Até que ponto seu sistema de produção é, efetivamente, a pasto?!

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“Produção de leite a pasto” é uma expressão popular e conhecida no meio técnico. Particularmente eu corrigiria a classificação para: “produção de leite à pasto com suplementação”. Todos aqueles que estão envolvidos com a produção de leite neste sistema sabem e fazem uso da suplementação como estratégia essencial para atingirmos resultados. Acredito muito no pastejo rotacionado como alternativa para produção de baixo custo desde que determinados conceitos sejam respeitados como, por exemplo, o fornecimento de concentrado (apenas) durante o verão e volumoso + concentrado no período de inverno (uma vez que gramíneas tropicais passam a não ser mais alternativa forrageira, pela sua característica estacional de produção). 

Na prática, conversando com colegas e visitando propriedades, tenho percebido e notado uma grande dificuldade no manejo de pastagens, principalmente em relação ao consumo de matéria seca (MS). Sabemos que o consumo de MS oriundo do pasto depende muito da qualidade do mesmo, dentre uma série de fatores. Podemos associar essa qualidade, de um modo geral, ao teor de fibra (FDN – fibra em detergente neutro) do mesmo. Estudos clássicos apontam correlação do peso vivo (PV) com a quantidade (em MS) máxima de FDN a ser consumida diariamente. Para vacas em lactação, dependendo do estágio da mesma, de acordo com dados publicados, apontam para uma ingestão máxima de forragem a 0,8 a 1,2% do PV em kg de FDN/cab/dia, de acordo com o estágio de lactação das vacas.

Quanto mais velho for um capim, teoricamente, maior será o seu teor de FDN. Apenas para ilustrarmos nosso raciocínio, considerando um valor de FDN de 65% para uma forrageira bem adubada em sistema intensivo e teor de MS de 20%, no momento do consumo e um lote com peso individual médio de 630 kg de PV, com consumo de 1% do PV, supostamente, teríamos: 6,3 kg de FDN/cab/dia. Sendo o teor de FDN da forragem de 65%, teríamos o equivalente a 10 kg de MS de forragem (total)/cab/dia ou com o respectivo teor de MS de 20%, o equivalente a 50 kg de matéria original (MO)/cab/dia. A pergunta que devemos realizar é: isso acontece na prática? É possível empregarmos ou considerarmos este valor como verdadeiro?

Nutricionistas e técnicos do setor que lidam, diariamente com estes desafios, e que acompanham constantemente sistemas de produção à pasto sabem que a ingestão de altas quantias de forragem é um desafio. Forragens de alta digestibilidade e valor nutricional, com boa % de proteína bruta (PB) podem até ser consumidas em elevadas quantidades. No entanto lidamos com problemas como elevação de teores de proteína degradável no rúmen (PDR) e mesmo que venhamos a desejar incluir o menos possível de concentrado (como suplementação), somos obrigados a fechar ou fornecer energia dentro do rúmen para evitarmos que eventual excedente de PDR comprometa, por exemplo a reprodução (dietas com excesso de PDR e fornecimento insuficiente de energia promovem elevados teores de nitrogênio uréico no leite, afetando a reprodução). Além disso, sabemos que ao fornecermos concentrados como suplemento em dietas passamos a fornecer, claro, MS também, ocupando espaço no rúmen e complementando requerimentos nutricionais, havendo natural efeito substitutivo.

A premissa básica para obtermos sistemas de produção a pasto eficientes é a otimização do consumo de MS advindo da pastagem. Cabe então outra pergunta/desafio: como otimizar o consumo do pasto se é necessário a suplementação com concentrados para se produzir leite? O desafio aumenta quanto maior for o peso vivo médio do lote e quanto mais especializada for a vaca (capacidade de produção – maiores requerimentos). Apesar da conversão alimentar ser maior em animais especializados, para atendermos suas exigências (requerimentos nutricionais), devemos fazer uso da suplementação. Até então não vejo mal nenhum em arraçoarmos sistemas de produção a pasto, desde que sejamos fiéis à premissa do fornecimento de concentrado suplementar, apenas.

