Formigas – Use no lugar certo o método correto

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Além dos danos causados diretamente pelas formigas, o agricultor pode desperdiçar investimento com inseticidas, custo com mão-de-obra e tempo, quando a técnica de controle escolhida não é a apropriada ou não são observados os cuidados necessários para a execução dos procedimentos básicos.

À luz dos conhecimentos atuais, controlar formigas cortadeiras em áreas comerciais implica necessariamente a utilização de produtos químicos, existentes no mercado na forma de pós, grânulos ou líquidos termonebulizáveis

No entanto, nem tudo está perfeitamente definido, cientificamente, na área de controle químico. Várias são as dificuldades, muitas vezes inerentes ao tipo de formulação e/ou ao modo de ação do produto, ao equipamento, ao método de estabelecimento de dosagens ou às características biológicas e comportamentais das formigas cortadeiras.

Cada estratégia apresenta suas vantagens e suas limitações, podendo ser evidenciadas ou minimizadas em função dos conhecimentos técnicos dos executores ou dos responsáveis pelo controle. A opção pelo método está atrelada a vários fatores, como condições climáticas, disponibilidade de mão-de-obra, recursos econômicos, densidade e tamanho dos ninhos, tamanho da área de cultivo, valor comercial da cultura, dentre outros.

O agricultor deve tomar consciência de que eliminar sauveiros e quenquenzeiros não é tarefa simples. Pelo contrário, exige uma série de conhecimentos técnicos, sem os quais o controle certamente será comprometido.

Controle bem o primeiro passo

Conhecer as espécies de formigas cortadeiras, a densidade e o tamanho dos ninhos é fundamental por várias razões. Principalmente para identificação das áreas prioritárias para ações de controle e para fazer previsões acerca dos investimentos necessários.

É importante que o reconhecimento da área seja feito antes das operações de preparo do solo, pois o revolvimento e a desestruturação parcial dos ninhos dificultam a visualização dos formigueiros, podendo ainda provocar uma parada temporária de atividade de corte de folhas (“formigueiro amuado”), passando despercebidos ou tidos como mortos.

Os pós-secos e a termonebulização

A utilização de formicidas pós- secos é restrita a algumas espécies de quenquenzeiros; essas constróem ninhos superficiais com pequeno número de câmaras, ou a situações que exijam parada imediata da atividade de corte, a fim de se ganhar tempo para o emprego da estratégia adequada.

Eles não são eficientes para matar sauveiros. Os inseticidas pós agem por contato, ou seja, é necessário que atinjam todas as formigas da colônia, o que é impossível no caso de sauveiros, com ninhos de até 8 metros de profundidade e complexos, com milhões de indivíduos.

Além disso, o solo não pode estar úmido e exige a limpeza e remoção de terra solta (murundu) 24-48 horas antes da aplicação. E a termonebulização? É uma técnica que consiste na aplicação de inseticidas líquidos, com formulação especial, através de equipamentos denominados termonebulizadores. A associação produto-equipamento permite a saída de pequenas gotículas pelo cano de descarga, formando uma névoa parecida com “fumaça” que contém o inseticida. Trata-se de uma técnica eficiente, que pode ser usada inclusive em períodos chuvosos.

Para aplicação de líquidos termonebulizáveis, deve-se escolher olheiros ativos, de preferência em diferentes setores do formigueiro, aguardando-se a saída da “fumaça” pelos demais, bem como o refluxo da mesma nos olheiros onde está sendo injetada. Os olheiros, onde se constata a saída de “fumaça”, devem ser fechados. Esta é a aplicação por saturação, a mais utilizada.

Para a operação é indispensável o trabalho de, no mínimo, duas pessoas para limpeza das proximidades dos orifícios, às vezes necessária, aplicação do produto e fechamento dos olheiros (operações simultâneas). Ainda, os cuidados com a manutenção dos equipamentos são fundamentais.

Teoricamente, o refluxo indica que o formigueiro ficou saturado com o produto, e o resultado de controle será satisfatório. No entanto, nem sempre isso acontece, principalmente em ninhos atípicos. Na verdade, não há informações precisas sobre a circulação do produto na parte interna do formigueiro e, portanto, sobre a dinâmica de contaminação das formigas pelos inseticidas.

Os formicidas termonebulizáveis atuam por contato, devendo, assim, a penetração do produto ocorrer na maioria das câmaras e túneis por onde circulam as formigas. Porém, a arquitetura interna sofre variações entre as espécies de formigas, e mesmo dentro de uma mesma espécie, em alguns casos bastante acentuadas. Por exemplo, nos ninhos da saúva limão (Atta sexdens), os numerosos orifícios de abastecimento (mais de 200) estão interligados pelos túneis de forrageamento, sendo cada túnel ramificado, constituindo-se em complexas malhas, com localização bastante superficial em relação à superfície do solo.

A saída da fumaça por vários orifícios garante que o produto necessariamente tenha alcançado a parte mais profunda do sauveiro? Será que a circulação do produto ocorre da mesma forma nas diversas espécies de saúvas? Essas indagações não invalidam a técnica, muito pelo contrário, quando devidamente respondidas pela pesquisa podem auxiliar no seu aperfeiçoamento e na sua eficiência, que de modo geral é considerada satisfatória.

