Pecuária

Uréia viável

Na suplementação de ruminantes, além dos minerais, também devemos nos preocupar em fornecer uma suplementação alimentar que favoreça ou restabeleça a atividade fermentativa dos microorganismos ruminais. Nesse aspecto, destaca-se a suplementação com nitrogênio para a síntese protéica, protagonizada pelos microorganismos ruminais. Essa síntese resulta em proteína microbiana. A proteína microbiana segue, então, dois caminhos. O primeiro é a formação de enzimas responsáveis pela quebra dos carboidratos estruturais do capim (volumoso) ingerido. O organismo dos ruminantes não produz enzimas com essa capacidade. Por isso, a dependência do animal em prover condições adequadas para o desenvolvimento dos microorganismos. O resultado da ação enzimática sobre a celulose, hemicelulose e pectina (carboidratos estruturais) é a produção de ácidos graxos voláteis (AGVs). Os AGVs são então absorvidos e seguem o metabolismo da glicose e dos lipídeos no organismo animal.

O segundo caminho seguido pela proteína microbiana é a digestão da bactéria pelas enzimas digestivas do ruminante, quando os microorganismos seguem o curso no trato digestivo. Com relação à digestibilidade da massa microbiana no intestino, o AFRC (Agricultural and Food Research Council) revisou os valores e organizou oito tabelas, mostrando a confluência dos dados de diversos países, adotando o valor de 80% de digestibilidade da matéria seca da massa microbiana (AFRC, 1992).

O estudo do metabolismo da proteína tem importância destacada pelas características dos alimentos, tanto volumosos como concentrados, disponíveis no Brasil para a alimentação de bovinos. Norlan (1993) observou que a síntese de aminoácidos (AA) pelos microorganismos do rúmen inclui os AA normalmente considerados essenciais para os tecidos de mamíferos. Vários microorganismos do rúmen sintetizam esses aminoácidos a partir de compostos simples de carbono e de nitrogênio não-protéico (NNP) dietético ou endógeno. Os AA são disponibilizados para o organismo animal após a digestão dos microorganismos no intestino delgado. Os microorganismos se desenvolvem no rúmen mesmo quando a dieta não possui proteína verdadeira. No entanto, a reciclagem de nitrogênio não é suficiente para o efetivo crescimento microbiano, quando a dieta é deficiente em nitrogênio. A literatura nesta área é vasta, indicando que em dietas animais com forragem de baixa proteína a suplementação com uréia ou outra forma de NNP resulta em maior crescimento microbiano e maior ação digestiva. Em contraste, quando a dieta animal contém alta proteína verdadeira, oriunda de pastagens melhoradas, o NNP pode ser menos eficientemente utilizado.

A maior parte da proteína no rúmen é hidrolisada em oligopeptídeos pela protease extracelular microbiana, como também em peptídeos e AA. Esses AA podem ser incorporados na proteína microbiana, ou ser desaminados intracelularmente para vários ácidos graxos ou N-NH3. O N-NH3 é disponibilizado para assimilação e nova síntese protéica nos microorganismos. Entretanto, quando a dieta é composta por proteína de alta degradabilidade, o excesso de N-NH3 é absorvido através da parede do trato digestivo, convertido em uréia no fígado, podendo em seguida ser excretado na urina ou reciclado via saliva para o rúmen.

Para que a atividade de síntese de proteína microbiana se viabilize, os níveis de N-NH3 no rúmen devem ser adequados. Preconiza-se que a concentração mínima de N-NH3 deve ser de 5 mg de N-NH3/100ml de líquido ruminal (Satter & Roffler, 1979) e que a máxima síntese microbiana é obtida no nível de 23 mg de N-NH3/100ml de líquido ruminal (Mehrez & Orskov,1976). As pesquisas conduzidas por estes pesquisadores comprovaram o que os pecuaristas já haviam observado na prática, ou seja, quando o capim seca e a proteína apresenta níveis de 3 a 5% na forragem seca, a atividade ruminal atinge níveis críticos, resultando em perda de peso ou até mesmo na morte de animais.

A partir destas constatações, o meio científico passou a buscar soluções práticas, técnicas e econômicas para o problema. Entre as alternativas para o restabelecimento dos níveis adequados de nitrogênio no rúmen estão o uso de fontes de nitrogênio não protéico (NNP) e a utilização de produtos orgânicos como farinhas e farelos.

