As três carnes de ovinos do Brasil

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Analisando a cadeia produtiva da carne ovina do Brasil, podem-se encontrar várias situações, de acordo com cada região e suas particularidades. O consumo per capita de carne oscila muito: de quase zero a cerca de 0,70 kg hab/ano! Alguns pólos destacam-se,como o de Petrolina-Juazeiro, onde o consumo é superior a 15 kg/hab/ano ( Silva, 2002 ), ou o das regiões das fronteiras gaúchas, onde o consumo vai além disso.

Seja em região de baixo consumo ou nas de consumo mais elevado, é fácil identificar a carne consumida pela sua origem. São três origens bem nítidas para a carne ovina consumida no Brasil, em qualquer região.

Carne 1 – a importada

A carne importada é encontrada principalmente nos grandes centros e nos principais restaurantes de alta classe. O consumidor e até o proprietário do estabelecimento acreditam que o produto importado possui qualidade superior. Puro engano, pois geralmente o comprador brasileiro adquire cortes de qualidade inferior. (os cortes superiores são destinados a países que pagam preços maiores). O pensamento é que os cortes são mais uniformes e possuem uma quantidade de gordura maior, garantindo por isso um sabor mais acentuado aos cortes especiais, como o filé, lombo e carré.

Grandes redes de churrascarias também aderiram ao produto importado, alegando mais qualidade e preço mais competitivo, se comparado à carne nacional. Esses estabelecimentos trabalham apenas com 1 ou 2 cortes. A facilidade de compra do produto importado favorece a escolha do determinado corte, optando quase sempre pela paleta, costela ou pernil. Na maioria das vezes, o cordeiro do Brasil apresenta cortes desinteressantes para estas grandes churrascarias, como o corte de 1/2 carcaça ou mesmo a carcaça inteira.

Quadro 1 – Importação de carcaças de cordeiros, e de ovinos entre os anos 1992 e 2000. Dados em toneladas.

Item 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
Carne borregos* 163,9 309,9 823,5 444,0 325,4 520,6 530,4 231,7 278,6
Carne ovinos* 2.075,9 3.702,6 4.694,5 3.869,3 5.715,1 4.961,2 6.148,3 4.343,5 8.216,4

(*) Total de carcaças importadas, congeladas ou refrigeradas, com ou sem ossos. Fonte: MDIC.

Carne 2 – a nacional

Apesar de a atividade no setor da ovinocultura ter crescido muito com a abertura de novas indústrias e frigoríficos aptos a abater ovinos, a participação dos produtos nas gôndolas dos supermercados do país não corresponde a 10% do processamento formal de carnes legalizados pela indústria brasileira. Por que? Ora, porque o Brasil não consegue produzir carne, nem em quantidade e muito menos em qualidade. A carne gaúcha passa a fronteira e é industrializada no Uruguai, voltando embalada para o Brasil. A carne estrangeira, tanto da Argentina, Uruguai, Austrália, Nova Zelândia e até dos Estados Unidos acaba chegando ao Brasil em cortes padronizados, de alta qualidade.

Enquanto isso, o Brasil sequer estabeleceu um único pólo de produção de alta quantidade e alta qualidade, ao mesmo tempo. O mercado está engatinhando, produzindo animais para implantação de novos rebanhos. Assim, os preços atingem a estratosfera nas raças inovadoras como Dorper, Samm, Damara, etc. mas nenhum desses animais jamais chegará a uma gôndola de supermercado, pois a cadeia de produção de carne não chegou ao ponto de ser estabelecida.

Isso é muito bom, pois o rebanho – que era de cerca de 12 milhões (só no Rio Grande do Sul) já passa de 20 milhões (embora ninguém conheça uma estatística válida). Está havendo, então, um aumento acelerado em quantidade. É o primeiro passo para que o país possa se tornar naquilo que virá a ser: um dos grandes produtores do mundo.

