Milho

Uma boa aposta, mas contabilizada ao cêntimo

Emília Freire

20 de Dezembro – 2010

O milho continua a ser uma cultura rentável, apesar da queda dos preços, mas sempre com um bom planeamento e o controlo total de custos. Para aproveitar bem a água de Alqueva, o milho para grits pode ser também uma boa hipótese de segunda cultura, mas aí é mesmo preciso “pôr todo o pessoal a correr”.

Os perímetros de rega criados no baixo Alentejo pelo empreendimento de fins múltiplos de Alqueva trou-xeram novas opções aos agricultores da região e a cultura do milho, devido à sua produtividade e ren-tabilidade, está muitas vezes na balança. Mas as possibilidades são várias: falámos com dois produtores que, embora de formas diferentes, incluíram o milho nas suas escolhas e esperam resultados positivos.

João Guiomar há cinco anos que faz cerca de 80 hectares de milho em três pivots, um com 40 hectares e dois com cerca de 20 hectares cada, na sua exploração em Ferreira do Alentejo. “Mas já fazia milho antes, logo desde que comecei a usar a água de Alqueva, da infra-estrutrura 12”, afirma o agricultor. “É uma cultura rentável, embora menos agora porque os preços desceram bastante nos últimos anos. Por isso, tudo tem de ser contabilizado e planeado”, salienta.

E António Vieira Lima, de Cuba, decidiu este ano fazer milho como segunda cultura, pela primeira vez, “depois da catástrofe que foram os cereais de Inverno…”, diz-nos. Mas garante que “esta ‘aventura’ só é possível por ser milho para grits, ou seja para consumo humano, e através de um compromisso com a Agrobeja, em que embora o preço final ainda não esteja garantido, sabe-se à partida que será entre 50 a 80?€/t acima do valor de mercado”. São 150 hectares, cinco pivots, que anteriormente tiveram trigo (dois) e cevada (três).

Este milho para consumo humano tem de estar livre de Organismos Geneticamente Modificados (OGM) e “nós, como estamos no sistema de Protecção Integrada e a maquinaria é nossa, garantimos isenção de OGM até à debulha, mas a partir daí é com a Agrobeja”, explica aquele agricultor de Cuba. “É que, por exem-plo, se os camiões tiverem transportado milho transgénico e não tiverem sido bem limpos, quando a son-da faz a inspecção ao camião se calha a encontrar um grão transgénico, todo o carregamento fica comprometido”, alerta.

António Vieira Lima faz ainda questão de salientar que a decisão de fazer o milho como segunda cultu-ra, também só foi possível agora que já tem água de Alqueva e com “muito planeamento e organização, além de investimento, claro”.

Falta política ‘nacional’ para a água de Alqueva

Sobre o peso dos custos da água na cultura, João Guiomar revela que é uma fatia “considerável” e que vai ser “fundamental que o Governo e a Confederação dos Agricultores, entre outras entidades e orga-nizações, ajudem os produtores dos novos blocos de rega a planearem e definirem quais as melhores cul-turas para apostar. Devem dizer o que é que o país precisa. Se houver uma indicação do que é mais impor-tante para o país e que seja rentável, era bom”.

Até porque para garantir a comercialização a preços ‘interessantes’ é fundamental haver quantidade de produção suficiente para se negociar com a indústria, como se faz com quase todas as culturas. O que será muito difícil se um produtor decidir fazer hortícolas e outro frutícolas. Além de que as associações da região não negoceiam habitualmente (ou nem nunca negociaram) nestes mercados pelo que terão de se adaptar.

Aquele produtor, que tem também outra exploração mais perto de Beja (do lado de Serpa), defende que “todos pagámos e continuamos a pagar os investimentos que foram feitos em Alqueva, por isso convém que sejam rentabilizados, não é?”. Até porque, alerta, “basta ‘meia-dúzia’ de quilómetros para o terreno e o clima serem diferentes, como acontece com as minhas explorações, e é importante fazer o que é certo, no sítio certo e na altura certa”. João Guiomar defende que depois de definidas as culturas estratégicas para a campanha, com subsídios à exportação, por exemplo, “quem quisesse fazer tinha ajuda, quem não quisesse e apostasse noutras culturas… desenrascava-se”.

