“Decisões devem ser baseadas em dados”

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1737576 (CC0), Pixabay

Tecnologia revoluciona agricultura no Brasil, mas ainda há pontos nos quais o país precisa melhorar

Publicado em 31/07/2019

Presidente da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão (CBAP), o engenheiro Marcio Albuquerque afirma que a tecnologia está revolucionando a agricultura no Brasil, mas ainda há pontos nos quais o país precisa melhorar. Nessa entrevista publicada originalmente no Portal Agropages, Albuquerque fala também sobre como a internet, prometida para chegar em todo o território nacional em breve, pode impulsionar ainda mais a produção brasileira.

Qual é o panorama atual da agricultura de precisão no Brasil?

A agricultura de precisão brasileira segue crescendo. A adoção cresce, as tecnologias utilizadas se expandem e o interesse pelo tema segue em alta. No entanto, a adoção e disseminação seguem se dando de forma desigual entre culturas, regiões e perfil de produtores. Nós temos algumas tecnologias que se aplicam de forma muito rápida em alguns mercados e avançam de forma mais lenta em outros. Quando analisamos mercados locais, temos cenários bastante diferentes pelo Brasil.

Estamos tendo uma ampliação rápida nas ferramentas disponíveis para o produtor. Esta ampliação da oferta, aliada ao momento econômico, leva a uma preocupação e avaliação cada vez maior sobre os reais resultados que cada tecnologia pode entregar para o produtor. O produtor, como sempre deveria ser, gradualmente está mais seletivo às tecnologias que conseguem demonstrar o valor que trazem para ele.

Em relação aos demais players do mercado mundial, no que o País é melhor e no que precisa avançar?

O Brasil teve o grande avanço da agricultura de precisão nos últimos anos bastante apoiado no mapeamento de fertilidade do solo. Muitas e grandes áreas foram mapeadas, levando muitos trabalhos a serem feitos baseados no conhecimento da fertilidade do solo. Por termos em muitos casos solos com baixa fertilidade natural, buscou-se conhecimento para melhorar ou corrigir o que é limitante à produtividade em muitas áreas.

Em compensação, outras ferramentas importantes ainda tem uma adoção baixa em relação aos dados que podem fornecer. Um exemplo importante são os mapas de colheita, que, apesar de muito maquinário equipado com sensores para gerá-los, ainda são adotamos em escala muito menor que poderiam.

Com o foco no mapeamento da fertilidade, outros fatores como mapeamento da física do solo também não recebem a devida atenção, principalmente quando levamos em conta os problemas de compactação do solo na grande quantidade de áreas com cultivo mínimo e sem a adequada cobertura do solo e rotação de culturas.

Que dificuldades esse segmento enfrenta?

Hoje possivelmente o maior desafio que a agricultura de precisão e outras tecnologias agrícolas encontram para terem uma maior adoção no Brasil é disponibilidade de mão de obra treinada e qualificada para usar e tirar os melhores resultados. Desde operadores em campo até agrônomos capacitados para usar o que de mais moderno existe. Temos excelentes profissionais, mas em quantidade insuficiente frente ao tamanho das áreas e expansão da tecnologia. Vemos os bons profissionais serem disputados, mas muita carência em áreas técnicas.

Também noto uma dificuldade de alguns produtores conseguirem fazer investimentos com retorno de médio prazo na profissionalização da sua gestão. A agricultura de precisão é fazer uma gestão agronômica baseada em dados e fatos. Muitos produtores ainda tem mais facilidade de entender o investimento em uma máquina, em uma estrutura do que em investir na equipe, em treinamento, em instrumentos, softwares e consultorias, por exemplo. Esta dificuldade algumas vezes tem razões econômicas, em anos de baixas margens, por exemplo, mas na maioria das vezes tem razões culturais.

Quais são as perspectivas para o médio e longo prazo?

No médio prazo temos que fazer com que a tecnologia agrícola deixe de ser a “ferramenta do agrônomo” e passe ser a ferramenta de trabalho de toda equipe da fazenda. As decisões do dia a dia devem ser feitas baseadas em dados. Também temos o desafio de fazer com que as rotinas de trabalho sigam alimentando as bases de dados. Desta forma, teremos uma gestão integrada, dos processos de campo, decisões agronômicas, atividades comerciais, tudo integrado e interligado.

Além da tecnologia, esta visão tem um importante componente cultural. Mudar uma forma de trabalho não depende só de comprar um pacote de tecnologias. Tem que ter uma evolução de mentalidade. Por isto, a participação cada vez maior de uma nova geração de gestores rurais, já conectados e acostumados a usarem a tecnologia na sua rotina é parte importante neste processo.

No longo prazo devemos ver uma automação cada vez maior dos processos, com sistemas, softwares e algoritmos tomando partes progressivamente maiores nas decisões da fazenda. Em paralelo a isto, processos que hoje são mecanizados, gradualmente devem ser robotizados. Muito do que hoje vemos em feiras, trabalhos acadêmicos, deve virar realidade e mudar o panorama do campo nas próximas décadas.

Como a prometida conectividade no campo deve alterar a agricultura no Brasil?

É muito importante para novas ferramentas e agilidade no tráfego de informações. Temos que entender que muitas tecnologias a conectividade vai facilitar. Mas no curto prazo, tudo que se consegue com conectividade já é possível com formas alternativas e menos automatizadas. Ao invés da máquina no campo transmitir a informação durante o trabalho para o escritório, no final do turno o operador tem que pegar um pendrive e levar no escritório. É um processo muito menos prático e sujeito a erros, mas a informação para a tomada da decisão está lá. Em grandes áreas e grande escala, só vamos conseguir ter dados confiáveis com a conectividade. Mas na média escala, conseguimos ter este dado.

Em um segundo momento, com a conectividade no campo não sendo mais um limitante, podemos ver novas tecnologias ajudando o produtor que ainda não vislumbramos hoje. Quando internet chegou aos computadores mudou muitas rotinas nos escritórios e casas que eram difíceis de prever. Depois, quando chegou aos celulares e dispositivos móveis, tivemos novas revoluções também difíceis de imaginar antecipadamente. Com o campo podemos ter algo parecido. Temos algumas funções iniciais que a conectividade vai facilitar. Mas o que mais a tecnologia vai mudar, é difícil de prever.

Que soluções da Falker destaca, e que novidades vem por aí? 

A Falker possui diferentes tecnologias para diferentes momentos na adoção da tecnologia pelos consultores e produtores. Possuímos equipamentos para o mapeamento da fertilidade, como amostradores e GPS que permitem o início da implantação da AP baseada na fertilidade. Para quem já domina este ciclo, possuímos equipamentos para um mapeamento de variabilidade em alta densidade de dados, com tecnologias como mapeamento de condutividade elétrica do solo e mapeamento ativo de NDVI da lavoura.

Além do mapeamento, possuímos equipamentos que permitem identificar áreas compactadas na lavoura, níveis de absorção de nutrientes pela medição da clorofila nas folhas e ferramentas para controle de irrigação.

Pela frente vemos uma integração cada vez maior dos dados das diferentes fontes e sensores, para facilitar o trabalho com cada vez mais informações. Possuindo a mais completa linha para coleta de dados para agricultura de precisão e digital, trabalhamos para que as camadas de dados trabalhem cada vez melhor integradas e com facilidade e agilidade no processamento dessas informações.

Fonte AGROLINK