O uso de fontes protéicas de origem animal, como as farinhas de sangue e carne, foi proibido pelo Ministério da Agricultura através da Portaria nª 290 de 16/07/1997, após o surgimento da Encefalopatia Espongiforme Bovina, popularmente conhecida como o “mal da vaca louca”. Outra alternativa seria o uso de farelos, como os de soja, algodão, girassol e subprodutos do milho, no entanto os preços de mercado podem inviabilizar sua utilização. A terceira opção é o uso de fontes de nitrogênio não-protéico (NNP), sendo a uréia a fonte mais comumente utilizada. As dificuldades em se utilizar esta fonte incluem dois aspectos: eficiência na síntese protéica e riscos de intoxicação.

No mercado, temos disponíveis para uso na alimentação animal a uréia pecuária, a uréia extrusada e a uréia encapsulada. Todas estas fontes de NNP requerem adaptação para poderem ser utilizadas na alimentação animal. Dados da literatura demonstram que a uréia apresenta riscos de intoxicação quando administrada em níveis superiores a 0,50 g/kg de peso vivo. O resultado da intoxicação não é devido essencialmente à forma química da uréia, porém à velocidade de absorção do N-NH3 pela parede do rúmen.

A absorção de N-NH3 pela parede do rúmen é um processo fisiológico que tem como função promover a reciclagem de NNP. Esta reciclagem é feita através do ciclo da uréia no fígado que, nos ruminantes, pode conduzir a uréia para eliminação renal ou enviá-la para o rúmen via saliva. Casos de intoxicação têm sido relatados somente quando as quantidades de N-NH3 no sangue atingem níveis de 1 a 4 mg/100ml (Helmer & Bartley, 1971). Portanto, ao bloquearmos a absorção de N-NH3 pela parede ruminal favorecemos sua disponibilidade para a síntese protéica dos microorganismos, ao mesmo tempo em que reduzimos os riscos de intoxicação dos animais.

Seguindo este raciocínio, diversas pesquisas foram conduzidas. Bartley & Deyoe (1975) desenvolveram a starea – que no Brasil recebeu a denominação de amiréia (Teixeira, 1984) – que consiste em gelatinizar o amido através da técnica de extrusão, envolvendo fisicamente a uréia com amido. Os resultados de experimentos de campo com amiréia têm sido satisfatórios, porém o conflito permanente com esta tecnologia é o equipamento necessário para obter a gelatinização do amido. Isto porque no Brasil temos a necessidade de incorporar altos níveis de uréia no processo para viabilizar seu uso nas formulações. A uréia impede a obtenção de altas temperaturas (100oC) no equipamento e este aumento da temperatura constitui um dos principais fatores para a gelatinização do amido. Em outras palavras, nem tudo que passa pela extrusora está extrusado. Este tipo de produto, na verdade, garante o aporte de carboidratos para otimizar a síntese de proteína microbiana, o que leva a um seqüestro imediato da amônia no rúmen, reduzindo a
ssim os riscos de intoxicação. Em geral dietas e/ou suplementos formulados de forma adequada com carboidratos de diferentes degradabilidades, onde haja sincronia entre a degradação das diferentes fontes de proteína, resultam em resultados semelhantes ou melhores em comparação à amiréia.

Outras alternativas foram testadas, como a proteção da uréia com formaldeído (Prokop & Klopfenstein, 1977) ou com óleo (Farero, 1980), porém estas não apresentaram viabilidade prática.

Recentemente, têm sido utilizados polímeros que permitem o encapsulamento da uréia, o Opigen2000. Este encapsulamento protege a uréia contra a degradação imediata no ambiente ruminal, fazendo com que o N-NH3 seja liberado de forma lenta e constante para os microorganismos e permitindo uma maior sincronização com o carboidrato oriundo da degradação da fibra. Este mecanismo tem sido comprovado através de diversas pesquisas científicas. Outras vantagens seriam o menor custo de produção e a viabilidade de inclusão nas formulações em suplemento mineral com uréia, suplemento mineral protéico para seca e suplemento mineral protéico para águas. Isto é possível porque nesta tecnologia a uréia não é “diluída”, como ocorre com a amiréia.

Reginaldo Nassar Ferreira
Universidade Federal de Goiás

Fonte: http://grupocultivar.com.br/site/content/artigos/artigos.php?id=142