De quantos produtores de leite o Brasil necessitaria, com mudança de paradigmas?

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Por Paulo R. F. Mühlbach

As discussões atuais sobre a pecuária leiteira nacional sempre chegam à conclusão de que há grande necessidade de assistência técnica ao produtor de leite. É algo incontestável, a demanda é clamorosa, há unanimidade total quanto a isto. Muitos dos artigos e comentários aqui no MilkPoint ressaltam esse fato.

Assim, ando conjeturando como isso se viabilizaria no contexto nacional, olhando, grosso modo, pelo lado “macro”. O mais provável é que isso se realizaria através de medidas governamentais e menos pela iniciativa privada. Seria muito improvável que as coisas se ajeitem por si só, expectativa não incomum na terra tupiniquim.

Adentro-me por um terreno pantanoso, o tema, talvez, pudesse ser mais bem explorado por algum especialista, quiçá por alguém de formação sócio-econômica, municiado por alguma entidade do próprio setor produtivo. Esclareço que meus despretensiosos questionamentos e digressões sobre o assunto são de intenção motivacional, e se alguém souber de alguma abordagem atualizada sobre o tema, por favor, que me repasse a fonte.

Procurando exemplos e focando curiosidades a respeito da Índia, na atualidade a maior produtora mundial de leite (113 bilhões de litros), constata-se um rebanho leiteiro de 57 milhões de vacas zebu e de 39 milhões de búfalas, com mais de 10 milhões de fornecedores de leite, associados a 96.000 mini cooperativas de âmbito local.

A Índia vem experimentando uma crescente demanda por laticínios, não é autossuficiente, embora o leite seja sua “commodity” principal, de grande importância para o típico microprodutor local, e empresas, como Pepsi e Coca-Cola (é isso mesmo!), estejam investindo fortemente no setor. De acordo com um artigo da FAO, as regiões indianas de melhor desenvolvimento leiteiro estariam apresentando menor incidência de suicídios entre a população rural.

Por óbvio, esse não é um modelo de produção que nos sirva, se pensarmos em eficiência e no custo/benefício de uma assistência técnica, logística, qualidade do leite, demanda do mercado consumidor, segurança alimentar, etc.

No nosso entorno, verificamos que na Argentina a assistência técnica contribuiu para uma grande evolução, no período de 1988 a 2011: a produção anual de leite duplicou, de seis bilhões de litros para 12 bilhões, houve um crescimento da média de 78 vacas em lactação, por propriedade, para 172 vacas, e uma considerável redução de 30.500 para, apenas, 12.000 unidades de produção (Taverna, 2011).
Pelos meus cálculos, isso resulta numa média diária de uns 2.700 litros de leite por produtor, com um preço de alta competitividade internacional, como bem demonstram as exportações de lácteos daquele país. (Agora, ao revisar este texto leio o artigo aqui no MilkPoint “Boas perspectivas para o mercado leiteiro do Mercosul”, que corrobora com isso).

No contexto argentino fica até fácil vislumbrar uma resposta significativa de um serviço de assistência técnica. Ao longo de 23 anos houve uma “seleção natural”, em que os produtores menos competitivos abandonaram a atividade leiteira, optando pela pecuária de corte, ou pela lavoura, alguns se associaram e muitos arrendaram suas terras para empreendimentos maiores.

Na recente palestra de Vilela & Portugal, no XI Congresso Internacional do Leite, são apresentados dados (IBGE, 2011) de uma população total de 1,3 milhão de produtores de leite no Brasil, dos quais pouco mais de um milhão (80%) produziriam até 50 litros/dia, o que, representa, apenas, 26% da produção total. Repetindo: 80% produzem, apenas, 26% do leite, com uma média de até 50 litros diários. Duas vacas leiteiras da raça Holandês, de genética mediana, produzem 50 litros/dia.

Esses dados de Vilela & Portugal, talvez, não estejam atualizados, já que no blog “Observatório”, aqui do MilkPoint, foi postado um artigo muito comentado, há um ano passado (“Quem desiste de produzir leite?”), informando que já em 2006, também segundo o IBGE (2006), o número total de produtores seria de 1,349 milhão. Considerando que esse mesmo artigo também demonstra que, entre 1996 e 2006, 500.000 produtores saíram da atividade, é de se esperar que, de 2006 para cá, o número total tenha decrescido ainda mais, talvez para menos de um milhão.

