Desafios do RR em lavouras com transgênicos

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20/11/2013

A adoção de novas sementes geneticamente modificadas é um importante investimento para o produtor brasileiro aumentar a produtividade das lavouras. Mas, em alguns momentos, o uso dessa tecnologia pode se transformar em uma preocupação para o agricultor, que se vê em dúvida sobre o correto manejo de plantas invasoras em suas áreas de plantio, já que elas têm potencial para se tornarem resistentes em plantações com transgênicos, elevando o custo produtivo.

É o caso de produtores que adotaram recentemente a tecnologia RR nas safrinhas de inverno do milho e utilizam, há mais tempo, a soja RR. No momento da rotação de culturas, caso apareça a soja voluntária na área de cultivo do milho, os agricultores deverão fazer um manejo adequado, em razão do RR – tanto milho quanto soja – ser resistente ao glifosato, que mata apenas as plantas invasoras não resistentes a esse ingrediente ativo. Antes de o milho RR surgir no mercado, a soja que brotava na área de milho safrinha era controlada por atrazina. Agora, com RR, será necessário misturar outro produto que combate folhas largas para matar a soja voluntária, o que pode reduzir o benefício econômico do milho transgênico, em função do aumento dos custos produtivos com insumos. O mesmo vale para produtores que plantam milho sobre milho: se os dois forem RR, parte do verão pode rebrotar no meio do milho safrinha, que não vai morrer com o glifosato.

“Este é o primeiro ano que faço o plantio de milho RR e utilizei a tecnologia na safrinha de inverno. Esse milho RR tem a mesma variedade da convencional que eu utilizo em minhas lavouras. São 2.178 hectares em Assis Chateaubriand, Brasilândia do Sul, Alto Piquiri e Cafezal, no Paraná”, conta o produtor Elcio Paltanin, que planta soja no verão e milho no inverno. Segundo ele, o custo da semente transgênica é bem mais alto, por ser uma nova e diferenciada tecnologia. “A cada tecnologia inserida na semente o custo se eleva, então não é barato. São cerca de R$ 35 a mais por saco, cada um com 60 mil grãos.” Paltanin acredita que o milho RR irá melhorar o controle das ervas daninhas e o rendimento de sua plantação. No entanto, como a safrinha de inverno ainda está bem verde no campo, o produtor diz que não dá pra saber qual será a produtividade. “Acredito que essa semente terá a mesma qualidade que a soja RR, que uso há cerca de três anos e é uma tecnologia que vem para melhorar a nossa produção. Foi por isso que resolvi usar o milho RR desta vez, na expectativa de ter os mesmos benefícios.”

O problema, observa ele, está justamente no manejo das duas culturas quando plantadas sequencialmente, pois, se houver plantas invasoras, tanto o milho quanto a soja RR são resistentes ao glifosato. Na opinião do produtor, essa situação poderá gerar transtorno. “Entrarei com um produto específico para matar invasoras na rotação dos transgênicos. Isso implicará em um custo mais alto para o manejo, mas acredito que fazer a rotação do milho RR com soja RR em áreas muito atacadas por ervas daninhas ainda compense. Espero que, em breve, os custos do manejo correto e o das sementes transgênicas caiam para eu poder usar mais o milho RR na lavoura.”

Alberto Ribeiro Marques, que possui 58 alqueires para cultivo de milho, soja e trigo em Ubiratã (PR), plantou milho RR pela primeira vez no ano passado, em uma pequena área de sua lavoura. “Até então, nunca havia plantado essa semente, pois utilizo o milho convencional”, lembra ele, que pretende usar novamente o milho RR quando for fazer a reforma em área de pasto degradada. No entanto, na lavoura, Marques afirma que não sabe se utilizará a nova semente, pois, em relação ao milho convencional, o custo aumenta, em média, R$ 50 por hectare. “Na cultura de soja, eu teria que controlar não só plantas invasoras, mas teria que fazer uma aplicação específica para controlar as plantas de milho RR que nascem”, observa. Em geral, Marques planta soja e milho no verão e faz rotação depois com trigo ou aveia. “E também planto milho na safra de inverno.”

O agricultor Lucas Soares Carvalho, que plantou 30 hectares de milho RR pela primeira vez na atual safra de inverno (safrinha), no município de Mamborê (PR), considera esse transgênico uma boa opção para áreas com alta infestação de plantas daninhas. “E, em certos casos, no plantio de milho sobre milho, pois podemos eliminar as plantas tigueras da cultura anterior, caso não seja RR.” Em relação à produtividade, Carvalho não sabe informar, pois ainda não efetuou a colheita. “Até o momento, apresenta bom aspecto visual”, garante o produtor que, após a colheita do milho RR irá semear aveia preta para cobertura e, na sequência, plantará soja. Para ele, em geral, o custo das sementes de milho já é alto, ainda mais quando se agrega um item como a resistência ao glifosato. Apesar disso, Carvalho antecipa que pretende plantar mais milho RR em sua propriedade.

Segundo Roberto Leão, engenheiro agrônomo que atua em Faxinal (PR), o custo maior para aquisição do milho RR pode ser compensado porque esse transgênico permite reduzir os gastos com a limpeza da lavoura. “Hoje estamos orientando o produtor a plantar o milho RR nas áreas em que não será plantado o milho safrinha. Se esta área for receber o safrinha, ou seja, milho sobre milho, recomendamos que plante o milho VT PRO e controle as ervas daninhas com o herbicida seletivo sistêmico Soberan, cujo princípio ativo é a tembotriona e o grupo químico Benzoilciclohexanodiona, associado a uma atrazina. Quando ele for implantar o safrinha nessa área, deverá então plantar o VT PRO RR, assim fará a limpeza da lavoura com o glifosato associado a uma atrazina, eliminando o milho tiguera que nascerá na área de safrinha. A atrazina dará um certo residual em outras ervas daninhas.” Tanto a semente VT PRO quanto a VT PRO RR são tecnologias da Monsanto.

