Controlando a CVC

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A Clorose Variegada dos Citros (CVC), também chamada de Amarelinho dos Citros, é uma das principais doenças da citricultura no Brasil. Foi constatada pela primeira vez em 1987, em pomares localizados no Município de Colina (SP), posteriomente foi observada em Minas Gerais (Triângulo Mineiro) e no norte e noroeste do Estado de São Paulo. A CVC disseminou-se rapidamente pelas regiões citrícolas e, atualmente, encontra-se em quase todos os Estados brasileiros produtores de citros.

A CVC ocorre em todas as variedades comerciais de laranjeiras doces: ‘Pera’, ‘Natal’, ‘Hamlin’, ‘Valência’, ‘Folha Murcha’, ‘Baianinha’, ‘Barão’, ‘Westin’, ‘Rubi’, etc., enxertadas sobre os principais porta-enxertos utilizados no país: limoeiro ‘Cravo’, tangerineiras ‘Cleópatra’ e ‘Sunki’, laranjeira ‘Caipira’, Poncirus trifoliata, etc.

O agente causal da doença é uma bactéria gram-negativa conhecida como Xylella fastidiosa, que se limita ao xilema de plantas. Atualmente, X. fastidiosa é classificada na subdivisão gamma, Ordem Lysobacteriales, família Lysobacteriaceae, grupo Xanthomonas, gênero Xylella, com uma única espécie.

A CVC é mais severa em plantas jovens, de até 7 anos, e os sintomas são mais evidentes durante o período seco do ano. Agregados de bactérias são comumente formados nos vasos do xilema, podendo obstruir o fluxo normal de água e sais minerais pela planta e afetar a fotossíntese nas folhas doentes. Os sintomas foliares aparecem primeiro na parte superior e mediana da copa e depois se espalham para o restante da planta. Inicialmente, as folhas apresentam uma clorose variegada na face ventral, semelhante à deficiência de zinco, e pequenas gomas de cor palha na face dorsal, semelhantes às manchas que ocorrem por toxicidade de boro. Essas pontuações de cor marrom-claro evoluem para lesões marrom-escuras, que podem coalescer e se tornarem necróticas. Após o avanço da doença por toda a planta, os sintomas mais característicos ocorrem nos frutos de ramos afetados, os quais tem seu desenvolvimento comprometido, permanecendo com tamanho reduzido, endurecidos e com amarelecimento precoce. Os frutos afetados pela CVC, apresentam-se imprestáveis para o comércio e produção de suco cítrico. Plantas atacadas pela CVC apresentam deficiência de zinco e boro e carência de potássio, podendo ter seu crescimento paralisado.

Em termos de danos causados pela doença, as variedades ‘Pera’, ‘Natal’ e ‘Valência’ apresentam suscetibilidades semelhantes, não havendo diferenças quanto ao peso e número de frutos sadios e descartes. Plantas com sintomas generalizados de CVC podem ter reduções em até 75% no peso dos frutos e 71% no número de frutos normais. Quanto às características quantitativas e qualitativas, os frutos pequenos provenientes de plantas doentes apresentam maiores valores de sólidos solúveis (ºBrix), acidez, rendimento industrial (kg sólidos solúveis) e cor de casca, e menores valores de “Ratio”, sólidos totais, peso dos frutos e diâmetro dos frutos.

Além dos citros, a bactéria X. fastidiosa coloniza o xilema de várias espécies de plantas, causando doenças importantes em várias outras frutíferas e ornamentais, tais como, videira, alfafa, pessegueiro, ameixeira, amendoeira, amoreira, cafeeiro, carvalho e oleander.

