Reprodutivo

Ultrassonografia: Ferramenta para melhorar a performance reprodutiva de vacas leiteiras

O uso da ultrassonografia (US) transretal na reprodução de bovinos tem revolucionado o conhecimento fisiológico nesta espécie, aprofundando cada vez mais o entendimento da dinâmica folicular, do funcionamento do corpo lúteo (CL) e do desenvolvimento fetal. Além disso, o uso da US tem proporcionado aos veterinários uma ferramenta essencial no seu trabalho do dia-a-dia para aprimorar o gerenciamento reprodutivo dos rebanhos. Dentre estas aplicações estão o diagnóstico precoce de gestação, identificação de prenhez gemelar, determinação do sexo fetal, aspiração folicular de oócitos para a produção in vitro de embriões (Pieterse et al., 1988), apenas para citar os usos mais comuns. Cada uma destas aplicações se apresenta como uma oportunidade para a melhora da eficiência reprodutiva nas propriedades leiteiras. Porém, infelizmente, muitos veterinários continuam a considerar a US como uma tecnologia secundária no gerenciamento reprodutivo do rebanho, mesmo sendo inquestionáveis suas vantagens em relação à simples palpação retal (Ginther, 1995). Por isso, cursos de treinamento em US para veterinários são essenciais para que a implementação desta tecnologia seja cada vez mais rápida e acessível a um número mais representativo de proprietários de rebanho brasileiros.

Equipamento ultrassonográfico veterinário

Em geral, o equipamento de US é dotado de um transdutor linear em modo-B (modalidade brilho) conectado a um console com controles eletrônicos onde está a tela em que as imagens produzidas pelo operador são visualizadas. O transdutor linear consiste em uma série de cristais piezoelétricos arranjados em linha que emitem e recebem ondas ultrassonográficas de alta frequência que são traduzidas pelo sistema e transformadas em imagens. As imagens são formadas por uma escala de tons de cinza, que vão desde a completa ausência de cor (estruturas não ecogênicas), que não produzem eco porque não encontram nenhum anteparo para refletir, como por exemplo conteúdos líquidos. Em seguida, temos estruturas que produzem eco parcial e então refletem parcialmente as ondas (estruturas ecogências), como o estroma ovariano. Por fim, há as estruturas completamente claras (estruturas hiperecogênicas), que produzem muito eco porque refletem mais, como as estruturas ósseas.

Existe uma percepção errônea entre a maioria dos veterinários de campo de que a grande vantagem (que muitos deles consideram única) do uso da US consiste na possibilidade de se realizar o diagnóstico precoce da gestação. Por isso, esta pequena revisão pretende ampliar alguns horizontes do uso da US no manejo reprodutivo e, quando pertinente, estabelecer comparações entre a palpação retal e o uso da US.

Figura 1. Exame ultrassonográfico no trato reprodutivo da vaca.

Diagnóstico de patologias no útero

O exame ultrassonográfico pode contribuir de maneira decisiva na identificação de condições patológicas do útero. Uma das mais frequentes, e que causam grandes perdas econômicas é a infecção uterina. Estudos demonstram que em rebanhos nos EUA a prevalência de endometrites diagnosticadas no período pós-parto por citologia uterina foi da ordem de 53% (Gilbert et al., 2005) e na Europa também utilizando métodos citológicos associados a US a prevalência foi de 47,7% (Quintela et al., 2010). As infecções uterinas podem ser classificadas como metrite, quando ocorrem durante os primeiros 21 dias após o parto e apresentam sintomas sistêmicos e locais, e como endometrites quando ocorrem após os 21 dias do parto e são caracterizadas por achados clínicos locais. Embora tanto a metrite como a endometrite clínica possam ser diagnosticadas por meio da exploração direta dos órgãos genitais por palpação retal e/ou por vaginoscopia, a US é mais precisa no diagnóstico destas patologias (Barlund et al., 2008).

Para determinar a real acurácia da US para o diagnóstico de infecções uterinas serão listados os métodos mais comuns para o diagnóstico das endometrites. Em vários estudos, os achados clínicos produzidos pela vaginoscopia, palpação retal, metricheck (uma ferramenta que recolhe amostras de possível conteúdo uterino) ou US foram comparados com a citologia uterina, considerada o teste de maior acurácia para o diagnóstico das endometrites. Todos estes estudos concluíram que a citologia de fato é o mais elegível dentre as referidas possibilidades porque detectou algumas endometrites que os outros métodos não detectaram.

