Desperdício na agricultura: o dinheiro que vai para o ralo

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Agricultores catarinenses vão perder pelo menos R$ 118 milhões neste ano

Jefferson Saavedra

Joinville – Nem a propalada eficiente agricultura de Santa Catarina escapa do desperdício de alimentos, uma mazela nacional. Em 1999, os agricultores catarinenses deixarão de embolsar pelo menos R$ 118 milhões, o que equivale, aproximadamente a três semanas de arrecadação estadual do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços.

É um dinheiro que se escorre pela colheitadeira mal regulada, caminhão sem lona ou pelo armazenamento inadequado. “As perdas são muitas e preocupação em evitá-las não aumentou muito nos últimos anos”, lamenta o chefe do escritório da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) em Campos Novos, José Heinegen. No Brasil, somente o que é desperdiçado em soja seria suficiente para comprar 25 mil casas populares por ano.

Em 1997, a Epagri causou surpresa ao divulgar um relatório sobre as perdas na agricultura. Ao analisar o desperdício em cinco produtos – milho, soja, arroz, feijão e cebola – a instituição chegou à soma de R$ 112,7 milhões.

Baseado nesse estudo, A Notícia chegou à soma de R$ 118 milhões atualizando os preços mínimos e a área estimada de plantio em 1999. Essa cifra – que corresponde ao desperdício com a safra 98/99 – é extremamente modesta. E, principalmente, mede apenas o prejuízo do agricultor. Para quem não sabe, um plantador de feijão catarinense ganhou R$ 35 por uma saca de 60 quilos na semana passada. Como na cadeia agrícola o produtor geralmente é o que tem os menores lucros com o produto – na gôndola do supermercado, um quilo de feijão sai por R$ 1,20 – não é difícil imaginar que os R$ 118 milhões podem ser multiplicados várias vezes se fosse levado em conta os preços cobrados pelo atacadistas.

A agricultura em Santa Catarina ainda apresenta uma força muito grande. Mais de 17% do PIB do Estado é alimentado pelo setor. Se a agroindústria for incluída, o percentual cresce para 40%. Exemplo na agricultura familiar, Santa Catarina é o sexto no ranking dos estados produtores de alimentos. São do Oeste as empresas líderes no agribussiness brasileiro. No entanto, o desperdício permanece inabalado.

Falta de treinamento

Vem de Concórdia um bom exemplo do problema em Santa Catarina. Assustada com as perdas dos agricultores no plantio de milho, que muitas vezes ultrapassavam a barreira dos 20%, a Epagri começou a apresentar cursos de treinamento.

Pouca gente se interessou. “O pessoal acredita que perder 20% da colheita, uma safra a cada cinco ano, é normal”, diz o engenheiro agrônomo Osvaldir Dallbello. O próprio especialista admite que nem os técnicos não estão qualificados para enfrentar a chaga do desperdício. “Tem de haver uma preocupação maior com o pós-colheita.”


Brasil perde R$ 2 bilhões
em soja, arroz e milho

Melhoria genética e modernização não conseguem deter os desperdícios no campo

Joinville ­ O desperdício de grãos está longe ser uma mazela exclusiva de Santa Catarina. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) divulgou um estudo no início do mês passado prevendo um desperdício de R$ 369 milhões com a soja na safra 98/99. Baseado nos levantamentos que apontam uma perda de 1,7 saco de soja por hectare, três a quatro sacos de milho por hectare e 4 sacos por hectare de arroz, a Embrapa estimou um prejuízo de R$ 1 bilhão. Se somados os equívocos na armazenagem e transporte, a cifra dobra de tamanho.

“Apesar das melhorias genéticas incorporadas às plantas de soja, milho e arroz, e da evolução das colheitadeiras, a eliminação total das perdas, ou a sua redução, não foi alcançada”, escreveu um dos pesquisadores da Embrapa/PR e coordenador nacional do controle de redução de perdas na colheita da soja, Nilton Pereira da Costa.

“O desperdício econômico configura uma traço maior da cultura do subdesenvolvimento. Estima-se que no Brasil há setores que chegam a perder 80% do que produzem”, alegou Costa.

O Ministério da Agricultura e do Abastecimento também tem um estudo sobre o desperdício da agricultura no Brasil. Se forem levadas em conta apenas as perdas com soja, feijão, milho, trigo, arroz e hortigranjeiros, o prejuízo é de US$ 2,34 bilhões. É claro que é impossível acabar totalmente com o problema – uma saca de soja desperdiçada por hectare, ou 1,5 saca por hectare no caso do milho e arroz são consideradas perdas toleráveis, mas esses prejuízos muitas praticamente sepultam as margens já escassas de lucro dos produtores rurais.

