Sanitário

Vaca Louca redesenha mercado de carne bovina

20/05/2014

Embargo do Egito, Argélia e Irã à carne produzida no Mato Grosso, onde um caso atípico da doença foi registrado, deve transferir negócios para outros estados

A restrição de compra da carne bovina brasileira por causa do caso atípico de encefalopatia espongiforme bovina, popularmente conhecida como doença da vaca louca, não deve interferir nas exportações do produto neste ano. A expectativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é de que os negócios se mantenham no mesmo patamar de 2013 – 1,5 milhão de toneladas – ou até mesmo cresçam. Até o momento, quatro países anunciaram embargo, sendo três (Egito, Argélia e Irã) apenas ao Mato Grosso, onde foi identificado o caso, e um (Peru) a todo o território nacional por 180 dias.

“Já tivemos um caso atípico em 2012 no Paraná e, após um ano, batemos o recorde de US$ 6,6 milhões em negócios”, destaca Jorge Lopes, chefe da comunicação do Mapa. Na ocasião, um animal de 13 anos de idade morreu na cidade de Sertanópolis, Norte do estado, e as amostras analisadas indicaram a presença da proteína príon, agente do mal da vaca louca. Por conta disso, vários países deixaram de comprar carne do Brasil, como Japão, China, Peru, Líbano, Coréia do Sul, Arábia Saudita, África do Sul, Ilha de Taiwan, Jordânia e Chile.

Para que a situação não se repita, uma missão formada por técnicos do Mapa desembarca hoje no Peru para uma visita de reaproximação e segue para o Egito na quinta-feira. O governo brasileiro também tentar agendar visitas no Irã e Argélia, ainda sem data confirmada. Oficialmente, as duas nações não emitiram comunicado de embargo, porém as empresas que exportam carne bovina afirmam que estão sofrendo restrições. Além disso, o Ministério afirma ter enviado a todos os seus parceiros comerciais um dossiê com a documentação sobre os cuidados sanitários envolvendo produção de carne bovina.

Importância

Egito, Irã e Argélia são grandes compradores do produto brasileiro e ocuparam, respectivamente, quarta, sexta e 11.º posição do ranking de maiores importadores de carne bovina in natura do Brasil em 2013, de acordo o Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados (Sindicarne). No total 218 mil toneladas foram exportadas para os três países no ano passado.

A situação é semelhante no Mato Grosso. De acordo com dados do Sindicato das Indústrias de Frigoríficos do Estado de Mato Grosso (Sindifrigo), o trio, juntos, adquiriu 54,1 mil toneladas do produto mato-grossense no ano passado, gerando US$ 204,1 milhões em negócios (17% da receita do setor).

A expectativa é que outros estados como o Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul preencham a lacuna aberta. “O cliente vai procurar aqui dentro do Brasil mesmo”, afirma Péricles Salazar, presidente do Sindicarne. “[Os três países] vão redirecionar para outros estados”, acrescenta Lopes, do Mapa.

O Peru, por sua vez, não figura entre os principais compradores. No ano passado, as importações do país representam apenas 0,1% das exportações brasileiras, sendo miúdos o item mais vendido.

PR se articula para assumir lacuna

A indústria paranaense projeta elevar os negócios em função do caso atípico da vaca louca no Mato Grosso. Com o embargo de três países à carne mato-grossense, as empresas do estado se articulam para ocupar mais espaço no mercado internacional. Com a retomada dos negócios com a Rússia, a projeção inicial era de que o Paraná exportaria mais de 38 mil toneladas neste ano, marca não alcançada desde 2005. O setor ainda não renovou suas estimativas após os anúncios de embargo, mas afirma que as plantas exportadoras paranaenses podem ser beneficiadas. “Temos capacidade para assumir demanda extra de novos pedidos”, garante Péricles Salazar, presidente do Sindicarne-PR.

Apesar de modesto, o Paraná já tem histórico de negócios com os três países, o que poderia facilitar a ampliação das remessas. O Egito adquiriu 558 toneladas no ano passado, enquanto a Argélia 475 toneladas. O Irã era o segundo maior importador da carne bovina paranaense até 2012 (1,6 mil toneladas), quando deixou de comprar do estado.

O fato de o Paraná tentar alcançar o status de área livre sem vacinação em 2015 e o recém-aberto o concurso para dois órgãos estaduais de fiscalização pesam a favor do estado.

Nova aposta

O frigorífico Astra, de Cruzeiro d’Oeste (Noroeste), trabalha nos bastidores para assumir parte dos negócios mato-grossenses. A empresa planeja otimizar a planta após investimento de R$ 35 milhões nos últimos quatro anos. “Temos capacidade imediata para atender [novos contratos]. Hoje enviamos 45 contêineres/mês para o exterior [cada um com 27 toneladas de carne], mas temos capacidade de chegar a 70 contêineres/mês”, aponta Carlos Cati, executivo do Astra.

Apesar do Egito já estar na carteira de clientes, o que facilitaria as negociações, o frigorífico está mesmo de olho no mercado iraniano, em função da boa remuneração. O país muçulmano paga US$ 5,3 mil por tonelada de carne, enquanto a nação africana remunera a empresa paranaense em US$ 3,9 mil/t. A Rússia, que habilitou a planta paranaense em fevereiro, paga em média US$ 4,5 mil/t.

Fonte: Gazeta do Povo Online
Autor: Carlos Guimarães Filho