Desfolhamento da seringueira devido ao ataque de ácaros

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Dra. Marineide Rosa Vieira 1

Um pouco sobre os ácaros

Ácaros são pequenos animais que podem ser encontrados em uma grande variedade de locais, com uma alimentação bastante variada. Assim, carrapatos são ácaros que se alimentam do sangue de mamíferos, aves, répteis e anfíbios; a sarna é uma doença provocada por ácaros que se desenvolvem na pele de mamíferos; os apicultores sofrem com o ataque de Varroa jacobsoni importante parasito de larvas de abelhas; aves domésticas são parasitadas pelos ácaros conhecidos como “piolhos” de galinha; pessoas alérgicas sentem o desconforto que a presença de ácaros na poeira domiciliar pode provocar em suas vias respiratórias. Até o pulmão de uma cobra pode ser parasitado por ácaros!

Dentro desse vasto universo, certos grupos de ácaros têm grande importância para a agricultura, alguns por apresentarem espécies fitófagas (que se alimentam de plantas) e outros por serem constituídos por ácaros predadores (que se alimentam dos ácaros fitófagos).

Ácaros fitófagos e predadores podem viver em muitos tipos de plantas e entre elas, a cultura da seringueira no Estado de São Paulo tem se revelado um excelente local para o desenvolvimento de muitas espécies.

Dentre aqueles que se alimentam dessa cultura, Calacarus heveae tem chamado a atenção de técnicos e produtores pelo desfolhamento que pode provocar nas áreas infestadas.

Calacarus heveae e a seringueira

Calacarus heveae é uma espécie até o momento só encontrada no Brasil e a primeira publicação relatando a sua ocorrência foi feita em 1992, a partir de material coletado no município de José Bonifácio-SP.

Embora os ácaros de uma forma geral apresentem quatro pares de pernas, essa espécie pertence a um grupo um pouco diferente, que apresenta apenas dois pares de pernas. De tamanho bastante reduzido (0,10-0,15 mm) esses ácaros, que assemelham-se a pequenas vírgulas com coloração marrom acinzentada, têm sido observados em altas populações na face superior das folhas de seringueira.

Como resultado do seu ataque, as folhas perdem o brilho e apresentam um amarelecimento progressivo de sua superfície, intercalado com áreas verdes normais, lembrando o sintoma de mosaico provocado por vírus em diferentes culturas.

Esses sintomas desenvolvem-se a partir da região inferior da copa, ascendendo progressivamente. Entre o início da infestação e o surgimento dos primeiros sintomas, normalmente decorre um período mínimo de 30 dias e as folhas atingidas acabam caindo, provocando diferentes níveis de desfolha das plantas.

Estudos realizados na Fazenda São José do Seringal Paulista no município de Buritama-SP e na Fazenda Phidias Santana em Reginópolis-SP, no período de setembro/94 a junho/98, demonstram que esses ácaros atingem maiores populações nos anos mais chuvosos e o período de ocorrência vai de dezembro a maio.

O controle da praga

Embora existam pesquisas sobre o controle biológico da espécie com fungos patogênicos que ocorrem naturalmente nas áreas de seringueira, por enquanto, a única alternativa do produtor é o controle químico.

Com o objetivo de gerar informações sobre o controle dessa praga, instalou-se um experimento na Fazenda Phidias Santana, safra 96/97, (Vieira, M. R. & Gomes, E. C. Sintomas, desfolhamento e controle de Calacarus heveae Feres, 1992 (Acari: Eriophyidae) em seringueira (Hevea brasiliensis Müell. Arg.). Cultura Agronômica, v.8, n.1, p.39-52, 1999) cujos resultados são comentados aqui.

1. Produtos

Quatro acaricidas foram testados: bromopropilato (Neoron- 2,0L/2000L), lufenuron (Match- 2,0L/2000L), abamectin (Vertimec- 0,6L/2000L) + óleo vegetal (Natur L’oleo- 5,0L/2000L) e diafentiuron (Polo- 0,8 Kg/2000L). As pulverizações foram feitas com um turbopulverizador da marca JACTO, modelo Valência, modificado para uso em seringais, utilizando-se aproximadamente 0,9 litros de calda por planta.

Desses produtos, o bromopropilato foi altamente eficiente conseguindo evitar que o ataque dos ácaros resultasse em grande desfolhamento. Nesse tratamento, a desfolha máxima foi inferior a 25% e o nível populacional máximo foi de 0,94 ácaros/cm2 em 22/04/97. Até o final do experimento, em 20/06/97, as plantas mostravam-se bem enfolhadas e de coloração verde. Para esse resultado foram necessárias três pulverizações do produto (07/02; 20/03; 24/04), uma vez que o período de controle observado foi de aproximadamente 30 dias.