Os prejuízos muitas vezes nascem ainda antes da colheita. Os pesquisadores José de Barros França Neto e Ademir Assis Henning, da Embrapa descobriram que o Diacom, um teste criado há 18 anos para testar as sementes de soja, ainda é desconhecida para muitos agricultores. (Jefferson Saavedra)

Preço do desperdício

O que pode ser comprado com a soja perdida no Brasil

922.675 televisores

388.494 computadores

12.302 tratores

24.604 casas populares ou 175 mil hectares na região de Londrina

Valor das perdas: R$ 369 milhões
Perda por hectare: 1,7 saco


Treinamento é saída para
reduzir prejuízos no campo

Empresas buscam capacitar mão-de obra que trabalha na colheita

Joinville ­ No relatório “Qualidade Pós-Colheita”, o documento que apontou uma previsão de prejuízo de R$ 112 milhões com as perdas na colheita de 1997, a Epagri cobrava a substituição da “simples constatação” pela busca de soluções. Para o diretor Gilmar Jacobowski, agricultura catarinense está mais sensibilizada com a questão. “Antes era muito pior. Hoje há a preocupação em pelo menos treinar os operadores das colheitadoras. Antigamente, faziam a colheita até em momentos errados”, afirma Jacobowski.

Mas como se perde tanto no campo? Grande parte dos grãos fica no campo no momento da colheita. Máquinas mal-reguladas podem bater em uma vagem de soja, quebrá-la e toneladas de grãos são perdidos com a repetição desse processo.

As fabricantes de máquinas colheitadoras, conscientes de que prejuízos dos agricultores obviamente repercutem nos seus negócios, investiram pesado em tecnologia para reduzir as perdas. A SLC John Deere chegou a fabricar milhares de copos medidores de perdas. O equipamento é utilizado na lavoura. Faltou os operadores acompanharem a evolução. A New Holland trabalha com campanhas de conscientização.

“Muitos agricultores compram um máquina e nunca mais fazem a regulagem. O correto é ajustar a colheitadora pelo menos três vezes ao dia durante a colheita. Ainda existem também os operadores autodidatas”, lamenta José Heinegen, da Epagri de Campos Novos.

Mais de 80% das perdas ocorrem na colheita. Os problemas começam desde o corte em épocas erradas até regulagens mal-feitas nas máquinas. O transporte é trilha seguinte do desperdício. “Quem vê um caminhão derramando soja na BR-101 imagina até que é pouco. Mas imagine em uma viagem de cem quilômetros?”, compara Jacobowski.

Armazenamento

No armazenamento, mais perdas. No Oeste, o grão “ardido” é uma tragédia para os plantadores de milho. Uma catástrofe que poderia ser evitada. “O pior de tudo que animais morrem quando ingerem esse milho. Muitas vezes, o fungo que causa o grão ‘ardido’ poderia ser evitado”, garante Osvaldir Dallabello, da Epagri de Concórdia. O engenheiro agrônomo calcula em 20% o desperdício na safra de milho. Em 1997, a Epagri apurou que apenas 10% dos dois milhões de tonaledas armazenadas no Estado estavam em condições adequadas.

Para Dallabello, a falta de conhecimento e de dinheiro é causa desses prejuízos no campo. “É claro que ainda falta cultura ao produtor. No entanto, muitos tomam consciência do problema mas esbarram na falta de dinheiro para minimizá-lo”, explica Dallbello, que não encara como altos os custos com os programas de prevenção de perdas. “São mais baixos do que os perdidos com o desperdício”, compara. (Jefferson Saavedra)

ONDE OCORREM AS PERDAS

1 – Cerca de 80% das perdas ocorrem na colheita. Máquinas mal reguladas, velocidade alta, época ou período do dia inadequado

2 – Armazenagem deficiente. Além do déficit de armazéns, muitas vezes a estrutura é deficiente

3 – Transporte deficiente.


Cursos profissionalizantes são opção

Cooperalfa treina proprietários de colheitadeiras e evita perdas

Marcos Horostecki

Chapecó – Batedeiras, descascadeiras e colheitadeiras desreguladas. Silos e secadores infestados por pragas. Caminhões que deixam sobre o assalto uma trilha de cereais. Todos esses implementos, necessários para que a produção agrícola chegue até as indústrias, são responsáveis por grande parte dos prejuízos que os agricultores acumulam depois de cada colheita. Isso já foi comprovado através das pesquisas da Comissão Estadual de Colheita e Armazenagem. No entanto, esta realidade poderia ser revertida se a mão-de-obra que tradicionalmente opera toda esta parafernália fosse devidamente qualificada ao longo dos anos, através de cursos profissionalizantes. A garantia é do engenheiro agrônomo da Cooperativa Regional Alfa (Cooperalfa) Lodaci Scartezini que analisou os resultados conseguidos pelos agricultores filiados à entidade depois que ela ofereceu à eles um curso sobre o funcionamento das máquinas colheitadeiras.

