Desperdícios

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Entre 1996 e 2002, apenas por conta das perdas ocorridas entre o plantio e a pré-colheita, nas culturas de arroz, feijão, milho, soja e trigo, o País deixou de colher cerca de 28 milhões de toneladas de grãos, tendo a maior perda ocorrido no ano 2000, quando se deixou de colher 6,6 milhões de toneladas. Neste ano, o milho foi a cultura mais prejudicada, com perdas da ordem de 4,1 milhões de toneladas.

As perdas não ocorrem apenas na fase que vai da semeadura até o momento imediato que antecede a colheita. Também há perdas durante a colheita – seja por falta de manutenção de máquinas ou de operadores capacitados – e na pós-colheita, por insuficiência da rede de armazenagem ou, principalmente, por má-conservação de estradas e inadequação do transporte utilizado.

Um estudo inédito do IBGE – os Indicadores Agropecuários 1996-2003 – analisou e quantificou as perdas dos principais grãos da agricultura brasileira e reúne uma série de informações estatísticas de agricultura produzidas por diversos organismos, além das do próprio instituto. O trabalho se divide em duas partes: na primeira, analisa a quebra de safras ocorridas da semeadura até antes da colheita, entre 1996 e 2002 ; na segunda, sistematiza a origem e o destino dos principais grãos brasileiros (arroz, feijão, milho, trigo e soja) de 1997 a 2003. Também foi analisada a disponibilidade interna per capita de carboidratos, lipídios e proteínas obtidos do arroz beneficiado, farinha de trigo e feijão.

O estudo mostra que, se as perdas da primeira fase são resultantes de fatores mais incontroláveis, como clima e doenças, as perdas durante a colheita têm decorrido em função de erros sistemáticos de regulagem de máquinas ou de limitações próprias da colheita manual, que se repetem a cada safra. O mesmo ocorrendo na fase de pós-colheita, quando as perdas ocorrem no armazenamento incorreto, ocasionando perdas na quantidade e na qualidade dos produtos estocados. Também a escolha do tipo de transporte tem contribuído para aumentar os desperdícios. No Brasil, cerca de 67% das cargas brasileiras são deslocadas pelo meio rodoviário, o menos vantajoso para longas distâncias. Estudos de viabilidade econômica sustentam que o transporte rodoviário é o mais adequado para distâncias inferiores a 300 km, enquanto que o ferroviário, para distâncias entre 300 km a 500 km, e o fluvial, para acima de 500 km. Acrescente-se a isso o estado das estradas e o costume de os caminhões transportarem mais carga do que as carretas comportam. Segundo a Confederação Nacional de Agricultura, o prejuízo com o derrame de grãos durante o transporte rodoviário chega a R$ 2,7 bilhões a cada safra.

Arroz, o cereal mais consumido no mundo

O arroz, cereal de maior importância alimentar no mundo, teve, em 1998, a safra mais prejudicada do período, com perdas de 12,71% do plantio até a pré-colheita, ou seja, cerca 1,1 milhão de toneladas deixaram de ser colhidas, em razão, principalmente das chuvas no sul do país. No RGS, que detém 50% da produção nacional, as perdas foram de 15,45%, ou 656,5 mil toneladas perdidas.

O estudo mostrou, também, que o arroz apresentou, no período, a característica de ser muito pouco exportado, devido ao grande volume que se destina, internamente, à alimentação humana. Os valores encontrados para as perdas pós-colheita foram também expressivos, quase sempre acima de 1,0 milhão de toneladas ao ano, indicando a necessidade de melhorias na infra-estrutura de armazenamento e no gerenciamento do transporte, uma vez que o montante das perdas é próximo ao volume importado, no ano de 2003.

A importação de arroz, no período, foi proveniente, principalmente, do Mercosul, sobretudo Argentina e Uruguai, cujos solos têm uma fertilidade maior, para esse produto, que o brasileiro, necessitando, portanto, de menos investimento em adubo. Note-se que, em 2001, tradicionais produtores brasileiros de arroz do Rio Grande do Sul emigraram para os países do sul, passando a exportar depois para o Brasil.

As perdas no feijão colhido são geralmente por transporte inadequado

A cultura do feijão tem apresentado grandes perdas, como a registrada na safra de 1998. Neste ano, do plantio até a pré-colheita o índice de perdas foi de 16,83%, o equivalente a 443,4 mil toneladas perdidas. Na safra de 2001, além de ter havido uma redução da produção, que ficou em cerca de 400 mil toneladas, o índice de perdas nessa fase de plantio, até antes da colheita, foi de 12,22%. Na Bahia,  maior produtor nordestino de feijão, as perdas chegaram a 34,46%, ou 129.581 toneladas perdidas.

