Citros – A temível pinta-preta

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A pinta preta dos citros cujo agen te causal é o fungo Guignardia citricarpa, vem causando enormes prejuízos aos citricultores, devido à necessidade de pulverizações com fungicidas para seu controle, as quais oneram a produção entre US$ 0,08 e US$ 0,16 por caixa colhida. Frutos com sintomas da doença são depreciados para a comercialização ‘in natura’. O não controle da doença em áreas com alta pressão de inóculo ocasiona também uma perda que pode chegar a 80%, devido à queda prematura dos frutos. Outro problema importante desta doença ocorre em relação à exportação de frutos ‘in natura’. A União Européia, maior importadora de nossos frutos, não tem a doença em seus países membros, sendo, portanto, considerada doença quarentenária A1, ou seja, tolerância zero em relação a frutos com sintomas da doença para a importação por aqueles países, dificultando assim as exportações brasileiras.

A doença já foi constatada oficialmente em três Estados brasileiros. A primeira constatação ocorreu em 1980 no Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense, afetando a mexerica ‘do Rio’. No Rio Grande do Sul a doença foi constatada em 1986 no vale do Caí afetando a tangerina ‘Montenegrina’ e em São Paulo foi constatada em 1992 no municípios de Conchal e Engenheiro Coelho, região de Limeira, afetando limões verdadeiros e laranjas doces de maturação tardia.

Sintomas da doença

Os sintomas da doença são observados em frutos da maioria das espécies cítricas. Sintomas em folhas podem ser observados em limões verdadeiros e tangerinas. A manifestação dos sintomas pode demorar até um ano após a infecção, dependendo das condições ambientais. Seu aparecimento é favorecido pela radiação solar, combinada com altas temperaturas. Existem diferentes sintomas relacionados à doença, entre eles:

Mancha dura – a mais comum e típica lesão. Geralmente esse tipo de sintoma começa a aparecer na época em que os frutos iniciam a mudança de coloração. As lesões apresentam o centro necrótico deprimido de cor marrom-claro e as bordas salientes de coloração marrom-escura. Em frutos mais esverdeados a lesão é circundada por um halo amarelo. Em frutos mais maduros a lesão é circundada por um halo verde. Uma característica típica dessas lesões é a presença de pontos negros em seu interior, que se constituem nos corpos de frutificação do fungo, os picnidios, onde os esporos assexuais do fungo (picnidiósporos) são formados.

Falsa melanose – são manchas escuras e pequenas podendo estar dispersas ou agregadas nos frutos. Normalmente esse sintoma inicia-se em frutos ainda verdes. Este sintoma pode ser confundido com o causado por outra doença fúngica, a melanose (Diaporthe citri), entretanto, elas se diferenciam por ser as manchas causadas por melanose ásperas quando comparadas com a da falsa melanose.

Mancha sardenta – são pequenas lesões deprimidas de cor avermelhada que geralmente ocorrem no período de maturação dos frutos e na pós-colheita. Esses diferentes tipos de sintomas podem apresentar certas variações, provavelmente, associadas à suscetibilidade do tecido no momento da infecção, ao tipo de esporo envolvido ou às condições climáticas prevalecentes durante e após a infecção.

Ciclo primário

O ciclo primário da doença, ciclo sexual, é o responsável pela introdução do patógeno em novas áreas. Os citros são plantas perenes sempre verde, entretanto, há uma troca contínua de suas folhas. As folhas dos citros mantêm-se fixadas às plantas em média por dois anos. As folhas, que freqüentemente caem ao solo, quando previamente infectadas, são fonte de inóculo do ciclo primário. Ao entrarem em decomposição, nestas formam-se os corpos de frutificação do fungo, os pseudotécios. Dentro dos pseudotécios, os ascósporos são produzidos em períodos de alternância de chuvas e períodos secos. Sua liberação está relacionada com períodos chuvosos, em que ocorre uma diferença de pressão nas ascas dentro do pseudotécio levando à liberação dos ascósporos. Os ascósporos liberados são ejetados a uma altura de 1 cm, onde esses através de correntes de ar são disseminados a longas distâncias. A época de disseminação de ascósporos está correlacionada diretamente aos períodos chuvosos. O período entre a queda da folha e a liberação dos ascósporos é de 40 a 180 dias. Em contato com o tecido vegetal, os ascóporos se aderem, forma-se o tubo germinativo, o apressório e a penetração é direta (sem necessidades de aberturas naturais ou cortes no tecido), formando uma massa micelial na região subcuticular, que permanece quiescente por um período de 4-6 meses até o aparecimento dos sintomas. Para que ocorra a germinação e a penetração há a necessidade do tecido vegetal estar molhado. Nas lesões oriundas de infecções de ascósporos em frutos, ramos e folhas ocorre a formação de corpos de frutificação do ciclo secundário da doença (fase assexual), os picnídios. Nunca foi observado a formação de pseudotécios (fase sexual) em frutos fixados à planta, apenas em tecido em decomposição.

Ciclo secundário

Dentro dos picnídios, formam-se os esporos assexuais do fungo, os picnidiósporos. Estes esporos formados em folhas, ramos e frutos, são responsáveis pelas infecções secundárias do patógeno. Entretanto, diferentemente dos ascósporos que são disseminados pelo vento, os picnidiósporos são disseminados por água. Isto ocorre devido a presença de uma muscilagem no interior dos picnídios a qual agrega os picnidiósporos. Quando em contato com água (chuva, respingo, etc.), esta dissolve a muscilagem e carrega os picnidiósporos para fora dos picnídios, infectando tecidos sadios que se encontram próximos a fonte de inóculo. O ciclo secundário, fase assexual, é responsável pelo incremento da doença dentro da planta e próximo a ela. Os picnídios também são formados nas folhas em decomposição dos citros junto com os pseudotécios, entretanto os esporos produzidos infectam principalmente a região da saia da planta através de respingos de chuva, sempre a curta distância.

Controle da doença

Entre as medidas de controle incluem-se: o plantio de mudas sadias de viveiros certificados; a restrição à entrada de pessoas e veículos no pomar; a utilização de herbicidas pós-emergentes antes do período de florescimento para a formação de uma cobertura morta sobre as folhas de citros em decomposição no solo, reduzindo assim a fonte de inóculo do ciclo sexual; a eliminação de plantas depauperadas por outras doenças (gomose, tristeza, declínio); a manutenção do pomar sadio e bem nutrido e o controle químico por meio de aplicações de fungicidas, no período de pós-florada. Os produtos mais eficazes no controle desta doença são os benzimidazóis (benomil, carbendazim e tiofanato metílico), entretanto, as aplicações repetidas desses produtos pode levar a resistência do fungo a esse grupo, e, portanto, as aplicações de benzimidazóis devem sempre ser feitas em mistura com um produto protetor, como os ditiocarbamatos ou com produtos cúpricos. A aplicação de produtos protetores, assim como as estrobilurinas também mo
stram-se eficazes no controle da doença, entretanto todas as aplicações tanto das misturas de sistêmicos com protetores como dos protetores isoladamente ou das estrobilurinas devem ser feitas em mistura com óleo (mineral ou vegetal, a 0,5%). A utilização do óleo faz com que os fungicidas tenham uma melhor eficácia.

Marcel Bellato Spósito, Pedro Takao Yamamoto e Renato Beozzo Bassanezi
Fundecitrus

* Este artigo foi publicado na edição número 08 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de junho/julho de 2001.

Fonte: http://www.grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=274

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