Camarão Cultivado no Ceará e no Brasil: Crise à Vista?

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O Blog O PEIXE vem apresentando, periodicamente, as notícias relativas à autorização de importação de camarão argentino para o Brasil, e que transformou o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) num alvo bombardeado de críticas pelos produtores de camarão do Ceará e do Brasil.

Frente a essa constatação, a pergunta que fica é: Com a importação do camarão argentino liberado, visualiza-se mais uma crise para a cadeia produtiva do camarão cearense e brasileiro?…

Para tentar elucidar essa insólita questão, vamos apresentar alguns  pontos que podem implicar diretamente sobre o setor do camarão brasileiro, caso o mercado brasileiro venha a ser “inundado” de camarão argentino ou de outros países.

Tais pontos também tentam incrementar esse importante debate… Dê sua opinião!

1) Qualidade do camarão argentino: Para os carcinicultores brasileiros, o camarão argentino não seria tão “hermano” como se pensa…

O produto argentino, geralmente, se apresenta como camarões grandes (Entre 20 e 40g) e com características sensoriais (gosto, odor e coloração) e de qualidade satisfatórias devido, tanto a característica específica desse pescado, quanto aos processos operacionais de congelamento a bordo nas embarcações que pescam o “gambão”; Fora isso esse camarão é pescado em águas frias, que, geralmente, são tipos de pescado que levam vantagem sobre os camarões tropicais em mercados mais exigentes no Mundo… Se essa vantagem ocorreria da mesma forma por aqui, confesso que eu não pagaria pra ver, caso fosse um criador de camarão…

2) Produção do camarão argentino: Pesca sazonal, mas nem tanto…

Observando dados do Ministério de Agricultura, Pecuária e Pesca da Argentina, nota-se que os números de produção e exportação do camarão argentino são interessantes… Estima-se que essa indústria exportou, em média, nos últimos 5 anos, aproximadamente, 50.000 ton por ano… E com preços que variam entre U$6,4-7,5/Kg… Ou seja, um camarão grande, pescado o ano inteiro com dois picos mensais de produção, sensorialmente (cor, odor e sabor) muito bom e com um preço muito competivivo!…

O destino desse camarão argentino tem sido, na sua grande maioria (90%), para Europa (Espanha e Itália)… A pergunta que fica: Estariam dispostos nossos “hermanos” a direcionar, em grandes quantidades, seu camarão pra cá?… No curto prazo, é possível que não, já que não se larga, do dia pra noite, dois clientes que compram 90% do que se produz… Entretanto, no médio e/ou longo prazo, a resposta poderá ser outra, por duas evidentes tendências:

1) Classe média do Brasil sobe, Classe média da Europa desce!;

2) Consumo de pescado per capita no Brasil sobe!…

Com base nesses cenários de avanço da classe média, alvo principal da indústria de alimentos, onde você acha que as empresas que vendem o “camarão gambão argentino” e/ou outros tipos de pescado planejariam e/ou mirariam suas exportações num futuro próximo?… Lógico que tudo isso é muito dinâmico, todavia, passamos a ser “alvo”… Qualquer dúvida, consulte nossa balança comercial de pescado…

3)Fiscalização das importações: Estamos prontos para fiscalizar até o que “parece, mas não é”?…

Com a descentralização da fiscalização portuária brasileira, fiscalizar pescado não é uma tarefa tão simples assim… Pelo contrário… O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) vem fazendo seu trabalho dentro de sua capacidade que, sabemos que ainda, precisa ser amplificada, mas mesmo assim a fiscalização do setor de pescado é uma tarefa que requer uma grande experiência dos avaliadores devido à grande diversidade de tipos e formas de como o pescado é vendido… O que, até para quem é especialista, fica complicado diferenciar duas espécies ou dois tipos de produto provenientes de pescado…

A pergunta que fica é: Temos condições de garantir que o camarão autorizado que entrará no Brasil, seja mesmo o camarão argentino?… Como evitar que outras empresas não utilizem a Argentina para exportar para o Brasil, camarões de países que apresentam questões sanitárias problemáticas relativas às enfermidades virais presentes nos camarões dessas regiões?…

Sem dúvida, aí pode estar um problema que, caso seja desconsiderado, possa comprometer o setor camaroneiro, bem como o estado sanitário em que o Brasil se encontra no que diz respeito a viroses que ainda não foram encontradas por aqui como, por exemplo, o vírus da cabeça amarela (Yellow Head Virus – YHV) que poderia ser introduzido no Brasil via importação e causar sérios danos ao setor camaroneiro brasileiro como o ocorrido nos maiores países produtores do mundo…

4) Custo brasil e a eterna ciranda da concorrência: Injusta?… Desleal?…

É quase impossível falar de Brasil, Concorrência e a terceira fala não ser o termo “Custo Brasil”… Convencionou-se no Brasil em dizer que “custo brasil” é o conjunto de distorções existentes na economia brasileira, responsável pela baixa competitividade e ineficiência das empresas…

Resumidamente, o “custo brasil” tem influenciado sobre a cadeia produtiva do camarão… Não só questões econômicas quanto legais têm favorecido no sentido de travar o crescimento desse setor no país, e em especial, no Ceará…

Mais perguntas que ficam são: E nos outros países produtores de camarão de pesca ou cultivo?… As exigências são as mesmas?… Tributos, Custos de Produção, Legalização ambiental, etc… O Brasil encontra-se no mesmo nível de concorrência?… Os produtores brasileiros necessitam de compensações para competir nesse cenário de “mercado aberto”?…

Perguntas sem respostas?… Nem tanto…

Encontrar as respostas para todas as perguntas colocadas anteriormente pode não ser uma tarefa simples… Principalmente quando essas respostas passam por uma solução essencialmente política, bem mais que técnica e/ou jurídica… Beneficiar o setor produtivo nacional ou estimular concorrência e o mercado livre para que os consumidores decidam?… Por aqui, o Governo tem respondido muito claramente essa questão. Apesar de sofrer com os subsídios nos seus países concorrentes, o Brasil tem ecoado páis a fora, um tom de reprovação sobre medidas protecionistas alegando seus impactos negativos nas economias locais.

A importação de camarão para o Brasil, nesse primeiro momento, pode não ser algo impactante e perceptível (Aos consumidores em geral…), entretanto,  num futuro próximo, pode trazer alterações importantes no mercado de pescado brasileiro comprometendo ações e até mesmo a rentabilidade da cadeia produtiva do camarão no Ceará e no Brasil que, caso nesse período não sofra alterações e/ou ajustes de ordem técnica e econômica e, principalmente, apoio político institucional, poderá passar por mais uma crise sem precedentes, e dessa vez, com consequências nunca vistas…

Para concluir, o mercado brasileiro de pescado, querendo os produtores de camarão ou não, enquanto o Brasil se mostrar viável para negócios nesse segmento, sempre será alvo… É inevitável… Independente de qualquer situação, chegou a hora do setor produtivo procurar inovação e, principalmente, maior integração para que possa indicar e/ou pressionar de forma legítima, conjunta e organizada os órgãos governamentais de fomento e/ou reguladores a fazerem seu papel tornando o ambiente de negócios positivo e mais equilibrado para todos que participam desse setor, em especial, para aqueles que, verdadeiramente, geram emprego, renda e divisas para nosso país.

 

Fonte: http://blog.opovo.com.br/opeixe/camarao-cultivado-no-ceara-e-no-brasil-crise-a-vista/

 

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