Sanitário

Verminose – remédio sem efeito

A verminose dos animais domésticos constitui um grande problema sanitário e econômico para a pecuária nacional.

Nos bovinos de corte em criação extensiva, a doença se acentua principalmente após o desmame dos terneiros (bezerros), tanto no desmame tradicional de outono, (6 a 8 meses), como também no desmame precoce dos animais com 60 a 90 dias de idade. Quando os bovinos atingem 24 a 30 meses de idade geralmente tornam-se resistentes e/ou imunes aos parasitos internos.

Com relação a mortes por verminose em terneiros desmamados e não submetidos ao controle desta parasitose, o índice situa-se entre 10 e 30%; já o ganho de peso (kg) de terneiros submetidos ao controle dos parasitos internos, em comparação aos animais sem controle, pode alcançar até 50 kg/cabeça. Deve-se considerar também como muito importante a redução do tempo para os machos atingirem o peso de abate e as novilhas estarem aptas quanto ao desenvolvimento corporal para o início do primeiro serviço da reprodução.

Os fatores climáticos e de manejo estão diretamente correlacionados com a verminose dos bovinos.

Fatores climáticos

Nestes fatores estão incluídos, principalmente, a temperatura e a umidade relativa. A temperatura ótima para o desenvolvimento máximo de larvas no menor tempo possível em geral está na faixa de 18 a 26oC.

Em temperaturas muito altas, o desenvolvimento é mais rápido, mas há uma grande mortalidade de larvas e de tal maneira que poucas chegarão à condição de larva infectante (L3). É o que ocorre normalmente durante as secas prolongadas. Entretanto, chuvas pesadas geralmente ocasionam uma grande liberação de larvas do bolo fecal, aumentando a possibilidade de os animais jovens adquirirem uma alta infecção em curto período de tempo.

Influência do manejo

Com relação ao manejo dos animais, devem ser considerados a taxa de lotação e o nível de contaminação das pastagens. Quando o número de animais/área é elevado, a forragem é geralmente consumida até próximo ao solo, proporcionando uma ingestão de maior número de larvas junto com a pastagem. Com alta lotação, uma grande quantidade de fezes é depositada no solo e, como conseqüência, a contaminação do potreiro será elevada.

Contaminação do pasto

Potreiros utilizados permanentemente com a categoria de animais jovens (terneiros desmamados) e, portanto, muito sensíveis à verminose, apresentam níveis maiores de contaminação. A aplicação de anti-helmínticos isoladamente, se o rebanho permanecer em pastagens muito contaminadas, favorece a reinfecção e o número de parasitos internos pode retornar com níveis semelhantes aos que existiam antes do tratamento. Por outro lado, os campos manejados com animais adultos ou em áreas utilizadas previamente com agricultura (restevas) apresentam níveis reduzidos de larvas. Desta forma, sempre que possível os animais deverão ser colocados em potreiros com baixo nível de contaminação, após a dosificação.

Resistência

Lamentavelmente já foi detectada resistência anti-helmíntica em bovinos no Rio Grande do Sul. Trabalhos da pesquisa demonstraram que 20% dos rebanhos gaúchos podem não estar respondendo aos vermifugos atualmente usados, incluíndo o grupo das ivermectinas. Por esta razão, assim como é feito em ovinos, seria muito importante o monitoramento anual dos rebanhos através de testes laboratoriais para determinação dos produtos que ainda podem ser utilizados num determinado estabelecimento. Para este teste precisamos um intervalo mínimo de 60 dias após o último tratamento anti-helmíntico. Esta avaliação é relativamente simples e consiste na dosificação de grupos de terneiros com distintos grupos químicos. Por exemplo, 10 terneiros medicados com ivermectina, 10 com um benzimidazol, 10 com levamisole e outros 10 terneiros sem tratamento. Após um período de 10-12 dias, fezes são coletadas individualmente e submetidas à contagem de ovos e cultura de larvas infectantes para determinação da eficácia e identificação de eventuais parasitos sobreviventes ao tratamento. O Laboratório de Parasitologia da Embrapa Pecuária Sul em Bagé (RS) está disponível para a execução deste tipo de avaliação.

