Avaliação da Interação Retireiro-Vaca no Momento da Ordenha

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A interação retireiro-vaca leiteira na ordenha influencia o comportamento, produtividade e bem-estar animal. Ela também é importante para o sucesso financeiro e o marketing da propriedade. Propriedade que oferta melhores condições para que seus animais tenham bem-estar adequado tem possibilidade de maior lucratividade e melhor imagem junto ao mercado consumidor de seus produtos.

A avaliação do bem-estar animal geralmente é realizada por técnicos especializados, tornando-a limitante financeiramente a uma boa parte dos pecuaristas. Para que todos os proprietários tenham condições de avaliar a qualidade da interação que é desenvolvida durante a ordenha, estamos propondo um sistema de avaliação que indicará qual é a qualidade da interação e, por consequência, a qualidade do retireiro e o nível de bem-estar das vacas na ordenha.

O nível de bem-estar na ordenha poderá ser bom, quando as vacas estão tranquilas, ou ruim, quando as vacas apresentam comportamentos indesejáveis. A qualidade da interação poderá ser classificada de acordo com as seguintes classes:

-Interação insignificante: os retireiros realizam a ordenha praticamente sem interagir com a vaca, não empregando nenhum, ou com baixa frequência relativa, os comportamentos considerados como fortes influenciadores no comportamento das vacas em lactação. Assim, a ordenha é realizada de maneira monótona e o comportamento do retireiro pode ser considerado neutro. O comportamento dos animais durante a ordenha também são pouco perceptíveis: baixa ocorrência de ruminação, baixa ocorrência de defecação e micção e baixa reatividade. Os animais se apresentam como se estivessem entediados. Entendemos que nessa situação o bem-estar animal está ruim.

-Interação desaconselhável: os comportamentos negativos exercem maior influência no comportamento da vaca, embora pudessem ocorrer comportamentos humanos positivos. Devido à maior influência dos comportamentos negativos, quando o comportamento positivo é realizado, os animais respondem negativamente, uma vez que já reconheceram o retireiro como aversivo. Os animais apresentam comportamentos indesejáveis. Esses são acentuados quando o retireiro direciona a ação, por meio do tato (“tatear”, “bater”, “torcer cauda” ou “empurrar”) ou da voz (“conversar”, “nomear” ou “gritar”), de maior frequência relativa. O bem-estar animal está ruim.

-Interação instável: os comportamentos negativos exercem maior influência no comportamento da vaca, embora possa ser maior a frequência relativa dos comportamentos positivos. Os retireiros são reconhecidos como aversivos. Os animais apresentam comportamentos indesejáveis, provocados pela inconsistência do retireiro em definir o tipo de ação durante a lida com os animais. O bem-estar animal está ruim.

-Interação aconselhável: os comportamentos positivos exercem maior influência no comportamento da vaca, embora possa ocorrer comportamento negativo. Este tipo de interação é um dos alicerces da ordenha sustentável. Os retireiros são reconhecidos como positivos e os animais apresentam comportamentos indesejáveis de forma pontual quando a ação aversiva é aplicada. O nível de bem-estar do animal está bom.

Para conhecer a qualidade da interação retireiro-vaca leiteira, os seguintes passos deverão ser realizados:

1) o observador (proprietário, supervisor dos retireiros ou qualquer outra pessoa que esteja habituada com as vacas e com os retireiros) deverá, em períodos regulares, acompanhar as ordenhas. Neste momento, registrará o comportamento dos retireiros durante a acomodação e liberação das vacas da sala de ordenha, por meio da ocorrência (ou não) das seguintes categorias comportamentais:

a) Conjunto de ações positivas: Conversar (Cv) – fala dirigida ao animal com timbre de voz suave; Tatear (Tt) – toque suave com as mãos; Nomear (Nm) – pronúncia do nome da vaca com timbre de voz suave.

b) Conjunto de ações negativas: Bater (Ba) – pancada que o animal sofre do retireiro; Gritar (Gr) – fala com timbre de voz acentuado; Empurrar (Em) – esbarro agressivo intencional; Torcer a cauda (Tc) – torção da cauda.

2)Após os dados colhidos, irá esquematizar dois blocos: o de ações positivas (Cv, Tt, Nm) e o de ações negativas (Ba, Gr, Em e Tc). Calculará a frequência relativa por ação (Cv, Tt, Nm, Ba, Gr, Em e Tc) e após, a freqüência relativa média do bloco.

3)Calcular a razão entre as frequências relativas médias do bloco positivo e do bloco negativo. Verificar em qual situação a razão se enquadra:

a)Menor que 0,25: interação insignificante
b)Entre 0,26 e 1,55: interação desaconselhável
c)Entre 1,56 e 6,45: interação instável
d)Maior que 6,45: interação aconselhável
e)Quando igual a 0,0 (zero):
e.1) se as frequências relativas dos blocos positivo e negativo forem iguais a 0,0 (zero), a interação é insignificante;
e.2) se a frequência relativa do bloco positivo for, no máximo, igual a 6,45%, a interação é insignificante;
e.3) se a frequência relativa do bloco positivo for maior que 6,45%, a interação é aconselhável;
e.4) se a frequência do bloco negativo for, no máximo, igual a 6,45%, a interação é insignificante e
e.5) se a frequência do bloco negativo for maior que 6,45%, a interação é desaconselhável.

Por exemplo, na observação de 100 vacas na fase de acomodação e liberação da ordenha, ocorreram as seguintes ações positivas:10 de conversar, 14 de tatear e 1 de nomear, perfazendo as frequências relativas de 10%, 14% e 1%, respectivamente. Em termos de ações negativas, foram identificadas, hipoteticamente: 5 de bater; 20 de gritar; 1 de empurrar e 2 de torcer a cauda, resultando nas respectivas frequências relativas de 5%, 20%, 1% e 2%. Empregando média aritmética dos dois grupos, chega-se a uma frequência média relativa de atitudes positivas de 8,33% e das negativas de 7%. A partir daí, calcula-se a razão entre elas (8,33/7,00) atingindo-se o valor de 1,19, que de acordo com a classificação acima significa uma interação desaconselhável.

Referência:

ROSA, M. S. Ordenha sustentável: a interação retireiro-vaca. 2004. 83 f. Tese (Doutorado em Zootecnia) – Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, Universidade Estadual Paulista, Jaboticabal, 2004.

Fonte: http://www.milkpoint.com.br/
Autor:  Marcelo Simão da Rosa – Professor do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais – campus Muzambinho

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