Glicerina bruta substitui milho na dieta de cordeiros

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A glicerina, subproduto do biodiesel pode ser incluída em até 6% da matéria seca na dieta de cordeiros em terminação, reduzindo os custos em 14%. É um adendo da modernidade no cocho dos animais.

O Brasil está entre os maiores produtores e consumidores de biodiesel do mundo, com uma produção anual, em 2008, de 1,2 bilhões de litros. Desde 1º de julho de 2009, de acordo com a resolução nº 2/2009 estabelecida pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), o óleo diesel comercializado em todo Brasil, deverá conter obrigatoriamente, 4% de biodiesel. Assim, está ha­vendo um aumento na produção de biodiesel no país e consequentemente de glicerina bruta, pois esta representa aproximadamente 10% do peso do óleo, ou gordura utilizados para produção de biodiesel.

A glicerina bruta contém, em ­média, de 75 a 80% de glicerol, sendo o restante composto por água, ácidos graxos (7 a 13%), minerais oriundos dos cata­lisadores (2 a 3%) e álcool (<0,5%). No Brasil tem ocorrido grande variação na composição deste produto, encontrando-se glicerinas brutas com 40 ou 80% de glicerol. A glicerina bruta que contém 40% de glicerol possui como principal impureza os ácidos graxos não convertidos em biodiesel. O volume excedente de glicerina bru­ta a ser gerado com a produção de biodiesel, possivelmente, acarretará em redução nos preços, sendo necessária a busca por novas formas de utilização deste co-produto.

O destino da glicerina bruta é uma importante consideração a ser feita pela agroindústria do biodiesel, pois além de ser um poluente am­biental, esta não atende os requerimentos legais para uso farmacêutico, que preconiza o uso da glicerina purificada com teores acima de 99,5% de glicerol. A glicerina já tem sido estudada em sua forma purificada, como suplemento gliconeogênico para prevenção da cetose em vacas durante a fase de lactação e ovelhas durante o pré-parto, pois aumenta o suprimento de precursores da glicose. Entretanto, em consequência do crescimento da indústria do biodiesel, o interesse pelo uso da glicerina tem sido renovado. Devido ao glicerol apresentar um valor energético semelhante ao milho, o uso da glicerina bruta na dieta de ruminantes tem sido focado na substituição do milho nas die­tas, tendo como consequência uma redução nos custos com a alimentação.

Em outros paises há estudos com a inclusão de glicerina bruta na dieta de bovinos em terminação, sendo indicado seu uso em até 10% na matéria seca da dieta, em substituição ao milho. Como no Brasil ainda não possuíamos dados conclusivos com a inclusão de glicerina na dieta de ruminantes, deu-se início ao estudo no Departamento de Zootecnia da Universidade Federal de Viçosa sob orientação do Professor Pedro Veiga Rodrigues Paulino, que foi tema da dissertação de Mestrado da autora deste artigo.

Devido à expansão da ovinocultura em nosso país, apresentando fortes índices de crescimento, foi realizada a pesquisa com inclusão de glicerina bruta na dieta de cordeiros terminados com confinamento. Sabe-se que a terminação de cordeiros em confinamento é rea­lizada com uso de altos níveis de concentrado na dieta, sendo que a alimentação representa elevada participação nos custos de produção, cerca de 65 a 70%, logo, o produtor deve buscar alimentos alternativos para amenizar os custos de produção. Portanto, foram ava­liados na pesquisa, além do consumo, ganho de peso, características de carcaça e qualidade da carne, a economicidade das dietas para cordeiros terminados em confinamento, permitindo conhecer o nível ótimo de glicerina bruta onde o produtor obteria um menor custo de produção.

Glicerina na ração.

Foram utilizados cordeiros da raça Santa Inês, machos não castrados, com peso médio inicial de 20 ± 2,27 kg e avaliados cinco níveis de inclusão da glicerina bruta na dieta, em substituição ao milho, sendo 0, 3, 6, 9 e 12% na ­matéria seca das dietas. As dietas completas ofertadas aos animais possuíam 18% de proteína bruta, compostas de 30% de volumoso (silagem de milho) e 70% de concentrado, o qual continha milho moí­do, farelo de soja, uréia/sulfato de amônio e suplemento mineral. A glicerina bruta utilizada continha apenas 36,20% de glicerol, sendo o restante composto de ácidos graxos (46,48%), metanol (8,66%), água (6,20%), proteína bruta (0,41%) e matéria mineral (2,05%).