Outro caso, cita o profissional, é plantar safrinha com o milho RR sobre uma área de soja RR. “Fazemos a dessecação com glifosato normal, antes de plantar a cultura. Este glifosato não irá matar a soja que nasceu, mas quando o milho estiver com 20 dias, aplicaremos o glifosato sobre o milho associado a uma atrazina, eliminando assim as ervas daninhas e a soja que nasceu no meio da lavoura de milho RR. Estamos também orientando os produtores a não só usarem a tecnologia RR, pois já estamos hoje com três ervas resistentes a glifosato, e sim alternar o glifosato com outros herbicidas”, ensina Leão. Como a safra 2011-12 sofreu com uma longa estiagem, ainda não foi possível ter noção do potencial do milho RR em sua região.

Recomendações da Monsanto

De acordo com Thiago Bortoli, gerente de Biotecnologia de Milho da Monsanto, as análises da empresa apontam que aproximadamente 5% das sementes de milho híbrido comercializadas e plantadas na última safra no Brasil já foram com a tecnologia RR2. Os primeiros sacos com essa tecnologia vendidos pela multinacional aos agricultores nacionais foram disponibilizados durante a safrinha 2011, na região do Cerrado. “Por uma questão estratégica, a Monsanto não divulga dados de comercialização de produtos. Porém, podemos afirmar que o número de sementes RR2 vendido cresce safra após safra. Esse número tende a aumentar à medida que o agricultor utiliza a tecnologia e percebe os benefícios que ela oferece. O objetivo da Monsanto é oferecer ao produtor tecnologias que visam à maior produtividade, conservem o meio ambiente e que os ajudem no seu dia a dia.” Bortoli garante que a empresa está se preparando para atender essa crescente demanda. “Os principais híbridos das marcas Agroeste,
Dekalb e Sementes Agroceres ou já são oferecidos com esta tecnologia ou terão sua versão RR2 disponibilizada nas próximas safras.”

O gerente diz que, entre os benefícios que o uso desse transgênico traz para a lavoura está a tolerância ao glifosato, herbicida com grande espectro de controle de plantas daninhas e ampla janela de aplicação. “Essa característica confere maior flexibilidade em relação aos manejos convencionais. Além disso, oferece maior segurança em caso de imprevistos e situações climáticas desfavoráveis. Por se tratar de um organismo geneticamente modificado com tolerância ao glifosato, permite uma redução no intervalo entre a aplicação do herbicida e a adubação nitrogenada e menor efeito fitotóxico comparado aos herbicidas utilizados nos sistemas convencionais.”

Conforme Bortoli, esses benefícios somados elevam o potencial produtivo dos híbridos plantados com a tecnologia RR2 e puderam ser comprovados pelos agricultores que utilizaram a tecnologia na última safrinha e safra de verão. “Na safrinha 2011, 149 agricultores dos Cerrados foram acompanhados pela equipe técnica da Agroeste, Dekalb e Sementes Agroceres e as áreas com o manejo RR2 apresentaram ganhos de produtividade de 2,7% quando comparado ao manejo convencional. Já no verão 2011/12, 158 agricultores acompanhados obtiveram ganhos de 4,7% de produtividade utilizando o manejo RR2 versus os manejos convencionais.”

Em relação ao controle do milho voluntário RR na lavoura, o gerente diz que a Monsanto, paralelamente ao lançamento do milho RR no Brasil, lançou o Sistema Roundup Ready Plus, que contempla recomendações para sustentar os benefícios provenientes dessa tecnologia em diferentes culturas. “O principal objetivo desse sistema é trazer sempre a melhor e mais correta recomendação técnica para manejo de plantas invasoras, com o objetivo de controlar ou prevenir o surgimento de plantas daninhas resistentes a herbicidas. Uma planta de milho RR que emerge em meio a uma lavoura de soja é considerada uma planta invasora. E, para termos um controle efetivo do milho RR na cultura subsequente, recomendamos a utilização de herbicidas pré-emergentes e/ou pós-emergentes de ação seletiva em momentos distintos da cultura. Dessa forma, o agricultor estará rotacionando modos de ação de herbicidas, dificultando o desenvolvimento de plantas daninhas resistentes ao glifosato e controlando o milho voluntário RR. Sendo assim, esse manejo traz benefícios a todo o sistema produtivo do agricultor e não somente à cultura do milho.”

Quanto ao custo do uso adequado da nova semente na lavoura, o gerente ressalta que, para avaliá-lo, deve-se levar em consideração o potencial ganho de produtividade oferecido pelo correto manejo e os benefícios oferecidos pela tecnologia RR, comprovados pelos agricultores que a utilizaram nas últimas safras. “Também se leva em consideração a redução de custos proporcionada pelo manejo RR versus os sistemas convencionais. Dessa forma, os ganhos obtidos com o milho RR compensam a aplicação do herbicida em pós-emergência visando ao controle do milho voluntário RR. Além disso, a tecnologia RR permite ao agricultor conduzir a lavoura no limpo, reduzindo as perdas por mato-competição e proporcionando uma maior rentabilidade.”

Fonte: Revista KLFF