o patógeno, principalmente os fungicidas químicos, contribuem para o sucesso do controle biológico. Cabe ressaltar, que esse fungo têm um grande potencial de ser explorado em cultivos convencionais e já pode ser disponibilizado ao mercado consumidor em grandes quantidades. Contudo, a adoção dessa prática no café não-orgânico deve ser bem avaliada para cada caso, empregando-se estratégias de manejo de pragas melhor definidas, avaliando-se as condições e áreas favoráveis ao patógeno e utilizando-se produtos químicos seletivos aos inimigos naturais.
A cafeicultura sustentável que iniciou no Brasil na década de 1960, com os ensinamentos de Chebabi na área de adubação orgânica e de cultivo geral, ganha com o desenvolvimento dos fungos entomopatogênicos para o controle da broca, um aliado importante para a maior sustentação dessa atividade agrícola.

Fonte: http://www.itafortebioprodutos.com.br/news.asp?id_NWS=11

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