Na prática, por problemas de manejo, como controle efetivo da altura de resíduo, por exemplo, ou nível de adubação empregada (a mais ou a menos), nem sempre temos sistemas de produção a pasto “redondos”. Para que possamos confiar e obtermos consumo efetivo de MS das pastagens precisamos criar condições para que o mesmo aconteça. Caso isso não seja cumprido (manejo adequado), o consumo será inadequado e teremos queda de produção. Como maneira de solucionar o problema e resolver a questão muitas fazendas suplementam no cocho, não somente concentrado (ração), mas também volumoso. Em muitos casos o volumoso é oferecido em menores quantidades apenas para assegurar melhor consumo do concentrado e condições de estabilidade de pH ruminal. Isso é importante, mas complicado ao mesmo tempo. A suplementação com concentrado e volumoso também no verão representa ineficiência e aumento de custos, inegavelmente.

Vejamos outro exemplo: considerando um consumo predicado de 21 kg de MS/cab/dia e uma proposta de balanceamento fundamentada numa relação: volumoso x concentrado (V:C) de 60:40, como estratégia para baixarmos custos (fornecer mais forragem do que ração). Para o consumo predicado seja atingido, nessa relação, estaríamos propondo a ingestão de 12,6 kg de MS de pastagem. Supondo um teor de MS da mesma de 20%, a proposta seria a vaca consumir 63 kg de MO de pasto e cerca de 9,5 kg de MO de concentrado em 2 tratos/dia, ou seja, 4,75 kg de ração/cab/dia/trato, praticamente 5 kg. Suponhamos que este concentrado seja fornecido puro, no cocho, pós-ordenha. Nova pergunta: você faria isso? Resposta: eu, particularmente, não recomendo. Não julgo ser pertinente forneçer mais que 3 kg/cab/dia somente de concentrado (ração) em cocho coletivo de forma alguma (por problema de animais depravados e dominantes consumindo muito mais que o predicado/cabeça, comprometendo o pH ruminal…). Logo estamos diante de uma situação prática complicada. Além disso, temos o desafio (para fechar a dieta) da ingestão de mais de 60 kg de MO de pastagem/cab/dia. Somente de pastagem. Tradicionalmente, sabemos que confinamentos de alta produção trabalham com propostas de consumo de MO/cab/dia de 37 a 42 kg de MO/cab/dia (sem fornecimento de resíduo de cervejaria, com este ingrediente podemos ter maiores ingestões em termos de MO). No quadro acima estamos “propondo” para a “D. Vaca” que a mesma consuma isso, debaixo do sol (ou à noite se ela quiser) e que ela consuma mais do que um programa de confinamento-padrão. Se quisermos fazer a conta com a metodologia do FDN, podemos aplicar: 63 kg MO pasto x 0,2 (usando os dados acima, mesmo, como exemplo), obtendo 12,6 kg de MS ou 8,19 kg de FDN, equivalente a 1,3 % do PV sobre 630 kg/cab, médio de um suposto lote. Será que conseguimos? Quem consegue e como? O campo está aberto para a discussão e exposição de fatos e argumentos, com fundamento… claro.

Sobre o dilema acima, podemos ainda propor uma outra solução: trabalhar com um volume maior de suplementação, ou seja, inverter a relação V:C, propondo um arraçoamento com maior inserção de concentrado. Que tal 40:60? Como ficaria a distribuição da demanda predicada de 21 kg de MS/cab/dia? Obviamente teríamos, 12,6 kg de MS de concentrado a ser fornecido e 8,4 kg de MS de volumoso (pastagem, no caso) a serem fornecidos para nossas amigas. Com teor de MS de 20% (mantendo sempre a base do exemplo inicial), temos que obter um consumo de 42 kg de MO de pastagem. Ótimo. Aliviamos o sistema. Correto?! E o concentrado (ração)? Aplicando 88% como teor de MS médio do concentrado fornecido vamos para 14 kg de concentrado como “suplemento” no cocho. Só ração?! Só farelado? Pergunta: quem faz isso? No campo? Na prática? Dividido em 2 tratos, na base de 7 kg/cab/dia espalhados no cocho/trato…. Viável ou não? Recomendável ou não?

