Atriplex chupa o sal da terra e faz ração

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Existem plantas que convivem com o sal do semiárido. Estas plantas constituem um verdadeiro “banco de proteínas” e precisariam ser mais exploradas no Nordeste.

As regiões semiáridas apresentam uma forte tendência para a salinização dos solos devido, principalmente, aos fatores climáticos, deficiência na drenagem do solo e condições geológicas dos mesmos. Mesmo assim, tais regiões po­dem apresentar capacidade de acumular lenta e persistentemente quantidades apreciáveis de alimentação para os animais. Esse é o caso do semiárido nordestino. Entre os padrões que impedem o normal crescimento das plantas, tem-se o da salinidade dos solos, um dos mais sérios problemas para a agricultura irrigada. A expansão da fronteira agrícola e pecuária em áreas de sequeiro tem tido frequentemente consequências negativas, sobretudo em territórios onde as estruturas sociais e econômicas são precárias.

A salinização dos solos permitiu o desenvolvimento de muitas espécies vegetais capazes de crescerem e de se reproduzir em solos que matam outras plantas. Entre estas plantas está a Atriplex, um vegetal que extrai sal do solo, ne­cessário a seu metabolismo.

A Atriplex conta com mais de 400 espécies distribuídas nas diversas re­giões áridas e semiáridas do mundo, particularmente da Austrália, onde apresenta uma elevada diversidade de espécies e subespécies (Franclet & Le Houérou, 1971). Suportam tanto a aridez quanto a salinidade e produzem forragens ricas em proteína e caroteno. Também apresentam a propriedade de manter abundante fitomassa foliar ativa durante os períodos desfavoráveis do ano, sobretudo na época das secas. Crescem, espe­cialmente, durante os meses de primavera e verão, podendo atingir alturas superiores aos três 3 metros.

Introdução no Brasil

Segundo registros que permane­cem no Herbário Dárdano de Andrade Lima, da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária – IPA, exemplares de Atriplex hastatum L. foram cultivados em 1929, na Escola Agrícola São Bento no município de São Lourenço da Mata (Tapera). Estas plantas foram trazidas da Alemanha onde se cultivavam como hortaliça. Permanecem também no IPA, algumas amostras coletadas pelo botânico Dárdano de Andrade Lima em 1970 em Santo Inácio, na Serra do Acuruá (BA). Esta amostra encontrava-se em solo cascalhento, entre blocos de arenito, porém não se chegou a determinar botanicamente a espécie. Em Passira (PE), mesorregião do Agreste, existe uma fazenda, na qual encontra-se uma plantação adulta de Atriplex nummularia L. de aproximadamente dois (2) hectares, cujos primeiros exemplares, segundo moradores da região foram trazidos do Chile. Isto mostra o potencial de adaptação que este gênero apresenta para as nossas condições ambientais.

Condições

A Atriplex adapta-se aos climas áridos e semiáridos, entre 20° e 50° de latitude norte e sul, respectivamente, com precipitações pluviais anuais entre 100 e 500 mm, havendo inclusive relatos de seu estabelecimento em locais com precipitações de 50 mm/ano (Kelley et al., 1982). Nestas regiões as plantas requerem muita luz e temperaturas entre 25 e 40 ºC, com valores de pH que podem variar entre 6 e 8, adaptando-se a alturas que podem ir desde o nível do mar até ± 1.500m. As plantas adaptam-se bem a solos secos e pobres em nutrientes, ­porém os melhores crescimentos são observados em solos próximos a fonte de água, com profundidade de 1 metro, desde os argilosos até arenosos, salinos altamente alcalinos e calcáreos, não sobrevivendo em solos encharcados.

A Atriplex tolera solos poucos profundos, com altos níveis de salinidade, registrando-se bons crescimentos com Condutividade Elétrica entre 20 dS/m até cerca de 60 dS/m. Algumas espécies crescem com maior vigor em locais onde há maior concentração de sal (O’Leary, 1990). Geralmente as plantas começam a produzir sementes entre o 2° e o 4° ano após o plantio, mas é comum encontrar plantas que produzem sementes logo no 1° ano. Graças à alta concentração de sal (cloreto de sódio) em suas folhas e ramos, essas plantas apresentam uma elevada tensão osmótica em suas células, principal mecanismo fisiológico que faculta reter a umidade, resultando em resistência à seca.

A raiz pivotante absorve água a profundidades consideráveis (superiores a 15 m, dependendo das características de cada local), enquanto as raízes laterais facilitam a nutrição e estabilidade. Essas qualidades fazem das es­pécies do gênero Atriplex, plantas desejáveis para o estabelecimento de for­ragens em regiões com baixa precipi­tação pluvial, aquíferos escassos e profundos, bem como, para solos de baixa fertilidade.

Recuperação de solos salinizados

A Atriplex caracteriza-se pela sua elevada tolerância à seca e salinidade do solo. Nos países que apresentam grande parte de sua área territorial composta por zonas áridas e semiáridas (Austrália, EUA, Sudáfrica, Espanha, Chile, Rússia, Paquistão, México, etc.) e com problemas de salinidade no solo, decorrentes de fatores climáticos, físico-químicos, geológicos e de um sistema de irrigação muitas vezes mal planejado, já são utilizadas as plantas halófitas (Squire & Ayoub, 1994), e entre elas a Atri­plex destaca-se pela alta capacidade de retirar do solo grandes quantidades de sais, acumulando-o em seus tecidos, sem que isto represente um problema interno para a planta. A capacidade que estas plantas pos­suem para viver nesses ambientes de extrema tensão, tanto hídrica quanto sa­lina, representa uma alternativa ecologicamente equilibrada, acessível ao pequeno produtor e que torna reaproveitável áreas outrora marginalizadas ou improdutivas.