Já os números relativos à disponibilidade interna de feijão, entre 1997 e 2003, ficaram sempre acima de 2,2 milhões de toneladas e, em 2003, ultrapassaram o patamar de 3,0 milhões de toneladas. Por ser um produto importante na alimentação brasileira, suas exportações são irrisórias, nunca ultrapassando 16,3 mil toneladas, no período. Também os estoques do produto eram sempre baixos, inferiores a 150 mil toneladas, indicando que ele é imediatamente levado para a comercialização. Em decorrência, as perdas durante o armazenamento não são elevadas, ficando sempre abaixo de 102 mil toneladas. Portanto, as perdas pós-colheita, no caso do feijão, são maiores por transporte inadequado.

As perdas de milho colhido superam o total exportado

A disponibilidade interna de milho, no período estudado, foi quase sempre acima de 30 milhões de toneladas anuais, sendo sempre superior à dos demais produtos analisados. No ano de 2003, a disponibilidade interna chegou a 36,6 milhões de toneladas. No entanto, a disponibilidade poderia ter sido maior, não fossem as perdas, uma vez que a produção, um recorde, foi de quase 48 milhões de toneladas. Desse total, foram exportados 3,6 milhões de toneladas e perdidas 4,1 milhões de toneladas, no transporte ou no armazenamento.

Além das perdas pós-colheita, há perdas ainda na fase que vai da semeadura até antes de iniciar a colheita, geralmente por problemas climáticos e de doenças ou pragas. Nesta fase, das sete safras analisadas, a do ano 2000 foi a mais afetada, com um índice de perdas do milho, no Brasil, da ordem de 11,22%. Importantes estados produtores como Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul tiveram perdas de 20,96%, 16,93% e 36,15%, respectivamente.

O segundo maior índice de perdas de milho, da semeadura até a pré-colheita, foi no ano 2002.

Nas safras de 1998 e 2001, as maiores perdas foram verificadas na região Nordeste.

O Brasil passou, em 2001, à condição de importante fornecedor de milho, ano em que registrou exportações de 5,6 milhões de toneladas do cereal, com o reconhecimento internacional da qualidade nutricional do produto brasileiro que, além disso, não era transgênico, uma exigência de importadores europeus. Por essa razão, o milho foi comprado no mercado externo, em 2001, em cotações acima de seus concorrentes. Em conseqüência disso, nos anos seguintes, apesar do grande consumo interno do produto, onde é usado também na alimentação animal, seja in natura ou na composição de rações, houve igualmente significativa exportação do produto (2,7 milhões de ton. e 3,6 milhões de toneladas, respectivamente).

O destino das exportações é diversificado, com a União Européia assumindo, em 2003, posição de destaque, seguida por países do Oriente Médio e pelos chamados Tigres Asiáticos.

Com a produção crescente de soja, o armazenamento está no limite de sua capacidade

Grande parte da soja produzida no país é destinada ao mercado externo. Em 2003, o Brasil produziu 51,5 milhões de toneladas (recorde no período) e exportou quase 20 milhões de toneladas (tabela 7), tendo sofrido um volume de perdas da ordem de 3,5 milhões de toneladas, apenas na fase de pós-colheita. Atualmente, o grande problema é de estocagem, com a armazenagem chegando ao limite de sua capacidade física, uma vez que a produção de grãos no Brasil vem batendo recordes sucessivos.

Excluindo-se o volume exportado e a quantidade perdida do produto, houve uma disponibilidade interna de 26,2 milhões de toneladas, em 2003, que é utilizada, em grande parte pela indústria, para a produção de derivados de soja, como óleo, farelo, etc..

A União Européia foi o maior comprador da soja brasileira no período estudado, embora a China venha aumentando sua participação desde o ano 2000 (gráficos 4 e 5). Apesar de exportar muito, o Brasil ainda importou, em todo o período, cerca de 6 milhões de toneladas de soja, quase a totalidade vinda do Paraguai, através dos brasiguaios, brasileiros que produzem a soja no território paraguaio e depois a vendem ao Brasil.

As perdas de soja na fase de semeadura até antes de se iniciar a colheita são relativamente pequenas, ficando entre 2% e 3% da produção.