A bactéria causadora da CVC pode ser transmitida através de borbulhas contaminadas ou por insetos vetores das famílias Cicadellidae, subfamília Cicadellinae, e Cercopidae, conhecidos como cigarrinhas, que se alimentam nos vasos do xilema das plantas. Apesar de haver relatos de transmissão por Cercopidae em outras culturas, em citros, a transmissão foi comprovada apenas por Cicadellidae pertencentes à subfamília Cicadellinae. A suspeita da ocorrência de vetores foi intensificada após a comprovação do agente causal da doença, a partir da qual iniciaram-se os estudos sobre transmissão de X. fastidiosa por cigarrinhas. Em 1996, comprovou-se que Dilobopterus costalimai Young, Acrogonia sp. e Oncometopia facialis (Signoret) são vetores da bactéria em citros. Em 1998, comprovou-se que Bucephalogonia xanthophis (Berg) e Plesiommata corniculata Young também são vetores de X. fastidiosa em citros. Em 1999/2000, constatou-se como vetores as espécies Acrogonia virescens (Metcalf), Ferrariana trivittata (Signoret), Homalodisca ignorata Melichar, Macugonalia leucomelas (Walker), Parathona gratiosa (Blanchard) e Sonesimia grossa (Signoret).

Apesar de existir um grande número de espécies vetoras, as cigarrinhas comprovadamente vetoras de X. fastidiosa para citros são pouco eficientes, com taxas de transmissão de 1,3; 2,3; 2,9; 5,5 e 11,7%, respectivamente para O. facialis, Acrogonia sp., P. corniculata, D. costalimai e B. xanthophis. Ao contrário, a espécie Carneocephala atropunctata (Signoret), vetor de X. fastidiosa para videira, agente causal do mal de Pierce, é altamente eficiente, com taxa de transmissão superior a 90%.

As cigarrinhas mais abundantes em pomar em produção são D. costalimai, Acrogonia sp. e O. facialis, apresentando pico populacional na primavera e no verão, período chuvoso, quente e com emissão de brotação, condições adequadas ao crescimento populacional de cigarrinhas. Em pomares em formação e viveiros de mudas cítricas predomina a espécie B. xanthophis, que tem sido encontrada tanto nas plantas cítricas como em algumas invasoras dos pomares. A maioria das espécies de cigarrinhas e as mais abundantes ocorrem em gramíneas, tais como P. corniculata, M. leucomelas, F. trivittata e S. grossa. Assim como a CVC, as cigarrinhas predominam nas zonas Norte e Noroeste do Estado de São Paulo, e as populações são menores na zona Sul.

Atualmente, tem-se adotado para manejo da doença as seguintes estratégias:

Plantio de mudas sadias, proveniente preferivelmente de viveiros protegidos: A forma de obter mudas comprovadamente livres de CVC é a produção em viveiros protegidos com total controle genético e fitossanitário. O viveiro protegido impede a entrada das cigarrinhas vetoras de X. fastidiosa. Outro fator importante na produção de mudas sadias é a produção de portas-enxerto e borbulhas também em ambiente protegidos, sendo que as borbulheiras devem ser procedentes de plantas matrizes isentas de CVC e outras doenças.

Poda e eliminação das plantas doentes: Outra importante estratégia de manejo da CVC é a poda de ramos contaminados em plantas com mais de dois anos de idade e a eliminação de plantas severamente atacadas pela doença. Laranjeiras com idade inferior a dois anos devem ser eliminadas, pois devido ao seu pequeno porte e à rápida disseminação de X. fastidiosa, a poda não consegue eliminar a bactéria. Essa medida é importante para evitar a contaminação total da planta e a eliminação de fonte de inóculo, onde as cigarrinhas possam se infectar.

Controle químico dos vetores: O controle dos vetores deve ocorrer principalmente na primavera e no verão, estações do ano em que a população das cigarrinhas atinge o pico populacional. Contudo, a tomada de decisão de controle deve-se basear no levantamento populacional de cigarrinhas, que pode ser realizado através de avaliações visuais, rede entomológica ou armadilha adesiva amarela. Em pomares em formação, até o segundo ano do plantio, o uso de inseticidas deve ser mais rigoroso, podendo ser utilizados inseticidas sistêmicos via solo ou tronco da plantas ou inseticidas de contato em pulverização. Caso os novos plantios estejam próximos a outros talhões com CVC, deve-se realizar o controle químico dos vetores tanto das plantas novas assim como dos talhões adjacentes a estes.

Pedro Takao Yamamoto, Renato Beozzo Bassanezi e Marcel Bellato Spósito
Fundecitrus

* Este artigo foi publicado na edição número 07 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de abril/maio de 2001.

Fonte: http://www.grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=210

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