Seja como for, Vilela & Portugal também informam que 78% dos produtores rurais do Brasil nunca tiveram uma assistência técnica rural, 13% receberiam uma assistência ocasional e, apenas, 9% teriam uma assistência regular. Extrapolando, hipoteticamente, esse percentual de 9% para 1,3 milhão de produtores de leite, isso poderia significar umas 120.000 propriedades recebendo assistência, um número nada desprezível.

Então, se tivéssemos no Brasil 120.000 produtores de leite profissionalizados, recebendo assistência técnica, que produzissem individualmente, pelo menos, um terço da média dos “hermanos” argentinos, ou seja, 900 litros/dia, a produção anual alcançaria 39,4 bilhões de litros, mais ou menos, o consumo nacional projetado para o ano 2020.

Uma captação anual de 40 bilhões de litros da matéria-prima leite requer a média de uns 110 milhões de litros/dia. No momento, resta especular quando e com que nível de produtividade isso poderia acontecer, na atual ou na(s) próxima(s) década(s). Seriam 120.000 produtores fornecendo a média diária geral de 900 litros, ou seriam uns 360.000 produzindo a média de 300 litros/dia, ou 720.000 com média diária de 150 litros, ou…?

A resposta dependeria de outra pergunta preliminar: os órgãos públicos de fomento à produção leiteira aceitariam uma mudança de paradigma, procurando racionalizar, direcionar recursos sempre escassos de modo a priorizar aqueles produtores de real vocação e com infraestrutura que possibilitasse uma produção média de, no mínimo, 900 litros/dia? As indústrias de laticínios até buscam fazê-lo, ao instalar-se e fomentar a produção em regiões onde há evidentes possibilidades de retorno econômico. Nem haveria de ser diferente.

Todavia, há o paternalismo governamental e os interesses políticos, que dificilmente concordariam, abertamente, com tal proposição, principalmente na conjuntura atual, privilegiando, antes, uma pulverização dos recursos. E, sendo assim, qual seria o efetivo retorno para a comunidade pagadora dos impostos?

Outro ponto é o relativo à geografia mais adequada à exploração leiteira: nos EUA, por exemplo, não há fomento à atividade leiteira no Alaska, onde o confinamento total é considerado antieconômico, pela insuficiente produção forrageira local, sendo mais racional importar os laticínios de outras regiões.

Daí, outro questionamento: aqui no Brasil, seria econômico e ecologicamente correto fomentar a atividade leiteira no polígono das secas, mesmo com a megalômana eventual transposição do rio São Francisco, ou na floresta amazônica? Não seria mais racional consolidar a exploração leiteira em bacias já constituídas, com aptidão natural para uma produção de custo mais compatível, viabilizando a exportação para as regiões deficitárias?

Ou será que as iniciativas públicas de assistência técnica gratuita devam ser direcionadas a qualquer região do País, por mais inóspita, contemplando a todo o cidadão, mesmo que seja leigo ou neófito na atividade, bastando, apenas, manifestar tal interesse? E, se assim decidido for, qualquer ação não poderá se eximir de estimular a produção de matéria-prima de alta qualidade, em coerência com a Normativa 62, o que não está sendo fácil de ser realizado.

Ultimamente, chamam atenção as frequentes notícias sobre o “Projeto Balde Cheio”. É um programa da Embrapa Pecuária Sudeste, Sebrae e outros parceiros, altamente seletivo na sua assistência, que vem demonstrando como aquele pequeno produtor rural, que está na iminência de abandonar o campo, pode crescer, praticamente do zero, para uma produção que o “fixa à atividade, aumenta sua autoestima, propiciando-lhe uma vida mais digna”. O programa já atua em 25 estados, nos mais dispersos rincões do País, selecionando uma propriedade por município, que é assistida regularmente por um período de quatro anos.