A disponibilidade de trigo, no Brasil, depende de importação

Importante produto da cesta básica nacional, o trigo tem a particularidade de as importações terem sido, ao longo do tempo, cerca de três a quatro vezes superiores às produções nacionais. Apenas em 2003, a produção nacional quase se igualou ao volume importado, ambos em torno de 6 milhões de toneladas. O motivo é que, freqüentemente, o trigo importado é de melhor qualidade e produzido a um custo menor, o que motiva as panificadoras brasileiras a preferir o produto importado ou a utilizar misturas das farinhas de trigo nacional e importada.

A Argentina é o grande exportador para o Brasil que, além de ser competitiva nessa lavoura, contou, no período analisado, com as vantagens tarifárias possibilitadas pelo Mercosul. Também Canadá e EUA exportam trigo para o Brasil.

O grande produtor de trigo brasileiro é a região Sul que, devido ao bom rendimento da safra de 2003, teve comprometido seu sistema de armazenagem. No Paraná, algumas cooperativas tiveram que erguer barricadas nas laterais dos silos para colocar trigo até o teto, num procedimento que, além de comprometer a infra-estrutura da construção, pode ter provocado maior incidência de pragas e doenças, por impedir a aeração adequada dos grãos.

O Brasil viu-se forçado a exportar, em 2003, 53 mil toneladas de trigo na época da safra, por falta de capacidade de estocagem, tendo que, na entressafra, importar o produto, para suprir a demanda interna.

Na fase de plantio até a pré-colheita, os problemas que mais afetam o trigo são o excesso de umidade relativa do ar nos meses de setembro e outubro, a ocorrência de geadas na fase de espigamento e de chuvas na colheita.

No período analisado, as safras de 1997, 2000 e 2002 foram as mais prejudicadas, com índice de perdas de 10,86%; 32,02% e 18,38%, respectivamente. Em 2000, no Paraná, principal estado produtor, as perdas foram de 50,69%, o que, em números absolutos correspondeu a 719 mil toneladas perdidas.

No geral, as perdas de milho têm sido as mais significativas, na fase de semeadura até a pre´-colheita, representando 54% do total de 28 milhões de toneladas perdidas no período estudado. Na soja, os índices de perdas são menores, indicando que a produção tem recebido mais investimentos, aliados aos melhoramentos tecnológicos. Há, no entanto, uma grande escassez de dados sobre perdas na agricultura. na fase de pós-colheita. Com este primeiro estudo, o IBGE espera contribuir para o melhor conhecimento da disponibilidade interna de grãos cultivados no país.

Pesquisa confirma alto consumo de carboidratos pelos brasileiros

O trabalho faz ainda um cálculo da disponibilidade interna per capita de carboidratos, lipídios e proteínas, com base em três dos produtos mais consumidos pela população: arroz beneficiado, feijão e farinha de trigo.

Embora os resultados obtidos não revelem o consumo efetivo dos produtos pela população, uma vez que há desperdícios também no comércio varejista, assim como durante a elaboração dos alimentos, tanto nas residências como em restaurantes e lanchonetes, pode-se observar que a disponibilidade interna per capita de farinha de trigo foi bem elevada, confirmando o hábito brasileiro de alto consumo de pães, massas, bolos e biscoitos.

Os valores para farinha de trigo são, inclusive, comparáveis, em magnitude, à disponibilidade interna per capita para o arroz. Ambos os produtos possuem alto teor de carboidratos, sendo considerados alimentos energéticos, embora a farinha de trigo seja superior ao arroz beneficiado no que diz respeito à porcentagem de proteínas.

Sob esse aspecto, a farinha de trigo e o feijão são importantes fontes nutricionais para a população, por disporem de maior teor protéico.

Confrontados com os resultados da POF 2002/2003, que não mede o consumo fora dos domicílios, os valores deste estudo são, como era de se esperar, obrigatoriamente superiores. Assim, se o consumo per capita de arroz polido, indicado pela POF, foi de 25,248 kg por ano, os indicadores agropecuários registraram para 2002 e 2003, respectivamente 42,70kg e 40,37 kg anuais.

A diferença se explica, sobretudo, pelo expressivo consumo de arroz em estabelecimentos prestadores de serviços de alimentação, além do provável desperdício do produto nestes estabelecimentos.

Quanto ao feijão, a diferença foi menor entre a POF (12,769 kg per capita/ano) e a disponibilidade interna de 2002 (16,35kg) e 2003 (17,69 kg).

Fonte: http://www1.ibge.gov.br/english/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=330&id_pagina=1

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