Onde estamos querendo chegar, afinal? Aparentemente estamos caminhando ou direcionando nosso raciocínio para a inviabilização deste sistema (pasto). Correto?! Não. Não estamos propondo nem direcionando nada para isso! Estamos chamando a atenção para o direcionamento de trabalho intensivo, com animais especializados em sistemas de produção a pasto. Podemos trabalhar com estes animais. Sim. Estaremos explorando o máximo potencial dos mesmos? De acordo com as premissas e exemplos acima, creio que não. Por este motivo considero o padrão racial uma questão fundamental no delineamento e sucesso do sistema. Não considero inteligente ficar “brigando” com a questão do consumo de animais com alta capacidade de ingestão e MS, conversão e produção de leite.

Não podemos nos esquecer de que a premissa básica para mensurarmos sistemas de produção a pasto é a produção de leite/área, ou seja, litros de leite/ha/ano em detrimento à produção individual média (tão avaliada em sistemas confinados). Se trabalharmos com vacas pequenas (lembre-se do fator PV x %FDN x consumo), que tenham menores requerimentos e consigam produzir leite com menor ingestão de MS/dia, estamos delineando um sistema correto. Essa vaca pode e deve receber menor volume de suplementação/dia. A lotação (UA/ha) pode e deve ser a maior possível. Se a média individual de produção diária for baixa, eu particularmente, não me preocupo. Neste caso me preocupo com o menor nível de suplementação (ração) e a maior produção de leite consumindo apenas forragem. Isso, certamente, representa redução de custo.

Sistemas de produção a pasto, alguns irrigados, com emprego de elevadas doses de adubo/ha/ano, somada a correção de solo, manutenção de cercas, treinamento de mão-de-obra para controle de resíduo/manejo da pastagem, distância dos últimos piquetes para ordenha, corredores pesados e cheios de lama no verão, etc, não são simples e podem ser ter custo bem superior a sistemas confinados se não forem eficientes. A mera argumentação de que a produção a pasto é melhor e mais barata porque a vaca “vai até o alimento” é um tanto quanto antiquada e incorreta. Se mal interpretada, causa enormes prejuízos, como em muitos casos.

Sistemas de produção a pasto são fantásticos e intrigantes. Exigem cuidados e conhecimentos técnicos avançados; quando aplicado em larga escala, principalmente. Animais menos exigentes, incabíveis em sistemas confinados podem se adaptar perfeitamente à demanda do pastejo rotacionado-teórico. Certamente, se bem conduzido, conseguimos obter custos interessantes. O que não podemos é misturar conceitos e agregarmos custos de um sistema no outro sistema. Neste caso atingimos o cume da ineficiência. No sistema de produção a pasto, mesmo com elevadas dosagens de fertilizantes, conseguimos produzir forragem com baixo custo. Não podemos perder essa vantagem comparativa com o emprego elevado e/ou desnecessário de suplementação volumosa, por exemplo, no verão. Não há impedimento para trabalharmos com vacas especializadas neste sistema (holandesas, por exemplo). Devemos apenas ter consciência de que para explorarmos o máximo potencial das mesmas, nem sempre será possível dentro deste sistema. Para um bom pastejo, um bom projeto, consultoria especializada, orientação e perfil de rebanho são aspectos fundamentais. Simplicidade na produção é diferente de complexidade de sistema. Afirmo sem sombra de dúvida que o domínio e condução de sistemas de pastagens são complexos.

 

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