História da Raça Serrana

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A origem da cabra Serrana perde-se no tempo, contribuindo a arqueologia, com estudo de fósseis de esqueletos animais, para se encontrar os seus ancestrais que remontam ao período do Quaternário da era Cenozóico, ou seja, há cerca de 3 milhões de anos.

A classificação taxonómica dos animais da espécie caprina é a seguinte:

Classe: Mammalia
Ordem: Ungulata
Sub-ordem: Artiodactila
Família: Bovidae
Sub-família: Ovinae
Género: Capra

Como se disse atribui-se a origem da cabra doméstica às espécies selvagens do Quaternário: Capra aegagrus, Capra falconeri e Capra prisca, encontrando-se disseminadas por todos os continentes.
A enorme variedade de raças (embora muito inferior à da espécie ovina) é agrupada segundo a maioria dos autores, pela sua área de dispersão, constituindo três grandes grupos ou troncos:

Europeu: Ovis capra europaea
Asiático: Ovis capra asiática
Africano: Ovis capra africana

Ao tronco europeu pertencia a Capra aegagrus, ao tronco asiático a Capra falconeri e a Capra prisca, e ao tronco africano a Capra nubiana, uma outra espécie ancestral. Alguns autores consideram a Capra aegagrus, a única ascendente das cabras domésticas. Hilzheimer admite a origem difilética dos caprinos domésticos, ou seja, descenderiam de duas espécies selvagens: a Capra aegagrus e a Capra falconeri (Miranada do Vale, 1949).
A Capra prisca, forma extinta descoberta por Adametz é na opinião de muitos investigadores, ascendente de muitas raças de caprinos domésticas (Miranda do Vale, 1949). Estas espécies selvagens encontram-se em vias de extinção devido sobretudo à pressão humana e às modificações do meio que daí derivam, mantendo-se em algumas regiões do globo numa situação piriclitante e de elevado risco de desaparecimento ou extinção total, onde em vários casos, têm sido tomadas medidas de protecção da espécie, com a criação de reservas e parques onde a caça não é autorizada (Castello Branco, 1986, 1986).
A cabra montês dos Alpes (Capra aegagrus ibex) existe hoje na Itália, Suíça, Áustria, Alemanha e ex-Jugoslávia, com uma população que se estima em cerca de dez mil indivíduos, graças à protecção dada a esta espécie, no século XIX, pelo Rei caçador Victor Manuel II, ao criar a reserva natural do maciço do Grand Paradis, numa altura em que esta cabra sofria ameaça de extinção (Castello Branco, 1986).
A cabra montês da Núbia (Capra nubiana ibex) tem o seu habitat nos desertos rochosos do Médio-Oriente, com uma população que se presume inferior a mil indivíduos. Nas montanhas da Ásia Central e com os efectivos em forte redução, encontra-se a Capra falconeri, que se distingue das outras espécies, sobretudo pela sua corpulência, comprimento e forma dos cornos. Nas ilhas gregas e na Ásia Menor vivia a forma selvagem da cabra doméstica (Capra aegagrus), actualmente em vias de extinção, encontrando-se somente alguns exemplares de uma sub-espécie na ilha de Creta (Grielen, 1986, cit. Castello Branco, 1986).
Segundo Miranda do Vale (1949), a cabra deve ter sido domesticada ao mesmo tempo que os Carneiros e também no Oriente, na época do neolítico há aproximadamente 8000 anos, encontrando-se vestígios desta espécie nas cidades lacustres da Europa Ocidental.
Desde a domesticação dos caprinos que a sua imagem se associou a procedimentos de rituais e cerimónias de origem pagã ou mitológica. O paganismo classificava o Bode como animal imundo, cujo contacto devia ser seguido de lavagens e purificações, enquanto a cabra era considerada animal puro. Tanto assim era que os gregos sacrificavam a Baco (Deus do vinho) o bode devastador das vinhas, para evitar a sua ira.
A cabra, ao contrário era oferecida pelos gregos a Júpiter, mas pela sua consideração em relação ao animal, em virtude de ter amamentado este Deus quando era criança e ter contribuído para a sua sobrevivência.
Na religião católica o bode corresponde à imagem demoníaca de pecado e a ovelha representa a pessoa boa e justa. Com a domesticação, a cabra adquiriu o amor pelo homem que a trata, pela criança com quem brinca e que, não raro, amamenta com solicitude. conservou do animal selvagem, o gosto pela vida vagabunda, pelas correrias, saltos e lutas; guardou a insensibilidade à vertigem, preferindo as montanhas à planície e os lugares seguros das margens dos abismos (Miranda do Vale, 1949).
A origem da raça caprina Serrana é particularmente difícil de determinar, mas como se disse, tudo indica que as raças caprinas portuguesas tenham tido a sua origem nos três tipos de cabras selvagens do período quaternário.
Ao longo do tempo e devido a ondas migratórias das cabras selvagens através das cadeias montanhosas, estas cabras foram sucedidas na Península Ibérica pela Capra pyrenaica.Aceitando-se actualmente que a raça Serrana seja originária da Serra da Estrela e proceda da Capra pyrenaica, ou cabra dos Pirinéus, pertencente ao tronco europeu, antecessora das raças caprinas portuguesas e espanholas.  No entanto, terá existido na região da serra do Gerês, uma espécie selvagem de caprinos, hoje extinta.
Até final do século passado, Portugal apresentava ainda esta cabra – a Capra lusitânica ou cabra selvagem do Gerês – provávelmente parente mais próxima das actuais raças portuguesas (Duque Fonseca, 1989).
A sua origem é motivo de divergência, afirmando certos autores que esta descendia da Capra pyrenaica, defendendo outros que a sua ascendência estava na Capra hispânica; Carlos França denominou-a de Capra lusitânica, afirmando que as suas características não se coadunavam com qualquer com qualquer daquelas origens (Miranda do Vale, 1949).
No século XIX, ter-se-à verificado a extinção do último ramo de uma linhagem portuguesa- a Capra pyrenaica lusitânica (Montbel, 1986, cit Castello Branco, 1986). A cabra montês de Espanha (Capra pyrenaica), ainda se faz representar, embora sofrendo ameaça de extinção (Grielen, 1986, cit. Castello Branco, 1986).
Em Portugal o panorama étnico dos caprinos domésticos é caracterizado por uma grande heterogeneidade das populações. Nos anos cinquenta, sobressaíam, pela sua importância numérica, dois agrupamentos definidos com base nas respectivas características morfo-funcionais: a raça Serrana e a Charnequeira, cujos efectivos se estimavam em 43% e 25% respectivamente (Barreto Magro, 1959). Passadas cerca de duas décadas (anos setenta), estas raças parecem ter mantido as proporções (45% para a Serrana e 25% para a Charnequeira), relativamente ao efectivo caprino português (Tropa et al., 1967).
Os restantes agrupamentos e indivíduos constituem populações e animais mestiços, derivados sobretudo do tronco Charnequeiro, de que se destacam as duas variedades Raiana ou Serpentina e Algarvia, predominando estas , respectivamente no Alentejo e Algarve (Calheiros, 1981). Consideram-se ainda algumas variedades dentro das raças Serrana (jarmelense ou jarmelista e saloia) e Charnequeira (barrosã, beiroa, ribatejana e alentejana), com implantação circunscrita a áreas mais limitadas.

Extraído de Almendra, L., 1996. A cabra Serrana Transmontana – origem, caracterização da raça e sistemas de produção. Colectânea SPOC, Volume 7, Nº1,pp 31.

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