Uso de microtratores no manejo florestal comunitário

Uso de microtratores no manejo florestal comunitário

 

25/03/2013 às 18:19

Dado o pioneirismo, o desenvolvimento de sistemas produtivos, o expressivo número de planos em execução e o bom nível organizacional, com destaque à atuação de uma cooperativa florestal comunitária, o Estado do Acre é considerado uma referência para o manejo florestal comunitário na Amazônia. O avanço dessa atividade no Acre, que também é notado em toda a região Amazônica, deve-se às políticas públicas de incentivo, que incluem a oferta de recursos financeiros e apoio de instituições vinculadas ao segmento. No Acre, são exemplos de instituições apoiadoras a Secretaria de Desenvolvimento Florestal, Indústria, Comércio e Serviços Sustentáveis (Sedens), Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA) e Embrapa Acre.

O manejo florestal é inerentemente uma atividade de longo prazo em que a rotação (tempo necessário para que a floresta, após uma colheita, esteja restabelecida para uma nova colheita) recomendada é de, no mínimo, 30 anos. Em 1995, portanto, há 18 anos, a Embrapa Acre iniciou o desenvolvimento de um sistema produtivo de manejo florestal comunitário no Projeto de Colonização Pedro Peixoto, Município de Senador Guiomard, AC. Nesse sistema, em que os métodos são simplificados e adaptados a produtores rurais de baixa renda, foi recentemente testado o uso de microtratores em substituição aos animais de carga (bois), até então utilizados no transporte da madeira processada nas operações de manejo. Essa modificação visou, sobretudo, aumentar a eficiência produtiva, reduzindo o tempo (dias) de colheita e a mão de obra necessária.

Em comparação aos animais, o microtrator, que opera acoplado a uma pequena carreta (reboque) na qual é colocada a madeira, mostrou-se vantajoso nos aspectos técnicos (desempenho e produtividade) e nivelado nos aspectos econômicos, principalmente em relação aos custos e rentabilidade.
Entre os aspectos técnicos observados nos testes operacionais com o microtrator, citam-se: fácil manuseio e manutenção; capacidade de carga ótima entre 0,70 m3 e 0,80 m3 (770 kg e 880 kg), acima disso, há perda da estabilidade e força de tração; consumo médio diário de combustível (diesel) de sete a oito litros (jornada de 8 horas); velocidade média de deslocamento a plena carga de 6 km/h (similar à passada humana); produtividade média (volume de madeira transportado ao dia) de 4 m3  à distância de 1.200 m, acima do dobro da alcançada pelos animais; e impacto sobre a floresta (principalmente quanto à área alterada pelas trilhas) similar ao produzido pelos animais.

Em relação aos aspectos econômicos observados, tem-se: os custos operacionais da colheita com o microtrator e serraria portátil (processamento da madeira) foram quase iguais (cerca de R$ 115,00 por m3 de madeira em tora) aos da colheita com os animais e motosserras (processamento da madeira), entretanto, com produtividade acima do dobro, visto que a colheita com o microtrator e serraria portátil foi realizada em 15 dias e colheita com animais e motosserras em 34 dias, sendo a mão de obra necessária reduzida na mesma proporção; o lucro líquido estimado do sistema com microtrator e serraria portátil foi ligeiramente menor (cerca de 2%) do que o sistema com os animais e motosserras (R$ 3.092,04 contra R$ 3.159,36 por propriedade ao ano); e o investimento financeiro inicial médio por propriedade para o manejo com microtrator e serraria portátil é de R$ 15.980,00 e para o manejo com animais e motosserras é de R$ 3.170,00, cerca da quinta parte.

Os resultados obtidos apontam para a viabilidade técnica e econômica do uso do microtrator no manejo florestal comunitário. Além de acessível aos produtores florestais de baixa renda, esse equipamento é de grande versatilidade e pode ser utilizado em outras atividades da propriedade rural, a exemplos de arar o solo, roçar áreas agrícolas e pastos, gerar energia (acoplado a um gerador), transportar cargas, etc. Embora com restrições quanto à produtividade, o modelo de manejo que utiliza animais e motosserras não deve ser descartado, visto possuir importantes vantagens, a exemplos do baixo investimento inicial e do benefício social, pois utiliza mais e, portanto, melhor remunera a mão de obra familiar.

Henrique José Borges de Araújo é engenheiro florestal, M.Sc. em Ciências Florestais, pesquisador da Embrapa Acre, henrique.araujo@embrapa.br

Fonte:  Henrique José Borges – agrodebate.com.br