Experiências feitas em laboratório com Atriplex halimus, demostraram que esta planta pode crescer muito bem quan­do irrigada com solução salina contendo 30.000 mg/litro de cloreto de sódio, (Zid, 1970). Os planos de recuperação de solos salinizados consistem normalmente em plantar estas espécies, nesses ambientes e na medida em que elas crescem, são feitos cortes periódicos da parte aérea (que contem grandes quantidades de sais que anteriormente estavam no solo (Zhao, 1991).

Pode-se fazer consórcio de Atriplex com culturas tradicionais visando sempre estabelecer um balanço entre o sal existente no solo e o que as plantas podem extrair a fim de neutralizar seu efeito maléfico sobre culturas.

Em áreas que apresentam problemas de formação de dunas, usam-se espécies do gênero Atriplex para deter o avanço das mesmas e estabilizar os solos.

Forrageira para rebanhos

O número de plantas por hectare deve garantir biomassa para os rebanhos durante os períodos críticos, onde a oferta de forragem é escassa. Dessa maneira, se o que se deseja é obter uma população de Atriplex onde os animais terão que pastar diretamente no campo, pode-se adotar espaçamentos maiores, ou seja 5 x 5m ou 6 x 6 m.

Caso a exploração seja para fins de produção de fe­no, o espaçamento ideal poderá variar de 2 x 1 m, 2 x 2 m ou 3 x 3 m. A partir do 3° ano, quando se iniciar o processo de competição entre plantas, poderão ser realizados cortes ou eliminação de algumas touceiras, diminuindo, assim, a densidade. Em qualquer desses casos, a densidade de plantas, está atrelada também a outros fatores, como: espécie de Atriplex usada, fertilidade e salinidade do so­lo, forma de crescimento da parte aérea da planta, etc.

Aspectos de plantas de Atriplex nummularia às margens do Rio Una, no município de São Bento do Una – PE, na Estação Experimental do IPA.

A Atriplex tem elevada concentração de proteína e boa palatabilidade. A baixa taxa de transpiração confere-lhe eleva­da eficiência no uso de água e maior resistência à seca.

Estudos sobre a produtividade de Atriplex na Tunísia constataram rendimentos de 2.000 a 5.000 kg de matéria seca/ha/ano, em solos profundos com precipitações pluviométricas de 200 a 400 mm, onde 50% da fitomassa aérea correspondia a forragem (Le Houérou & Pontanier, 1987). Outros autores indicam rendimentos de 1.000 a 3.200 kg de matéria seca/ha/ano na África do Sul com precipitações anuais de 300 a 350mm (Garcia, 1993).

A Tabela 1 apresen­ta a quantidade de forragem produzida em um hectare de Atriplex na Austrália.

No México, cultivos de Atriplex canescens com uma densidade de 5.000 plantas por hectare, e com cortes ao 50% da área foliar, reportaram rendimentos de 1.000kg de matéria seca por corte, proteína bruta entre 14 e 18%, fibra bru­ta a 15%; e a digestibilidade entre 49 e 80%, dependendo da época do ano (Ibarra, et al., 1979).

No Chile registraram-se rendimentos de 500 a 900 kg de matéria seca/ha/ano, com precipitações de 100 a 220 mm/ano (FAO, 1996). É lógico pensar que a produtividade desta planta está relacio­nada com a idade da planta, manejo de arbustos, condições ambientais e da densidade ou espaçamento usado, entre outros fatores.

Quanto ao valor nutritivo do Atriplex, pode-se afirmar que os valores da proteína variam segundo a estação do ano, tipo de tecido e idade da planta, entre outros. Vários autores citados por Correa (1992) indicam valores de proteína bruta entre 8,8 e 25% e digestibilidade in vitro de 45,0 a 85,3% – dependendo da época de coleta. Em ensaios de digestibilidade “in vivo”, obtiveram um consumo máximo em cabras de 400 g/M.S./cabra/dia. Conteúdo em matéria seca é superior quando comparado as espé­cies herbáceas (15 a 20%) (Zjani ,1969).

Gastó & Contreras (1972) estudando o valor nutritivo da Atriplex encontraram valores elevados, 18% para proteína bruta, 23% para fibra bruta, 3,2% para o extrato etéreo e 41,5 para o extrato não nitrogenado, na planta inteira. No conteúdo de fibra bruta, de uma forma geral, indicam-se percentagem que variam entre 7,8 e 20%, dependendo da espécie.

As folhas, caules e sementes, podem ser consumidas sem problemas e estão disponíveis para o pastoreio em diferentes espécies de animais. A Tabela 2 mostra o conteúdo nutricional de 5 espécies de Atriplex com valor forrageiro. Os resultados mostram valores elevados de proteína, apesar de inferiores aos valores encontrados em algumas le­guminosas como a alfalfa. Estes altos valores nutritivos indicam que a Atriplex constitui uma alternativa promissora no Nordeste brasileiro, para cobrir as necessidades dos ruminantes, sobretudo na época seca.

12/04/2010Revista O Berro Nº132 – Dados do IPA

Fonte:  http://www.accoba.com.br/ap_info_dc.asp?idInfo=1612

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