Desperdício na Produção de Bovinos

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Novo manejo reduz mortalidade de bezerros

A alta mortalidade de bezerros é um problema que deve merecer atenção dos pecuaristas. Há rebanhos onde o índice é superior a 15%, quando o aceitável é menos de 5%. Como forma de assegurar a vida saudável dos animais jovens, reduzindo esse percentual para até zero, o médico veterinário, Cláudio Cabral Campello, desenvolveu o manejo por meio dos bezerreiros individuais. Trata-se de baias gradeadas individuais que asseguram aos filhotes bovinos o ambiente adequado para o seu pleno desenvolvimento, livre de doenças comuns nesse fase como diarreias, infecções respiratórias e parasitoses.

Cláudio Campelo é responsável técnico pelo Setor de Bovinocultura e professor da Faculdade de Veterinária da Universidade Estadual do Ceará (Favet-Uece). No Campus do Itaperi, ele desenvolveu a infraestrutura do novo manejo, ocupando uma área de 108 metros quadrados. No solo coberto por areia grossa, foram instalados oito bezerreiros, cada um com dimensão de dois metros de largura por um metro de comprimento e um metro de altura, em estrutura de ferro, tendo parte forrada com telha de fibra, bebedouro e comedouro individuais. A área é isolada por tela para evitar o contato dos filhotes com os animais maiores.

Ele mostra que são variadas as vantagens desse tipo de criação. Na área total, as gaiolas podem mudar até quatro vezes de lugar, sem que um animal tenha contato com o outro. A mudança é necessária para evitar que o bezerro fique em local com sujeira. No experimento feito no Setor de Bovinocultura, o rodízio é realizado três vezes por semana. Na areia usada é passado ciscador para limpeza dos dejetos, ficando o local em exposição ao sol. Segundo o veterinário, na região Nordeste o sol torna-se um grande aliado para diminuir a contaminação, já que muitos microrganismos não se desenvolvem no calor.

“A alta mortalidade de animais jovens constitui um grave problema na criação de bovinos. Na bovinocultura de corte, a perda da cria representa o desperdício de um ciclo produtivo da vaca. Já na pecuária leiteira, as bezerras representam o futuro do rebanho pela reposição das matrizes que serão descartadas ao fim de sua vida reprodutiva, e os machos constituem uma fonte adicional de renda para o produtor. Além disso, quando se trata de vacas mestiças ordenhadas com a cria ao pé, a perda do bezerro pode significar uma redução do período de lactação, comprometendo a capacidade produtiva da matriz”, explica.

Cláudio Cabral afirma que conheceu no Sul e Sudeste bezerreiros individuais, mas utilizados de forma bem diferente. Como essas regiões têm inverno com baixas temperaturas, são casinhas fechadas, para proteger os filhotes do frio. Ao voltar ao Nordeste, desenvolveu as baias gradeadas, mais abertas à temperatura, ventilação e luz natural. A primeira vez que utilizou o manejo foi há cerca de 10 anos, quando era o veterinário responsável pela criação de bovinos na então Fazenda Campestre, em Aracati. Na época, ele conseguiu reduzir a zero a mortalidade de filhotes com a utilização das gaiolas gradeadas. O experimento foi mostrado com destaque em uma das edições do Nordeste Rural, da TV Verdes Mares, por ocasião da cobertura jornalística da Exposição Agropecuária do Ceará (Expoece). Há três meses à frente do Setor de Bovinocultura da Favet-Uece, começou a adotar o manejo observando o desenvolvimento de filhotes entre 60 e 80 dias. Eles se alimentam com ração à base de soja, milho e farelo de trigo e são levados para amamentação nas vacas duas vezes por dia.

Os animais foram transferidos para as baias individuais tão logo nasceram, após tomarem o colostro, a primeira secreção produzida pela glândula mamária da mãe após o parto, de grande importância para fortalecer a imunidade das crias. É meta do veterinário desenvolver, a partir de abril, o sistema do aleitamento artificial, utilizando sucedâneos comerciais para alimento dos neonatos. Muitas dessas alternativas nutricionais já são à base de leite em pó ou sobras de colostro. Também como vantagens do novo manejo está o controle do consumo de alimento do bezerro.

Sobre as condições de bem-estar, Cláudio Cabral garante que estão asseguradas. Entre os 60 e 80 dias, o filhote não necessita de muito espaço para movimentação. Após essa fase, as fêmeas serão levadas para outra área, a ser construída posteriormente. Serão bezerreiros coletivos para animais com até 180 dias, e de 180 dias até 1 ano. Após isto, estão aptos para criação no pasto, onde as novilhas entram em atividade reprodutiva por volta de 1,5 ano de idade.

Quanto a algum impacto no estado emocional do bezerro devido à sua separação da mãe, o veterinário explica que a sua transferência para uma baia ou qualquer outro local é uma prática realizada rotineiramente em todo o mundo. Segundo explica, em todos os sistemas de produção em que o aleitamento artificial é utilizado, realiza-se essa separação imediatamente após o parto, com a vaca e o bezerro mantidos em setores distintos da propriedade. “Quando se trabalha com raças europeias especializadas para leite, como Holandesa, Jersey e Guernsey, essa medida de manejo nem sequer afeta a produção da vaca. A ordenha com bezerro ao pé é uma prática que vem sendo evitada até mesmo em rebanhos de gado mestiço, em virtude dos problemas operacionais e do comprometimento da higiene na obtenção do leite. Não há qualquer indício de que esse procedimento venha a afetar o bem-estar dos bezerros”.

Conforme observa, os animais jovens se tornam muito dóceis quando criados no sistema de bezerreiros individuais. “O contato direto com seres humanos durante a amamentação, alimentação, troca de local, torna-os habituados com o fato de que não representamos uma ameaça. Essa relação de confiança que se estabelece no início do desenvolvimento tende a permanecer por toda a vida. É frequente vermos vacas que foram, quando jovens, mantidas em baias individuais e que depois de adultas deixam-se acariciar como bezerrinhas, levantam a cauda quando tocadas e até lambem as mãos e braços do tratador. O bem-estar animal depende muito mais da atenção que ele recebe, do tratamento cuidadoso do operador, da regularidade com que ele recebe alimento e abrigo, do que da conservação dos hábitos que eles apresentam quando mantidos em estado natural”, garante.

Fonte: Diário do Nordeste

www.institutoagropolos.org.br

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