É comum, nesse momento, observar que não existe praticamente competitividade na produção da carne e tampouco ela é estimulada por indústrias e, muito menos, pelo Governo – embora a caprino-ovinocultura de corte poderia gerar os 10 milhões de empregos tão apregoados pelo Governo como meta. Também não existem preços remuneradores e muito menos a determinação de um padrão dos cortes, seguindo o modelo internacional. Assim, os consumidores de elite preferem a carne internacional – que já está pronta, que conta com endosso governamental, com “selo de qualidade”, com “marcas próprias”, etc. O Brasil está longe de tudo isso. Há países que possuem até subsídio e protecionismo aos rebanhos ovinos, uma vez que eles fixam o homem à terra, constituindo forte elemento de distribuição de renda e de bem-estar social.

Quadro 2 – Local mais apropriado para venda de carne ovina.

OVINOS CLASSES GERAL
  A B C D  
Açougue 21,0 31,3 28,6 40,0 28,6
Casa de carne 19,8 11,2 10,2 0,0 12,2
Feira livre 4,9 8,8 10,2 8,6 7,8
Supermercados 54,3 46,2 49,0 48,6 49,8
Outros 0,0 2,5 2,0 2,8 1,6
Base 81 80 49 35 245

Fonte: Pesquisa de Mercado Sebrae. Salvador (BA) (2000.)

Carne 3 – a do “Frigomato” (carne clandestina )

Segundo Silva (2002) , o frigomato clandestino é responsável por mais de 90% do abate de caprinos e ovinos no Brasil. É difícil imaginar situação diferente, pois os impostos são exorbitantes e as exigências sanitárias são absurdas, ao mesmo tempo em que se observa que cerca de 80% da população sofre algum tipo de desnutrição.

É claro que se houvesse redução no abate clandestino sobraria mais espaço para a carne legalizada, mas como fazer isso? Como estimular o abate legalizado se a carne importada tem mais qualidade e mais quantidade – lá fora? O Brasil terá que enfrentar – como já vem enfrentando com a carne bovina – o sistema de classificação internacional. O país está longe disso, por enquanto, mas já está dando os primeiros passos nessa direção!

Tecnicamente, há que se levar em conta os problemas gerados por produtos clandestinos, como falta de inspeção, higiene, além da falta de padrão dos animais abatidos, variando desde cordeiros a reprodutores com idade avançada. Isso tem a ver com o momento e não poderá ser resolvido no curtíssimo prazo, mas pode no curto prazo, desde que haja uma concatenação entre o poder público e o privado, estando este municiado do necessário crédito para emular a atividade.

O abate de matrizes de descarte também é um problema, pois, no mercado clandestino, a carne destina-se ao consumo in natura , sendo que o correto seria o processamento desta carne para fabricação de lingüiças, embutidos, kafta, etc. Como controlar isso?

Acusar a carne importada é tapar o sol com peneira, pois o erro está dentro do próprio país e o mercado é regido pela lei eterna da oferta/demanda ou do lucro/benefício. Assim é preciso ter coragem e olhar o país com olhos de quem quer produzir e não apenas ficar criticando.

Quadro 3 – Cortes de ovinos por classes de consumidores.

Ovinos A B C D Geral
Pernil 39,4 38,7 39,0 54,5 41,2
Carré 9,1 1,0 0,0 2,3 3,6
Paleta 1,0 1,9 5,1 0,0 2,0
Costela 23,2 24,5 27,1 29,5 25,3
Para ensopados (picado) 12,1 13,2 10,2 11,4 12,0
Sarapatel 3,0 6,6 3,4 0,0 3,9
Buchada 2,0 5,7 6,8 2,3 4,2
Outros 10,1 8,5 8,5 0,0 7,8

Fonte: Pesquisa de Mercado Sebrae/ Ba. Salvador (2000)

Referência bibliográfica:

Silva, R. O. – Agronegócio brasileiro da carne ovina e caprina . In: Silva Ribeiro, A. G. Abril, 2002. Salvador (BA).

 Fonte:

http://cico.org.br/2008/07/as-tres-carnes-de-ovinos-do-brasil/

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