O teor de metanol da glicerina utilizada no presente trabalho se encontra elevado, podendo ocorrer devido a uma menor recuperação deste material para ser reutilizado no processo de produção do biodiesel. Entretanto, o alto risco de saúde associado com o consumo do metanol através da inclusão de glicerina bruta na dieta, não é esperado em animais ruminantes. O metanol é produ­zido no rúmen como resultado da fermentação da pectina, um abundante carboidrato encontrado em plantas consumidas pelos ruminantes. Estudos já foram realizados com infusão contínua de solução de metanol no rúmen de ovinos e constatou-se que o metanol foi exclusivamente convertido em metano no rúmen dos animais. Devido à preocupação com a segurança alimentar, a presença de contaminantes na glicerina bruta, como os metais pesados, foram investigados. Os metais encontrados na glicerina bruta foram: Cu = 5,65 mg/kg; Cr = 1,19 mg/kg; Ni = 5,87 mg/kg; Pb = 0,33 mg/kg; Zn = 5,22 mg/kg; Cd = menor que o limite de detecção (0,05 mg/L). Logo, o fíga­do e a carne dos animais foram analisados para garantir maior segurança ao consumidor. Não foram detectados pelo método analítico utilizado a presença dos elementos Pb, Cd, Cr e Ni em nenhuma das amostras de carne e fígado analisadas. Nesse caso, os teores desses metais estavam abaixo do limite de quantificação do método analítico que foram (mg/kg): Cd = 0,55; Cr = 0,66; Ni = 1,65; Pb = 6,01.

O teor de cobre aumentou no fígado de animais submetidos a dietas com inclusão de glicerina bruta. Já o teor de cobre na carne dos animais não diferiu entre os tratamentos. O fígado é de fundamental importância no metabolismo do cobre, sendo responsável por até 90% do seu armazenamento, o que explica o baixo teor de cobre encontrado na ­carne dos animais. Portanto, com o consumo de dietas com inclusão de glicerina bruta, o acúmulo de cobre tenderá a ser maior no fígado em relação à carne. O teor de zinco foi maior na carne de animais que não receberam glicerina bruta na dieta.

O suplemento mineral fornecido possuía quantidades consideráveis de zinco (4750 mg) e, devido ao maior consumo dos animais alimentados com a dieta-controle, houve maior ingestão de suplemento mineral e consequentemente de zinco, o que acarretou em maior teor deste mineral na carne de animais que não receberam glicerina bruta na dieta. Considerando-se uma porção de 100 gramas de fígado ou carne de cordeiros para ingestão diária em humanos, verificou-se que os níveis de zinco e cobre estão dentro do limite tolerável, não sendo capazes de causar toxicidade em humanos. No presente estudo (Lage, 2009), foi pressuposto que a inclusão de glicerina bruta na dieta dos animais, resultaria na redução da relação acetato: propionato no rúmen, possivelmente resultando em um aumento da proporção de propionato no rúmen, o qual é precursor da glicose. Portanto, era esperado que a inclusão de glicerina bruta na dieta promovesse um aumento na deposição de gordura intramuscular, visto que para deposição deste tecido é necessário utilizar a glicose como fonte de carbono. Entretanto, a glicerina bruta utilizada no presente experimento continha apenas 36,20% de glicerol, o que possivelmente não permitiu uma produção de glicose que favorecesse a deposição de gordura intramuscular.

A inclusão de glicerina bruta na dieta resultou em redução no consumo de matéria seca pelos animais, o que consequentemente afetou o desempenho e o rendimento de carcaça. Até o nível de inclusão em 9%, o ganho de peso dos animais foi superior a 250 g/dia, mas no nível de 12% de inclusão, o ganho médio de peso foi de 193 g/dia. O rendimen­to de carcaça variou de 44,21% (3% glicerina) a 41,41% (12% glicerina). Entretanto, animais alimentados com 6% de glicerina bruta na dieta apresentaram melhor conversão alimentar. Houve uma melhora de até 17% na eficiência alimentar quando os animais foram alimentados com 6% de glicerina bruta em relação à dieta convencional.

Através da análise econômica que foi baseada no custo do ganho de carcaça médio dos animais, foi possível concluir que a glicerina bruta poderá ser incluída em até 6% na matéria seca da dieta de cordeiros em terminação, quando o preço deste co-produto representar até 70% do preço do milho, havendo uma redução nos custos do ganho de carcaça em 14%. É importante ressaltar que a glicerina bruta utilizada no experi­mento continha apenas 36,20% de glicerol, o que a difere do material utilizado em trabalhos publicados internacionalmente, que apresenta aproximadamente 80% de glicerol.

18/03/2010Revista O Berr0 Nº131 – EdvJosiane Fonseca Lage

Fonte:  http://www.accoba.com.br/ap_info_dc.asp?idInfo=1595

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