Febre suína na China afeta mercados de proteínas e soja no mundo

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Mutinka (CC0), Pixabay

Rabobank prevê queda de 30% na produção chinesa até 2020, por causa do abate sacrifício de animais para conter a doença

Publicado em 06/05/2019

A crise sem precedentes na suinocultura chinesa está tumultuando o mercado mundial de proteína animal. Com mais de 1 milhão de animais já sacrificados e abatidos e os outros 150 milhões a caminho do mesmo destino, a produção pode cair até 30% no país até 2020, segundo estimativas do Rabobank. Analistas avaliam que a produção doméstica chinesa deve sofrer um baque de 8,5 milhões de toneladas de porcos este ano, o que corresponde a toda a exportação global de carne suína.

Segundo o Rabobank, os principais exportadores, como a União Europeia, Estados Unidos e Brasil, deverão oferecer ao mercado chinês entre 1,5 milhão e 2 milhões de toneladas adicionais de carne suína em 2019. No curto prazo, será difícil ultrapassar essa marca, já que os animais levam pelo menos oito meses para atingir o ponto de abate. “As vendas de frango e bovinos também devem crescer, para substituir os suínos”, diz Ricardo Santin, diretor-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

A estratégia do Brasil é buscar aumentar as vendas não só de carne suína, mas também de frango e de bovinos. A expectativa dos exportadores é que a viagem da ministra Teresa Cristina para a China, que começa nesta segunda-feira (dia 6), abra novos canais de comunicação com as autoridades chinesas para que mais plantas sejam habilitadas no Brasil. Normalmente, esse seria um processo demorado, mas, com a crise de abastecimento na China, há esperança de que o governo chinês adote uma nova postura.

A China vinha mantendo, até a eclosão da epidemia da febre suína, uma forte política de investimento em autossuficiência na produção de alimentos. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, em inglês), no ano passado o mercado chinês consumiu 56,525 milhões de toneladas e a produção interna foi de 54,8 milhões de toneladas. Para este ano o consumo é estimado em 50,5 milhões de toneladas e a produção em 48,5 milhões de toneladas.

A perspectiva de mudança do cenário levou os chineses a olhar com mais atenção para outros países para suprimir a falta de carne suína e oferecer mais opções de fontes de proteína animal a seus consumidores, como frango e bovinos.

Os resultados já começam a ser notados. As vendas de frango brasileiro para a China aumentaram 1,5% em volume no primeiro trimestre do ano, em comparação ao mesmo período de 2018. “A tendência é de um crescimento contínuo dos embarques”, diz Santin. Alguns analistas, no entanto, veem com ressalvas o potencial de aumento de exportações de proteínas para a China. “Convivemos com questões como a febre aftosa e a presença de hormônios na carne que são barrados pelos chineses”, diz Marcos Jank, CEO da Aliança Agro Ásia-Brasil.

É preciso também levar em conta outros fatores. Com a redução do rebanho chinês, há uma expectativa de importações menores de soja. A Cargill declarou, nos Estados Unidos, que a margem de lucro do primeiro trimestre já foi impactada negativamente pela menor demanda da matéria-prima para alimentar o plantel suíno chinês.

O USDA também estima um embarque mais lento de soja para a China nos próximos dois anos. Especialistas no Brasil acompanham de perto as movimentações internacionais. “Ainda é prematuro fazer certas avaliações já que a doença não está controlada na Ásia, mas em algum momento ficará mais claro o quanto o Brasil deve perder com a exportação de soja e ganhar com as vendas de proteína animal para a China”, afirma Jank.

Liderança europeia

A comercialização de suínos para a China deverá continuar a ser liderada pela União Europeia, seguida pelos Estados Unidos, Canadá e o Brasil. Já em janeiro deste ano, as vendas dos produtores europeus para a China aumentaram 14%. A previsão é que os Estados Unidos batam um recorde de embarques este ano, com 550 mil toneladas adicionais envidas à China. A expectativa do mercado internacional é que o Brasil possa aumentar a produção de suínos em até 5%, vendendo 260 mil toneladas de carne suína a mais para a China em 2019.

Os preços em dólar têm acompanhado a alta de demanda. Segundo a ABPA, houve um aumento médio de cerca de 20% no valor da carne suína exportada para a China entre setembro e dezembro de 2018. Exportadores relatam impactos até maiores a partir de abril deste ano, com a cotação do quilo a US$ 2.500 a tonelada, diante de US$ 1.726 há cinco meses. Ainda não houve, no entanto, um aumento expressivo dos volumes embarcados.

Nos principais países exportadores, os esforços para o aumento das exportações têm como contrapartida uma remarcação no valor pago pelo consumidor, já que a oferta interna diminui. Na Holanda, Alemanha e outros países europeus, foram registrados aumentos de 17% e 20% no bacon. Também é aguardada uma alta nos Estados Unidos. No Brasil, houve aumentos mais significativos em Minas Gerais, o maior Estado consumidor do país, e em São Paulo, com o quilo do suíno vivo sendo comercializado entre R$ 4,20 e R$ 4,48, um recorde dos últimos anos.

Impacto na China

Em muitas regiões da China, o consumidor já está pagando até 70% a mais pelo produto nos mercados. Outras fontes de proteína, como frangos e bovinos, que passaram a ter maior demanda de importação, também devem encarecer. A expectativa é que o aumento no preço da cesta básica acabe impactando a inflação.

O problema também poderá ter reflexos no ambiente geopolítico mundial, com um empenho mais relevante do governo chinês em fechar um acordo comercial com os Estados Unidos e, assim, pagar tarifas menores por alimentos e outros produtos importados “A epidemia da febre suína provavelmente terá consequências na forma como a China conduz as compras externas e seu posicionamento frente a vários mercados”, diz Santin.

Fonte Revista Globo Rural