Látex pode ajudar a reconstruir osso, diz pesquisador de Bauru

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Bruna Dias

Látex pode ajudar a reconstruir osso, diz pesquisador de Bauru Bruna Dias Já vai longe o tempo em que o látex era associado pura e simplesmente à borracha. No século 21, o látex – extraído da seringueira através de incisões finas na casca – é utilizado das mais diversas maneiras. Brilhou, por exemplo, na edição 2011 do São Paulo Fashion Week entre os acessórios de destaque no desfile de Alexandre Herchcovitch. E nos proximos anos poderá ser utilizado na implantodontia e reconstrução óssea.

É exatamente isso que mostra a pesquisa de Diego Kleinübing Pons, 30 anos. Nos dois anos de estudo no curso de mestrado em biologia oral com concentração em implantodontia, na Universidade Sagrado Coração (USC), o pesquisador descobriu que o látex processado e transformado em película protege a migração de células indesejáveis e libera substâncias que auxiliam na neoformação (formação de novos tecidos orgânicos) óssea.

Até para Pons o resultado da pesquisa foi surpresa. Inicialmente, o estudo estava focado na implantodontia, especificamente. Mas descobriu-se que é possível avançar, com utilização em diversas outras áreas, como a reconstrução óssea de crânios de pacientes que precisaram retirar parte do osso em decorrência de tumores, uma perfuração à bala ou em qualquer tipo de fratura.

“Na literatura, víamos que o periósteo, que é uma membrana que recobre o osso, sempre foi muito trabalhada, mas nunca teve sua real função abordada. Não se sabia qual era a função do periósteo na neoformação óssea, de que maneira ele atuava, se apresentava um crescimento ósseo ou se apenas iria fazer uma pequena contribuição”, explica Diego Pons.

Para realizar a pesquisa, foram utilizados coelhos, que proporcionam melhor acompanhamento dos resultados. Pons dividiu os animais em quatro grupos. Em dois deles havia o periósteo e nos outros dois, a membrana era removida cirurgicamente. Em todos foram feitas perfurações e nelas implantado um domos (pequena cúpula de aproximadamente 134 milímetros cúbicos de volume perfurada feita artesanalmente de titânio).

Um dos dois primeiros grupos teve o domos recoberto por uma membrana de látex processada e fabricada por alunos da Escola Superior Agrícola “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), câmpus de Piracicaba, assim como outro dos dois grupos restantes. “A ideia do trabalho era que esse domos fosse preenchido com osso, e esse osso crescesse e formasse uma elevação, preenchendo o interior do domos. Mas nós não tínhamos certeza de como isso iria acontecer até os resultados serem obtidos. Então, o interior foi preenchido nos domos onde o látex estava obliterando a migração dos outros tecidos preenchidos do domos e liberando substâncias para que essa formação óssea fosse mais efetiva”, esclareceu.

Ponto de partida

O ponto de partida da pesquisa, que teve a colaboração de uma equipe de estudantes de várias áreas, entre elas física e biologia e odontologia, sob orientação da professora Angela Mitie Otta Kinoshita, foram estudos anteriores. Segundo Diego Pons, pesquisas pregressas já mostravam que o látex é um material eficiente como barreira obstrutiva. No entanto, a neoformação óssea nesse sentido em que estavam buscando um maior esclarecimento, não havia sido estudada.

Além disso, Pons descobriu também que outros estudos mostravam que os índios utilizavam especificamente o látex extraído da seringueira tipicamente amazônica intitulada Hevea brasiliensis, para curar ferimentos na pele. “As melhores membranas atuais custam em média R$ 800,00. Além do látex ser brasileiro e bem mais barato e as chances de transmitir doenças são mínimas por ser de origem vegetal”, explicou.

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Estudo das membranas

Diego Kleinübing Pons conta que os primeiros estudos de membranas foram feitos na década de 50. No entanto, a película era de origem bovina. Quando conseguiu-se desenvolver o látex em forma de membrana, que tem uma textura semelhante a de um preservativo, porém mais aderente e de maior elasticidade, o primeiro estudo envolvendo a reestruturação de tecidos foi feito em cães.

“Essa pesquisa é recente, dessa última década. Uma doutoranda de Zimmermann analisou um defeito criado no esôfago de cães em que essa membrana de látex foi usada como um tubo protetor nesse defeito. Foi avaliado como esses animais se portariam. No entanto, em torno de 10 a 12 dias depois que o látex foi colocado cirurgicamente protegendo esse defeito no interior do esôfago, os cachorros expeliram essa membrana”, contou.

Sem saber o resultado da pesquisa, os cães foram eutanasiados e na necrópsica constatou que aquele defeito havia sumido. O tecido do esôfago surpreendentemente se constituiu novamente. Ou seja, os cães expeliam o látex porque ele não é absorvido pelo organismo e precisa de fato ser removido. Um avanço tecnológico que pode mudar o rumo da medicina nos próximos anos.

Na área da implantodontia, esse procedimento feito em coelhos futuramente poderá se estender a humanos. “Na implantodontia em si, é preciso abrir o sítio novamente para concluir o implante depois. Então uma membrana não reabsorvível forma o tecido de uma qualidade melhor e pode ser retirada depois sem problemas. A ideia é que essas membranas de látex sejam menos agressivas do que os enxertos ósseos”, ressaltou Diego.

Em caso de pessoas que precisam colocar dentadura e tiveram perda óssea, essa intervenção cirúrgica também auxiliaria. O domos seriam colocados recobertos com látex para estimular a neo-formação óssea e depois do crescimento do osso a dentadura pode finalmente ser adaptada.

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Patente já está em andamento

Para que o estudo tome proporção internacional e contribua para outras pesquisas, podendo ser de fato aprovado para uso em humanos, Diego Kleinübing Pons já começou a preparar seus artigos científicos. Além disso, a patente do domos desenvolvido pelos alunos da Universidade do Sagrado Coração (USC) já foi solicitada e está em andamento.

Segundo Pons, essa estrutura feita dessa forma é pioneira. “Existe algo semelhante, mas não deste tipo. O processo de patente já está em andamento e são feitas uma série de pesquisas até ser concedida. Toda a tramitação demora em torno de dois anos”.

Fonte: http://www.jcnet.com.br/detalhe_geral.php?codigo=201540

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