Segundo ele, treinados pelo curso, os 120 proprietários de colheitadeira mudaram completamente o modo de agir diante dos problemas apresentados pelas máquinas. Passaram a entender porque o cereal não estava sendo descascado corretamente, ou não estava sendo retirado da plantação por completo. Isso fez com que eles apreendessem a corrigir os defeitos e tivessem menos perdas durante o processo de colheita. “Ficou mais do que provado que a qualificação do agricultor pode melhorar em muito o funcionamento de certos equipamentos e evitar o aumento das perdas”, arrematou.

Mas se os agricultores estão tendo prejuízos por não estarem devidamente qualificados para operarem alguns dos modernos equipamentos da agricultura Sacartezini lembra que a culpa não é deles. É somente daqueles que têm condições de contribuir e não contribuem, promovendo novos cursos ou aulas profissionalizantes, e transformando a realidade do campo. “Até bem pouco tempo atrás os agricultores não precisavam disso. Mas as altas tecnologias também chegaram ao campo. E é por isso que a profissionalização precisa ocorrer”, continuou.

O engenheiro agrônomo não condena a chegada das novas tecnologias ao campo. Ele afirma que elas, aliadas a qualificação, se fazem cada vez mais necessárias entre os agricultores, pois também são capazes de reduzir os danos do pós colheita. Uma ampla e urgente melhora no sistema de transportes dos produtos agrícolas também ajudaria a transformar a escalda das perdas, de acordo com ele.


Produtores não tem consciência

Somandos, ao final de cada ano, os prejuízos do pós-colheita podem ser considerados extremamente significativos. Todavia, individualmente, o retrospecto não se repete, e talvez seja por isso que o problema não assuste tanto os agricultores, principalmente os pequenos e médios produtores, que são a maioria não somente em Santa Catarina, mas praticamente em todo o País – segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 90% dos 203 mil estabelecimentos rurais do Estado pertencem a agricultores que possuem até 50 hectares agricultáveis.

“Esses problemas causados pela falta de qualificação e pelo estado dos implementos são muito pequenos diante daqueles que vem sendo causados pelo tempo. Este ano perdemos tudo com a seca duas vezes e agora perdemos com a geada novamente”, comentou o agricultor Pedro de Bairros, que mora na propriedade rural de sua família, em Arvoredo, próximo à Chapecó.

Para ele, a adoção pelo governo de uma espécie de seguro agrícola, que defendesse a propriedade dos problemas do tempo, seria muito mais importante que a implementação de melhorias para a redução das perdas do pós-colheita.

“Atualmente nós trabalhamos e não vemos retorno algum. Há três anos que somos maltratados pelo tempo. No ano passado, não ganhei nem um real por dia”, afirma o agricultor Euclides Caon, de Nova Itaberaba.

Na opinião dele, também é preciso renovar o campo, que está sendo abandonado pelos jovens. “Só estão sobrando os velhos na roça. Os nosso filhos já foram todos embora”, acrescentou. “Além do seguro também precisamos de mais crédito e de ajuda para quitarmos nossas dívidas. Isso é o mais urgente. A agricultura está mesmo é falida”, diz Antônio Dalchiavon, produtor também em Nova Itaberaba, que se diz extremamente preocupado com o futuro do campo. (MH)

Causa das perdas na agricultura

– Baixa capacidade e condições inadequadas de armazenamento nas propriedades rurais

– Escassez e uso inadequado de equipamentos

– Falta de conhecimento das alternativas tecnológicas por parte dos produtores e técnicos

– Falta de operadores capacitados

– Longo tempo de permanência do produto na lavoura após ponto de maturação

– Longo tempo de permanência do produto nas carrocerias de caminhões

– Rede armazenadora centralizadora, mal localizada e com sistema deficiente de recebimento, tratamento e conservação de grãos

-Utilização de variedades, técnicas e sistemas de cultivares inadequados

– Escoamento de safras através de rodovias precárias

– Falta de planejamento do plantio à colheita

– Falta de gerenciamento na movimentação da safra

– Excessivo manuseio

– Escassez de recursos para investimento, compatíveis com a atividade 

– Desconhecimento de perdas e desperdícios

– Deficiência de programas de capacitação de recursos humanos

*Fonte: Epagri

 Site:

 http://www1.an.com.br/1999/mai/23/0ecc.htm

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