Preço da água pode inviabilizar cultura

O agricultor garante que “a água encarece muito os custos de produção, que também têm todos subido, contra os preços das culturas que desceram. Há oito anos quando começou a funcionar a infra-estrutura 12, só não pagámos a água no primeiro ano, e em 2005, por exemplo, o preço era de 0,034?€/m3 mas o milho estava a 210?€/t e hoje a água é paga a 0,047?€/m3 e o milho está a 140?€/t”.

Por isso é que o planeamento das culturas tem de ser feito ‘ao cêntimo’ e todos os gastos têm de ser mui-to bem pesados. O que, no seu caso, não é nada fácil porque como as duas explorações estão a cerca de 15?km uma da outra, “ando sempre para cá a para lá e com algumas máquinas também. Mas aqui em Ferreira a terra é melhor – tipo barro –, pelo que a produção é melhor. No milho a média é de 15?t/ha mas chega a ir às 18?t/ha e, normalmente não é menos de 13?t/ha”.

No caso de António Vieira Lima, a produção esperada do milho como segunda cultura irá “no máximo às 12,5?€/ha porque o ciclo não dá mesmo para mais” mas salienta que espera um resultado positivo, apesar de todo esforço que teve. “Nem imaginam, foi uma loucura: andava a ceifeira-debulhadora a ceifar a cevada, a enfardadeira, os camiões para carregar a palha tudo em fila e atrás seguia logo o tractor para movimen-tar as terras (ao mínimo) e semear o milho, com o pivot a começar depois a regar”, conta. Tudo teve, assim, de estar organizado, ao minuto”, conta.

Além de ter os apoios à protecção integrada para as culturas regadas de Primavera “que são cerca de 100?€/ha, o que dá para pagar cerca de metade da electricidade por hectare”, diz António Vieira Lima.

Quanto ao custo da água, aquele agricultor de Cuba afirma: “isso ainda vai dar muito que falar”. Este ano entraram em funcionamento os novos blocos de rega de Faro, Cuba Este e Cuba Oeste mas “estou a negociar custos reduzidos porque a EDIA partiu condutas, cabos, etc. e isso causou grandes prejuízos. Além de que tenho informação que o perímetro de rega do Monte Novo, por exemplo, esteve três anos sem pagar a água, porque é que nós temos de pagar logo no primeiro ano?”, questiona.

Nos novos perímetros, segundo a benesse dada pelo Estado, os agricultores começaram a pagar apenas 30% do valor total da água. “Mas quando esse valor for pago na totalidade, se for a 0,090?€/m3 e o milho ainda estiver a 140?€/t e mesmo com produções de 15 a 16?t/ha, não vai dar para o gasto”, frisa António Vieira Lima, alertando “temos de ter retorno sobre o capital investido”.

O agricultor de Beja refere, por seu lado, que “o Regime de Pagamento Único (RPU) não é vitalício e por tudo isto faria muito mais sentido ser pago por produção”.

‘Segredo’ está em diversificar e aproveitar as oportunidades

João Guiomar diz que na sua exploração de Beja (perto de Quintas) a terra é mais arenosa, não sendo tão boa para os cereais e o milho, mas conseguiu boas produções com a cebola, que este produtor já fez e “vou voltar a fazer, já tenho o contrato ‘apalavrado’ para cebola branca para a indústria, porque foi bom – deu 45 toneladas em média. Só não fiz este ano porque com a chuva que houve era impossível”, lamenta. O contrato é com uma fábrica espanhola em Badajoz, a Ineasa, do Grupo Katry, que envia quase toda esta cebola branca, já pré-preparada para a McDonald’s, mas também para a indústria farmacêutica e de cosmética.