A proposta, pelo aspecto humanitário, é das mais meritórias e acho até que a metodologia do projeto poderia ser exportada para outros países de pecuária leiteira ainda menos desenvolvida, muito embora não seja ela de baixo custo, pois envolve várias entidades, um corpo técnico multidisciplinar, viagens, visitas, treinamentos, aulas teóricas, etc.

A generosa assistência do Projeto Balde Cheio, que deve ser aceita incondicionalmente pelo participante e que contempla questões básicas de gerenciamento da atividade é a maior garantia do sucesso nessas propriedades, usadas como unidades demonstrativas.

Apesar dos incontestáveis casos de sucesso divulgados, na minha opinião, pairam certas dúvidas sobre a competitividade e sustentabilidade da exploração em áreas demasiadamente pequenas – o projeto prioriza áreas a partir de 0,5 ha e de preferência inferiores a 10 ha – já que, na atividade leiteira, áreas muito reduzidas são mais vulneráveis às diferentes adversidades climáticas e volatilidades de mercado, demandando permanente e competente capacidade gerencial. Já áreas maiores, de, pelo menos, 15 a 20 ha, destinadas exclusivamente à produção leiteira, bastante frequentes como propriedades familiares nas favoráveis condições de clima e solo da Região Sul, são capazes de produzir uma média 1.000 litros/dia.

Por outro lado, como poderia ser o retorno, se os princípios de metodologia dessa assistência técnica demonstrativa e todo o quadro técnico envolvido contemplassem empreendimentos com maior potencial de resposta, ou seja, se fosse implementado um projeto tipo “Tanque Cheio”?

A problemática e os riscos não seriam menores, tanto para assistido, quanto assistente, mas não impeditivos de mesma probabilidade de sucesso. Talvez os produtores de leite de maior potencial não sejam contemplados com algum programa similar por serem considerados menos dependentes da assistência técnica gratuita e possivelmente aptos a remunerarem profissionais autônomos do mercado. Entretanto, isso ainda não é algo comum no setor leiteiro nacional, principalmente considerando-se a disponibilidade de equipes multidisciplinares.

Os exemplos de sucesso de assistência técnica demonstram a necessidade de direcionar esforços e recursos atendendo a critérios de seletividade, já que a moderna exploração leiteira é uma atividade complexa, com seus inerentes riscos.

Em que pese a opção atual da assistência técnica pública, a tendência mundial é pragmaticamente diferente, de gradativa diminuição do número de produtores, com crescimento da produção em escala, já que “commodities” sempre terão que conviver com margens escassas. Há espaço para produtos com valor agregado, porém em escala mais restrita, atendendo nichos de mercado.

Pela incontestável importância do leite, oxalá, em breve, aconteça uma mudança de paradigmas por parte das entidades públicas e surjam as necessárias ações que permitam vislumbrar a formação de uma categoria consolidada de produtores de leite, com competitividade, para concorrer, também, num mercado internacional de demanda crescente.

Afinal, já foram colhidos frutos de décadas de experiências acumuladas em pesquisa e extensão rural, e não há mais muito tempo para decidir como resolver os problemas básicos da assistência técnica para uma exploração leiteira que, no Brasil, ainda se apresenta com privilegiado potencial.

Deixo esses questionamentos para a reflexão e o comentário dos leitores. Mudanças sempre estão em andamento, pois tudo é dinâmico, porém, as mudanças corretas é que farão a diferença.

Fontes consultadas:

www.slideshare.net/chanuk-liyanage/indian-dairy-industry

www.fao.org/docrep/011/i0588e/I0588E05.htm

repileite.ning.com/profiles/blogs/apresentacoes-de-palestras-do-xi-congresso-internacional-do-leite

www.milkpoint.com.br/cadeia-do-leite/giro-lacteo/boas-perspectivas-para-o-mercado-leiteiro-do-mercosul-81646n.aspx

www.cppse.embrapa.br/

www.agricultura.gov.br/arq_editor/file/camaras_setoriais/Leite_e_derivados/Workshop/App_EMBRAPA_projeto_Balde_Cheio.pdf

Fonte: Milkpoint

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