Também eficiente foi o lufenuron mas propiciando um período de controle inferior a 30 dias, e por isso, se usado sozinho, poderia necessitar de quatro aplicações durante a safra.

No caso do abamectin, esse produto apresenta melhor efeito quando pulverizado em folhas novas, situação que permite que ele, embora não sendo sistêmico, ou seja, não circulando na planta, penetre totalmente no tecido foliar propiciando longos períodos de controle nas folhas que receberam a pulverização. Assim, seu uso deve ser no período de enfolhamento das plantas, com as folhas ainda pequenas, e portanto, é preventivo, antes da ocorrência dos ácaros que se inicia em dezembro. Entretanto, esse uso não implica em efeito prejudicial aos inimigos naturais, uma vez que poucas horas após a sua aplicação o produto já não está na superfície mas sim dentro das folhas. Por ser aplicado preventivamente, deve ser recomendado para áreas com um histórico de problemas com essa praga. No experimento realizado, as plantas receberam duas aplicações uma vez que observou-se dois momentos de grande brotação (24/08 e 18/11/96). Esse produto revelou alta eficiência até o início de abril quando a população começou a crescer. Assim, a utilização do abamectin no controle de C. heveae deve prever uma aplicação complementar de outro acaricida, para impedir esse aumento populacional. As opções podem ser o bromopropilato, o lufenuron e até o enxofre que também apresenta boa eficiência. O uso do enxofre deve ser feito com moderação, devido à possibilidade de um efeito maléfico aos fungos patogênicos que podem auxiliar no controle dos ácaros. Caso o enfolhamento da cultura ocorra todo em um mesmo momento, ou seja, sem grande quantidade de brotações posteriores, uma única aplicação do abamectin poderia ser eficiente.

O diafentiuron não foi eficiente no controle de C. heveae.

Em novos ensaios realizados na safra 97/98, o fenpyroximate (Ortus-2,0L/2000L) também revelou boa eficiência no controle dessa praga, enquanto o chlorfenapyr (Citrex- 0,6L/2000L) não foi eficiente.

2. Potencial de desfolha

As avaliações de amarelecimento e queda de folhas realizadas no experimento citado, revelaram que nas plantas que não receberam nenhum produto, pelo menos 50% da copa estava comprometida pelo ataque de C. heveae, em 09/05/97, com 25% de folhas amareladas e 25% de desfolha. O desfolhamento atingiu 50% em 26/05/97 e 75% em 20/06/97, demonstrando o grande efeito que essa espécie pode ter sobre a queda de folhas que assim, ocorre antes do período normal para a cultura (os meses de julho e agosto).

3. Amostragem e decisão de controle

No experimento realizado constatou-se que a presença dos ácaros ocasionou intensa desfolha, mas não foi possível correlacionar desfolha e produção de látex e assim, até o momento não se conhece o nível de dano econômico da praga.

Entretanto, considerando-se que no tratamento com bromopropilato a desfolha não ultrapassou 25% durante todo o ensaio, que as plantas permaneceram bem enfolhadas e verdes até a última observação em 20/06/97 e que o nível populacional máximo nesse caso foi de 0,94 ácaros/cm2, até que pesquisas mais detalhadas possam ser feitas para definir o nível de dano de C. heveae, esse valor pode ser aceito como o máximo a ser tolerado, com base na intensidade de desfolha. Associando-se essa informação ao fato de que a população de C. heveae cresce rapidamente, sugere-se que a tomada de decisão de controle ocorra em níveis populacionais inferiores a esse valor, pelo menos para o clone RRIM-600, no qual o experimento foi feito.

Quanto à amostragem, embora não haja um plano de amostragem definido, pode-se sugerir a inspeção de 1% das plantas coletando-se em cada uma delas 6 folíolos (uma folha de seringueira é composta de três folíolos). Em cada um deles pode-se examinar duas áreas de 1cm2 na página superior contando-se o número de ácaros presentes. O principal problema no momento é uma lupa adequada para essa contagem. Em laboratório, com equipamentos de mesa não há problema. Entretanto para avaliações no campo, as lupas de 10X comumente usadas na cultura de citros não permitem uma boa visualização dos ácaros devido ao pequeno tamanho e à coloração escura que se confunde com a cor do limbo foliar. Estamos testando uma lupa de 20X que parece muito adequada, mas que é importada e não sabemos ainda se há um similar nacional.

Fonte: http://www.apabor.org.br/sitio/artigos/index.html#

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