Como a soja pode produzir mais

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Em experimentos, e em alguns cultivos de soja, tem sido verificado que o potencial genético de produtividade das variedades de soja recomendadas para o Brasil é superior a 5000 kg/ha (83 sacos/ha). Entretanto, em lavouras comerciais raramente a soja produz acima de 4000 kg/ha (66 sacos/ha). Por quê?

A expressão do potencial produtivo da soja depende do meio ambiente (incidência de luz solar, temperatura, etc.), de técnicas adequadas de cultivo (preparo do solo, controle de pragas e doenças, sistema de plantio, cultivares, etc.), dos fatores físicos do solo (matéria orgânica, umidade, temperatura, textura, etc.), dos fatores químicos do solo (excesso de acidez, Al e Mn ou deficiência de P, K, Ca, Mg, S, micronutrientes, etc.) e, principalmente, do suprimento do nitrogênio (N) para a planta, que é o nutriente mais exigido pela cultura. Para cada 1000 kg de soja produzidos são necessários, aproximadamente, 80 kg de N. Ou seja, para uma produtividade de 5000 kg, seriam necessários 400 kg de N. Considerando que os outros fatores de produção não sejam limitantes, seria possível fornecer todo o N que a soja necessita para obter produtividade acima de 5000 kg/ha?

 O N que a soja necessita pode vir do solo, do fertilizante, das descargas elétricas ou do processo da fixação biológica do N2 atmosférico. As quantidades de N mineral provenientes do solo e das descargas elétrica são baixas. O N dos fertilizantes nitrogenados é indesejável pois ele possui custo elevado, é de baixa utilização pela planta, sua adição ao solo aumenta a decomposição do material orgânico e, devido a sua lixiviação fácil, é altamente poluente. Além disso, o N dos fertilizantes inibe a expressão do potencial produtivo das variedades de soja atualmente recomendadas no Brasil,  pois elas foram selecionadas para produzir altos rendimentos em solos com baixo teor de N, e sem a adição desse nutriente. Assim, a adição de N na forma de fertilizante deve ser evitada, pois ele é poluente, caro, não é eficiente para a cultura da soja e, principalmente, reduz a nodulação e a eficiência do processo de fixação simbiótica do N2. Em ensaios conduzidos em rede nacional nos últimos seis anos, por exemplo, não foi constatado nenhum benefício pela aplicação de doses baixas (20 a 40 kg de N/ha) ou elevadas (200 a 400 kg de N/ha) de N. Mesmo quando o N mineral foi aplicado de forma parcelada, em até dez vezes, não se conseguiu produtividade de soja superior a 3600 kg/ha. Teria o processo de fixação simbiótica do N2 condições de fornecer 400 kg de N para produzir 5000 kg/ha?

 A atmosfera do solo possui 80% de N na forma gasosa (N2). Isoladamente, a soja, ou qualquer outra cultura, não consegue quebrar a tripla ligação entre os átomos de N do N2 atmosférico, nem absorvê-lo nessa forma. Isso só é possível através da fixação simbiótica. O processo de fixação simbiótica do N2 consiste de uma associação entre as bactérias do gênero Bradyrhizobium e a soja. A bactéria penetra no sistema radicular da soja, através dos pelos radiculares, e forma os nódulos. Dentro dos nódulos, a ligação tripla dos átomos do N2 é quebrada por um complexo enzimático e o N2 é transformado em amônia, forma de N que a soja pode absorver e utilizar para sua nutrição. Assim como a nutrição da soja, a eficiência do processo de fixação biológica do N2 depende de fatores inerentes à planta, à bactéria e a ambos. Os fatores inerentes à planta já foram citados. Com relação à bactéria, estudos demonstram que o processo de fixação biológica do N pode fornecer 450 kg de N. O que estaria então faltando para atingirmos maiores produtividade? Seria uma deficiência do processo de fixação biológica do N2 o fator responsável pelas baixas produtividades?

 Nesse contexto, o uso adequado de práticas agrícolas, que garantam a sustentabilidade do sistema de produção como a calagem, as adubações corretivas e de manutenção da fertilidade do solo, o manejo adequado do solo, e da cultura, o plantio direto e a reinoculação da soja com estirpes competitivas e eficientes, favorece a população do Bradyrhizobium do solo, a nodulação e a contribuição da fixação simbiótica do N2. Por outro lado, o uso de inoculante de má qualidade, a inoculação mal feita, a aplicação de fungicidas e micronutrientes nas sementes, juntamente com os inoculantes, de forma inadequada, reduzem a nodulação, a eficiência da fixação simbiótica do N2 e a produtividade da soja. O aperfeiçoamento dos métodos de inoculação, compatibilizando a necessidade de aplicação de fungicidas, micronutrientes e inoculantes, garantindo uma maior população da bactéria nas sementes, é indispensável para aumentar a nodulação nas raízes principais da soja, onde os nódulos são mais eficientes, aumentando, assim, a eficiência da fixação biológica do N2 e, como conseqüência, a produtividade da soja.

 Portanto, para obter lavouras de soja com produtividade de 5000 kg/ha, é preciso plantar variedades de alto potencial produtivo, adaptadas, com técnicas adequadas de cultivo, em solos com boas condições físicas e químicas e, especialmente, em relação à inoculação das sementes de soja deve-se: (a) aplicar no mínimo 400 g de inoculante de boa qualidade por 50 kg de semente, (b) não aplicar os micronutrientes (molibdênio e cobalto) nas sementes, mas sim em pulverização foliar antes da floração e (c) efetuar o plantio com boa umidade evitando a aplicação de fungicidas nas sementes ou aplicar os fungicidas menos tóxicos para a bactéria que fixa o N simbioticamente.

Rubens José Campo e Mariangela Hungria
Embrapa Soja

* Este artigo foi publicado na edição número 20 da revista Cultivar Grandes culturas, de setembro de 2000.

Fonte:

http://www.grupocultivar.com.br/artigos/artigo.asp?id=406

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