Um aspecto importante a ser ressaltado é que a eficiência da técnica é maior antes das operações de preparo do solo. No caso da impossibilidade de controle nesse momento, deve-se esperar uma determinado período (no mínimo 60 dias) para o reestabelecimento dos formigueiros, e só então empregar a termonebulização, garantindo um mínimo de eficiência.

E as iscas tóxicas?

São grânulos formulados à base de polpa de laranja desidratada e óleo de soja, nos quais é dissolvido o inseticida. É a técnica mais utilizada, pela praticicidade e eficiência. No entanto, não se deve confundir praticicidade com simplicidade!

A falta de conhecimentos básicos dessa técnica tem permitido os mais variados absurdos. Erros na aplicação de iscas tóxicas têm sido constatados, comprometendo os resultados de eficiência.

O uso correto de iscas tóxicas

• Estimativa da área de terra solta

Etapa realizada para sauveiros, dispensável para a maioria das espécies de quenquenzeiros. É imprescindível para a determinação das dosagens. A área é obtida com base nas dimensões (comprimento e largura) do murundu, ou monte de terra solta principal, com exceção de Atta capiguara, quando devem ser incluídos nas medições as rosetas ou montes secundários.

No entanto nem sempre é tão fácil a medição dos formigueiros, principalmente em locais altamente infestados ou com formigueiros desestruturados. Nesses casos a presença de um técnico experiente é fundamental.

•Determinação da dosagem

Multiplicando-se o comprimento pela largura do monte de terra solta, obtém-se a área, e este resultado multiplica-se pela dosagem indicada no rótulo (por metro quadrado) determinando a quantidade de iscas necessária para o controle do sauveiro.

Os fabricantes recomendam dose única por quenquenzeiro. Algumas empresas têm adotado o método da dosagem única por olheiro ativo para aplicação de iscas tóxicas em sauveiros. No entanto a pesquisa já determinou que, dependendo do tamanho do formigueiro, o emprego de dose única por olheiro ativo pode levar a excesso ou escassez de isca aplicada.

A utilização da área de terra solta para estabelecimento das dosagens também apresenta limitações. Neste caso, sugere-se a utilização do método da estimativa da área para a maioria dos casos, onde se encontram formigueiros típicos, de fácil visualização e distinção.

O eng. agrônomo Ademir Bragião, da empresa ATTA KILL, recomenda, em áreas com alta infestação de formigueiros de várias espécies ou com formigueiros desestruturados, incluir as rosetas que estiverem a até três metros de distância da sede aparente do formigueiro para o cálculo da área e definição de dosagem. Ainda, discos ou rosetas de terra solta distantes mais de três metros da sede aparente e com menos de três metros entre si, devem ser medidos como um formigueiro e, finalmente, olheiros de abastecimento e rosetas isoladas devem receber uma dose única adicional.

• Distribuição das iscas

As iscas não devem ser aplicadas em períodos chuvosos ou com solo muito úmido. Recomenda-se a distribuição da quantidade de iscas em vários orifícios de abastecimento e ativos, para garantir o rápido e total carregamento. Nesse momento surge um aspecto importante: onde estão localizados os orifícios de abastecimento? Atenção! Nem todas as espécies de saúvas apresentam orifícios de abastecimento (entrada de folhas) sobre o monte de terra solta. Para algumas espécies tais orifícios são utilizados exclusivamente para a retirada de terra solta dos canais e as formigas que realizam esse trabalho não carregarão as iscas (Ex: Atta capiguara, Atta bisphaerica). No caso das espécies que apresentam orifícios de abastecimento sobre o murundu, as iscas até podem ser colocadas sobre o monte de terra solta, desde que fiquem do lado oposto ao da deposição de terra.

O ideal é que as iscas sejam distribuídas ao lado das trilhas, cerca de 20 cm do olheiro de entrada de folhas. A utilização de luvas é fundamental, pois além dos grânulos serem tóxicos, os odores e secreções das mãos podem diminuir a atratividade das iscas.

O acompanhamento da atividade dos formigueiros após a aplicação de qualquer uma das estratégias é importante para detectar a necessidade de repasse. O repasse, ou seja nova tentativa de controle, torna-se necessário em casos de utilização de subdosagens dos inseticidas. Deve-se esperar pelo menos 60 dias para novo emprego de iscas. É tempo mínimo necessário para a existência de operárias em número suficiente para garantir o carregamento das iscas.

Observações importantes:

• A recomendação de iscas tóxicas ou de termonebulização, ou mesmo das duas técnicas integradas, está baseada em estudos de eficiência.

• É importante conhecer as vantagen e limitações das principais técnicas de controle antes de fazer o planejamento das ações de controle. Não armazenar iscas tóxicas com outros produtos como óleos minerais, adubos, outros produtos fitossanitários;

• Cuidado com a aquisição de iscas tóxicas! Nem todos os princípios ativos nessa formulação são eficientes. Os princípios ativos adequados para utilização em iscas são a sulfluramida e o fipronil.

• Deve-se utilizar os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) indicados para cada método.

Luiz Carlos Forti, M.A.C. Boaretto, V.M. Ramos
Faculdade Ciências Agronômicas de Botucatu/SP

 

Fonte: http://www.grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=6

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