É de fundamental importância no uso correto dos anti-helmínticos, seguindo as instruções do fabricante, atender aos períodos de carência para carne e leite, bem como estimar corretamente o peso dos animais a serem medicados.

Tendo por base trabalhos de pesquisa, algumas recomendações para o controle da verminose dos bovinos têm sido indicadas principalmente nas seguintes categorias de animais:

• Terneiros nascidos na primavera;
• Terneiros nascidos no verão e outono;
• Terneiros com desmame precoce de 60-90 dias de idade;
• Novilhas primíparas.

Primavera

Os terneiros nascidos na primavera geralmente são desmamados no outono, sendo este o sistema de produção mais utilizado pela grande maioria dos produtores de gado de corte no Rio Grande do Sul. Para esta categoria de animais tem sido recomendado o seguinte programa de controle estratégico da verminose (Tabela 1 –
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Observa-se pela Tabela 1 que no período de vida do animal que vai do desmame aos dois anos de idade, os animais recebem um total de oito tratamentos, sendo quatro com anti-helmínticos convencionais e quatro com medicamentos avançados. Os produtos convencionais e avançados são usados de acordo com a época e/ou meses do ano, para controlar o tipo de infecção que normalmente ocorre nesse período. São convencionais os anti-helmínticos de largo espectro que possuem atividade em parasitos adultos e formas jovens a nível de mucosa. Os anti-helmínticos avançados (geralmente de maior custo) também são de largo espectro e possuem eficácia não só em vermes adultos, mas, principalmente, em formas jovens inibidas (hipobiose). Este tipo de infecção (Ostertagia em hipobiose) ocorre sempre no Rio Grande do Sul, no Uruguai e na Argentina na primavera. Os princípios ativos dos anti-helmínticos indicados para bovinos bem como a dose (mg/kg de peso vivo) recomendada constam na Tabela 2; na Tabela 3 são encontrados os nomes comerciais dos anti-helmínticos usados em bovinos no Rio Grande do Sul.

Observa-se na Tabela 2 que o levamisole, independente da dose utilizada (3,75 – 5 mg/kg), será sempre um produto convencional. Já os outros produtos somente deverão ser utilizados na primavera com as doses recomendadas na Tabela 2 para anti-helmínticos avançados, pois com doses inferiores terão apenas eficácia similar a produtos convencionais. Em outras palavras, com esta subdose não se vai combater o tipo de infecção que está presente nos animais neste momento. Como conseqüência, poderemos ter surtos parasitários no fim do verão e outono. Nestas condições, poderão ocorrer até elevadas perdas por mortes causadas por verminose nos animais de sobreano e que, antes destes estudos, eram erradamente atribuídas à “mudança de dentes” dos animais.

De uma forma geral, quando os animais são padronizados por idade ou por categoria, deve-se tomar como base para cálculo de dose/kg de peso corporal os bovinos mais pesados.

Deve-se ressaltar que, quando se tratar de animais jovens manejados em pastagem cultivada com lotação elevada, as medicações poderão ser efetuadas com intervalos mais curtos, e sempre que possível efetuar um monitoramento através de exames de laboratório e assistência e/ou consultoria por técnico especializado. Em produção intensiva de terneiros em pastagem cultivada com alta lotação, poderá ser utilizada uma amostragem de 10 animais que são tratados mensalmente. Quando o ganho de peso destes animais for bem superior ao do resto do lote tratado estrategicamente, deve-se imediatamente medicar todos animais componentes do lote. Geralmente o controle estratégico, aliado a algum tratamento adicional pelo monitoramento, é suficiente para o controle adequado da verminose dos bovinos.

O controle adequado das parasitoses (interna e externa), aliado a outros fatores básicos na produção de bovinos (lotação adequada e mineralização permanente), tem proporcionado a obtenção de novilhos com até 30 meses de idade e com peso corporal superior a 450 kg exclusivamente em campo natural. Em se tratando de fêmeas 7que o benefício do controle influi positivamente num maior número de novilhas para a reposição do estoque de ventres.

