Citros sem ar

0
8

Cochonilhas são pequenos insetos sugadores de seiva vegetal que atacam numerosas espécies de plantas, principalmente as perenes. Além da sucção da seiva, as cochonilhas são capazes de inocular toxinas presentes na saliva. Secretando substâncias açucaradas atraem formigas, que as defendem contra a ação dos inimigos naturais. Essas substâncias favorecem o desenvolvimento do fungo preto da fumagina Capnodium sp. que, recobrindo a superfície de folhas e ramos, dificultam a transpiração e a fotossíntese da planta. Plantas atacadas intensamente por cochonilhas ficam enfraquecidas e passam a apresentar baixa produtividade.

As plantas de citros são atacadas por numerosas espécies de cochonilhas, entre as quais se destaca a pardinha Selenaspidus articulatus.

A cochonilha pardinha foi introduzida no Brasil no final do século passado e início do presente, só começando a se tornar praga séria a partir de 1981, quando se observou intensa infestação na região citrícola de Bebedouro, SP. É uma cochonilha provida de escudo ou carapaça, com formato quase circular, achatado e de coloração amarelada-clara, levemente avermelhada na parte central.

Estágios de desenvolvimento

Durante o seu desenvolvimento, as fêmeas passam pelos seguintes estágios: ninfa 1 que apresenta fase móvel (migrante) com duração de poucas horas e fase fixa, ninfa 2 e adulto. Os machos passam pelos estágios de ninfa 1 (fase móvel (migrante) + fase fixa), ninfa 2, pré-pupa, pupa e adulto. As fêmeas, uma vez fixadas no substrato vegetal, nunca mais abandonam o local, permanecendo com o rostro enterrado nos tecidos da planta, sugando continuamente a seiva. Os machos adultos são insetos alados, com período de vida efêmera, que não se alimentam e têm função exclusivamente reprodutora.

A 25 °C e 70% de umidade relativa, as fêmeas completam o ciclo vital em cerca de 30 dias enquanto os machos em 29 dias. A longevidade dos adultos a essas condições ambientais é de 76 dias para as fêmeas e 37 horas para os machos. A fase crítica do ciclo de vida da cochonilha pardinha é a de ninfa móvel, muito delicada e que é bastante sensível ao dessecamento. A taxa de sobrevivência de fêmeas e de machos a 25 °C e 70% de umidade relativa é de cerca de 80%.

Em condições de temperatura e umidade relativa maiores ou menores que 25°C e 70%, há prolongamento da duração do ciclo vital, bem como aumento da mortalidade na fase imatura, o que indica serem essas as condições ideais para e desenvolvimento dessa espécie de cochonilha. Esses parâmetros dependem ainda da planta hospedeira, já que a pardinha é uma espécie polífaga. Os melhores substratos para o desenvolvimento de pardinha são os frutos da cucurbitácea (melancia selvagem) Citrullus silvestris. A fecundidade das fêmeas a 25 °C é de 135 ninfas/fêmea, sendo que esse valor decresce em temperaturas maiores ou menores. Cada fêmea adulta apresenta longevidade de 120 a 140 dias, produzindo de 4 a 5 gerações/ano.

Inimigos naturais

Na entomofauna nativa são encontradas numerosas espécies de inimigos naturais como predadores e parasitóides, bem como fungos entomopatogênicos que são agentes de controle biológico. Entre os predadores menciona-se a ação de coccinelídeos como Pentilia egena, Coccidophilus citricola e Cycloneda sanguinea e de neurópteros como Chrysoperla spp. e Ceraeochrysa cubana conhecidos como bicho lixeiro. Entre os fungos entomopatogênicos destacam-se Aschersonia aleyrodis, Nectria coccophila, Sphaerostilbe auranticola e Myriangium duriaei. Os principais parasitóides são os himenópteros (vespas) do gênero Aphytis. Em nosso meio são encontradas as espécies A. lingnanensis e A. chrysomphali.

A ação de predadores e parasitóides tem sido prejudicada pelas freqüentes pulverizações com produtos químicos. As aplicações de enxofre para controle de ácaros vêm prejudicando os fungos entomopatogênicos, eficientes principalmente na época chuvosa. Além disso, os parasitóides não apresentam eficiência desejada no controle biológico por não serem específicos para a cochonilha pardinha.

O parasitóide específico da cochonilha pardinha é o Aphytis roseni, nativo na região do Quênia (África Oriental). Esse parasitóide foi introduzido e estabelecido com sucesso no Peru, em 1972, chegando a exercer mais de 70% de controle.

O parasitóide A. roseni deverá ser introduzido no Brasil através do Laboratório de Quarentena Costa Lima, pertencente à Embrapa Meio Ambiente, localizada em Jaguariúna, SP. O Laboratório está sendo preparado para receber, quarentenar e multiplicar o parasitóide, para ser liberado nos pomares de citros. Como os parasitóides do gênero Aphytis são muito sensíveis aos produtos químicos, as pulverizações deverão ser suspensas para que o parasitóide possa sobreviver. Como as condições climáticas da região costeira do Peru onde se pratica a citricultura são semelhantes às regiões citrícolas do Brasil, espera-se que o parasitóide se estabeleça também com sucesso em nosso país. O parasitóide A. roseni apresenta, além disso, alta capacidade de multiplicação, sendo assim um inimigo natural agressivo e eficiente. Começando-se a criação com 10 indivíduos, pode-se conseguir uma população de mais 10.000 indivíduos em apenas 3 gerações.

Por outro lado, a adoção de medidas de controle é justificável economicamente pois a cochonilha pardinha ocorre em níveis populacionais superiores ao seu nível de dano econômico estabelecido em 10 cochonilhas/folha, na maior parte do ano em muitos pomares.

Maria Aico Watanabe
Embrapa Meio Ambiente
Heloísa Sabino Prates
SAA/SP

* Este artigo foi publicado na edição número 04 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2000.

Fonte: http://www.grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=81

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here