2018: o ano sem surpresas…

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RicoThom (CC0), Pixabay

por Leandro Bovo

Médico veterinário, pós-graduado pela ESPM, MBA em finanças pelo Insper-SP e sócio diretor da Radar Investimentos

Se 2017 foi um dos anos mais tumultuados da história da pecuária, 2018 vai ser lembrado como um ano de calmaria, onde nada de muito relevante afetou os prognósticos traçados desde o começo do ano. Sem nenhum acontecimento de grande relevância, a dinâmica seguiu a expectativa ditada pelo clima e seus efeitos nas pastagens, demanda interna fraca, devido ao desemprego, e mercado externo mais aquecido na esteira da alta do dólar.

 

O ano começou com preços ao redor de R$148,00/@, à vista, livre de Funrural, em São Paulo e a safra foi seguindo seu curso normalmente, com o aumento da oferta pesando negativamente nos preços até a tradicional “desova de fim de safra”, que em 2018 aconteceu em meados de junho, e trouxe os preços para a mínima de R$137,50/@ à vista, livre de Funrural em São Paulo. O destaque da safra foi Mato Grosso do Sul, com sua exuberante produção de bois a pasto, onde as boas chuvas e o aumento da oferta de fêmeas tiveram forte impacto negativo nos preços, aumentando o diferencial de base para São Paulo para níveis recordes. Na direção contraria a essa, o destaque positivo na safra ficou com Mato Grosso, que vem se consolidando cada vez mais como um grande fornecedor de bois confinados no segundo semestre, ficando a safra inteira com o diferencial de base bastante fechado para São Paulo.

 

Com relação ao mercado futuro, 2018 foi um ano com boas oportunidades de fixação de preço, já que a curva de preços em diversos momentos trabalhou acima dos que foram efetivamente negociados no mercado físico no período, porém, a volatilidade foi baixa com relação ao padrão histórico, de modo que não houve grandes distorções que puderam ser capturadas ao longo do ano.

 

Após mais de quatro anos com os preços no mercado físico de São Paulo praticamente balizados entre R$145,00/@ e R$155,00/@, com poucas exceções acima ou abaixo dessa banda, há uma grande expectativa sobre quando poderá ocorrer alguma mudança de patamar de preços, se em 2019, 2020 ou ainda mais adiante. Obviamente que antecipar movimentos dessa natureza é bastante difícil, mas essas viradas costumam ser acompanhadas de maior volatilidade, tanto no mercado físico como no mercado futuro, o que gera distorções e oportunidades de fixação de preços.

 

Dentre os diversos fatores que determinarão quando e com que intensidade ocorrerá essa mudança de preços, destacam-se as variáveis a seguir: demanda interna, demanda externa e diminuição do abate de fêmeas.

 

Dessas três, apenas a demanda externa mostra sinais concretos de que jogará a favor. A demanda interna provavelmente irá parar de piorar, mas é cedo para contar com aumento significativo no poder de compra da população. No caso do abate de fêmeas o percentual de 2018 foi em linha com os maiores da história e é adequado imaginar alguma diminuição, mesmo que pequena, o que corrobora com a expectativa altista do mercado futuro atual.

 

A safra de capim para 2019 teve um começo bastante promissor, com boas chuvas nas principais regiões produtoras e reposição com preços em alta. Se essa tendência de mercado mais firme ganhar força no início do ano, muito provavelmente toda a curva de preços futuros também responderá com altas e aí surgem boas oportunidades de fixação de preços, ou garantia de preço mínimo a custos interessantes.

 

Outra fonte de boas expectativas é a safra de grãos de 2019 cujos prognósticos são bastante positivos em termos de área plantada e produtividade e, salvo algum problema climático de última hora, a safra será grande e esse item do custo de produção ficará mais comportado.

 

Além da atenção ao mercado futuro para aproveitar eventuais oportunidades, é muito importante ter cabeça fria na negociação da reposição e tentar não ser contaminado pela eventual euforia, já que comprar bezerro, ou garrote contando com uma virada de preços do boi gordo, que ainda não aconteceu, pode trazer enorme dificuldade para rentabilizar a operação. Tendo esse cuidado em mente, o ano de 2019 se desenha como um possível início de recuperação de preços mais sustentados para a pecuária. Para quem atua apenas na fase de engorda, fica a torcida para a reposição não ficar com a maior parte dessa possível melhora.

Fonte: www.scotconsultoria.com.br/noticias