Verão e no outono

Os terneiros nascidos no final do verão e outono são parasitados principalmente por espécies de vermes dos gêneros Haemonchus e Cooperia. Estes parasitos apresentam um ciclo evolutivo muito curto, de duas a três semanas, ocasionando, em pouco tempo, uma alta contaminação do meio ambiente. Neste período não se recomenda a utilização de produtos à base de benzimidazole (albendazole, oxfendazole e fenbendazole), pois já tem ocorrido até mortes de animais desta categoria pelo uso exclusivo destes produtos nesta época do ano. Trabalhos de pesquisa conduzidos pela Embrapa Pecuária Sul demonstram que estes terneiros, já aos 90 dias de idade, apresentam níveis parasitários, sendo, então, recomendada a primeira medicação anti-helmíntica. Conforme o tipo de parasitismo, poderão ser utilizados produtos convencionais (levamisole e/ou tetramisole) e, em determinados casos, o uso de produtos específicos como os à base de closantel para o controle do Haemonchus. Quando houver necessidade de se combater simultaneamente o carrapato e a verminose, os endectocidas à base de ivermectina ou doramectina deverão ser os produtos de eleição. Produtos à base de abamectina não deverão ser utilizados em terneiros com idade inferior a 4 meses.

O intervalo entre os tratamentos anti-helmínticos (Tabela 4) nesta categoria de animais geralmente manejados em campo natural (contaminados) deverá ser em torno de 60 dias, até os animais serem desmamados na primavera. A partir do desmame, esta categoria de terneiros deverá ser submetida ao mesmo controle parasitológico indicado para os animais nascidos na primavera e desmamados no outono, como indicado na Tabela 1.

Desmame precoce

Atualmente, vem sendo preconizado o desmame precoce de terneiros de gado de corte desmamados com 60 a 90 dias de idade, cujo objetivo principal é o de elevar a repetição de cria da vaca. As observações efetuadas na Embrapa Pecuária Sul demonstram que estes terneiros tornam-se altamente sensíveis à verminose; exames de laboratório demonstram que o intervalo entre as medicações, mesmo com produtos endectocidas, não deverá ser superior a 45 – 60 dias (Tabela 5) até os animais atingirem um peso igual ou superior a 140 kg, quando já terão capacidade de se manterem sem suplementação em campo natural. Após alcançarem este peso corporal, poderão ser submetidos ao controle parasitológico preconizado para os terneiros nascidos na primavera e desmamados no outono. Para o controle simultâneo da verminose e das ectoparasitoses (carrapato, berne, etc.) deverá ser utilizado um produto endectocida. Não esquecer que para terneiros com menos de quatro meses, não é recomendada a aplicação de endectocida à base abamectina.

Novilhas primíparas

A Embrapa Pecuária Sul desenvolveu pesquisas com relação à verminose em novilhas primíparas acasaladas aos dois e três anos de idade. Os trabalhos evidenciaram que esta categoria animal está sujeita a elevados índices de parasitoses no pós-parto, inclusive com animais apresentando sintomas clínicos e mesmo mortalidade por parasitos internos. Os animais apresentam a doença clínica no verão e outono, mas a infecção é adquirida principalmente na primavera. O benefício alcançado com o controle desta parasitose é, em média, superior a 15 kg/cabeça, sendo que os seus terneiros também apresentaram pesos superiores a 10 kg/cabeça, provavelmente devido a uma maior produção de leite materno, mesmo sem medicação anti-helmíntica até o desmame. O controle desta parasitose deverá ser feito com uma medicação na primavera (novembro) e outra no verão (fevereiro) com anti-helmínticos avançados. Quando forem utilizados produtos endectocidas (ivermectin, abamectin, doramectin e moxidectin) serão controlados, simultaneamente, a primeira geração do carrapato (B. microplus), que ocorre no mês de novembro e a segunda, no mês de fevereiro (Tabela 6).

Alguns produtores, após as novilhas primíparas darem cria na primavera, colocam os animais em pastagem cultivada. Neste caso, recomenda-se uma medicação anti-helmíntica com 10 produtos avançados antes de as mesmas serem alocadas em pastagem cultivada.

Alfredo Pinheiro, Flavio Echevarria e Fernando Severo
Embrapa Pecuária Sul

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=130