Mas além da cebola, o produtor conta-nos que apesar de manter uma parte da produção mais ou menos estável com o milho, o trigo (mais mole que duro), a cevada e quase sempre o girassol, “fui sempre apostan-do em culturas novas e que davam uma boa rentabilidade, como a beterraba ou o algodão – nunca ganhei tanto dinheiro como com essa cultura”, admite.

Há pouco tempo teve uma proposta para fazer nectarina mas “tive receio… um pomar não é o mesmo que fazer cereais ou mesmo cebola, em que se não der naquele ano paciência e faz-se outra cultura no ano seguinte”, afirma João Guiomar, acrescentando: “neste caso, a rentabilização demora e é preciso conhecer os canais de comercialização, embora quem me propôs garantisse a compra, mas eu não quis. Acho que era importante traçar-se uma estratégia global para a região, não ser assim cada um a decidir”

Falando em aproveitar oportunidades, além do milho, António Vieira de Lima também fez uma parceria com Vítor Tristão, produtor de Moura, para plantar melão. “Acaba por ser um ‘arrendamento simpático’, porque ele já não tinha água lá e eu tenho interesse, já que é uma cultura que melhora os solos para cereal. Nestes 30 hectares fiz trigo duro no ano passado”, explica. Vítor Tristão é responsável pela cultu-ra, com rega gota-a-gota, e depois pela comercialização, uma vez que já conhece o circuito, “acho que é para vender ao grupo Jerónimo Martins”, refere António Vieira Lima.

O produtor salienta que o facto de fazer “mobilização mínima das terras ajudou muito, tanto no caso da segunda cultura como aqui para o melão, já que tivemos de plantar mais tarde que o habitual, por-que os campos estavam alagados”. Para a segunda cultura, e mesmo habitualmente, “ir deixando as palhas faz com que o solo fique mais poroso, tipo ‘esponja’ e assim podemos fazer mais regas, de menos água, mas dá mais tempo para infiltrar e é mais fácil”, defende aquele agricultor. •

Regadio: infestantes são grande problema

Para além do peso do custo da água, um dos maiores problemas do regadio é o aumento de infestantes. O agricultor João Guiomar lança um alerta: “com a consecutiva redução dos produtos que se podem utilizar, para proteger o ambiente – o que eu acho bem –, qualquer dia não conseguimos produzir nada. Porque cada vez há menos substâncias permitidas e as infestantes ganham resistências”.

Dá como exemplo o seu milho que já levou duas mondas e há sítios onde as infestantes continuam a não morrer. E é uma situação que tem vindo a progredir de ano para ano.

E o agricultor diz, em jeito de desabafo: “mas claro que todos nós continuamos a comer por isso, vai haver sempre alguns países pobres que produzam para os ricos protegerem o ambiente, não é?”

Vinha também é boa opção

Sempre à procura de novas formas de rentabilizar as terras e aproveitar os apoios que (ainda) existem, Antó-nio Vieira Lima decidiu também plantar vinha em algumas zonas que não dão para pivots. “É uma parcela de 18 hectares de terreno mais irregular e que tem postes pelo meio, onde vamos plantar 15 hectares de vinha. A Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito aceitou-me como associado e vamos vender-lhes a uva. Este ano já plantámos 7,5 hectares de vinha branca”, explica o produtor.

A escolha recaiu em castas já bem usuais na região – Antão Vaz, Arinto e Roupeiro – e numa menos habi-tual, a Verdelho. No próximo ano, irão plantar os restantes 7,5 hectares, com o objectivo de ficar com 70% de castas brancas e 30% tintas.

“O apoio do Vitis não é nada burocrático e paga cerca de 60% do custo até à produção, por isso vale a pena. A primeira produção deverá ser daqui a três anos, pelo que até vai dar jeito… porque é quando acaba o RPU”, ironiza António Vieira Lima.

Fonte: http://www.vidarural.pt/content.aspx?menuid=73&eid=5497&bl=1