Entretanto, todos os autores afirmam que o segundo melhor método de escolha é a US (Kasimanickan et al. 2004; McDougall et al. 2007; Barlund et al. 2008). A palpação retal é uma técnica subjetiva que frequentemente falha na detecção de eventos fisiológicos normais e na variabilidade natural da involução uterina, além de não ser útil na detecção de processos subclínicos. A palpação retal e a observação casual de fluxo genital não são sensíveis o suficiente para o diagnóstico da endometrite (Miller et al., 1980). Apenas a vaginoscopia ou o metricheck não são úteis para o diagnóstico da endometrite, porque a ausência de descarga vaginal purulenta não indica a ausência de patologia, além de poder levar a um diagnóstico equivocado de endometrite, que em muitos casos, pode ser apenas uma vaginite.
Ainda comparando o uso da palpação retal, US ou citologia para o diagnóstico de endometrite de 228 vacas, Kasimanickan et al. (2004) concluíram que o diagnóstico apenas baseado na palpação retal apresentou baixa correlação com a fertilidade, enquanto nas vacas diagnosticadas com endometrite pela US ou pela citologia esta correlação foi alta. 

Figura 2. Conteúdo purulento na luz uterina indicando infecção uterina.

Estruturas ovarianas

O exame ultrassonográfico de ovários normais durante o ciclo estral permite a observação de duas estruturas: o folículo e o CL. Folículos ovarianos tem em geral formato esférico, contém fluido não ecogênico e pode ser encontrado em número e tamanho variáveis (Griffin e Ginther, 1992). Neste caso, a principal vantagem da US em relação a palpação retal é que a subjetividade relacionada ao tamanho e conteúdo pode ser eliminada, já que a US permite a mensuração e observação do conteúdo folicular. Além da avaliação da progesterona (P4) por ensaios utilizando o leite ou o soro sanguíneo, a US é considerada o método mais acurado e direto para detectar a presença de um CL no ovário.

Comparada com a palpação retal, a US é considerada um método mais sensível e mais específico do que a palpação retal (Bicalho et al., 2008). Tais diferenças são provavelmente devidas ao fato de que muitos CLs não são protrusos suficientemente na superfície ovariana para serem palpados, ou seja, o CL pode estar inserido parcialmente no estroma ovariano, prejudicando sua palpação. Além disso, CLs cavitários, dependendo do tamanho da cavidade, possuem consistência macia e podem ser confundidos com folículos. A incidência de CLs cavitários varia de 25,2% a 78,8% durante o diestro e diminue com a progressão do ciclo estral (Kahn, 2010).
Estudos demonstram que cerca de 30% dos CLs possuem cavidade 4 dias após a ovulação e cerca de 50% possuem cavidade entre os dias 8 (Perez-Marin, 2009) e 10 do ciclo, diminuindo para cerca de 30% entre 10 e 13 dias do ciclo (Gnemmi, 2004). Com base nestas informações, pode-se assumir que um CL cavitário muito provavelmente está na primeira metade do ciclo estral e um CL sem cavidade está na segunda metade do ciclo estral. 


Figura 3. Um CL cavitário na imagem à esquerda e um ovário com folículos na imagem à direita.

Diagnóstico de gestação

O diagnóstico precoce de gestação é essencial por facilitar a detecção de vacas não prenhes e habilitá-las a nova inseminação. Para este diagnóstico, o útero deve ser sistematicamente explorado em toda a sua extensão porque, no início da gestação, a maior parte da superfície endometrial nas vacas gestantes não é diferente daquelas não gestantes. No interior da vesícula embrionária pode ser observada uma zona não ecogênica onde a luz do corno uterino está minimamente dilatado.

Sua aparência pode ser confundida com um útero em período de estro ou com endometrite. A diferença, observável apenas com o US, é que dentro da vesícula embrionária pode-se observar a massa embrionária (Griffin e Ginther, 1992). Uma vez que o embrião tenha sido localizado, sua viabilidade pode ser confirmada pela checagem de batimentos cardíacos. A acurácia do exame depende da forma cuidadosa em que se explora o útero e a presença de, no mínimo, um CL com boa aparência e tamanho. Após 27 dias de prenhez a confiabilidade do diagnóstico é alta (Quintela et al., 2006).
A acurácia do diagnóstico é mais alta em casos negativos do que em positivos devido à alta incidência de mortalidade embrionária em vacas leiteiras durante o segundo mês de prenhez, estimado em média de 12,8% entre 27 e 51 dias de gestação (Santos et al., 2004). A US também permite a detecção de gestações gemelares observada pela presença de maior quantidade de fluido na luz uterina, somada a presença de mais membranas alantoidianas do que o esperado para determinada idade gestacional. Além da visualização de uma zona hiperecogênica, o que corresponderia com a anastomose de membranas alandoidianas e também da presença de dois CLs, sugerindo a presença de prenhez gemelar (Quintela et al., 2009). Este diagnóstico de gemelaridade é importante devido ao risco mais alto de perda, freemartinismo ou distocia do que em prenhezes não gemelares, oferecendo a opção de mais assistência ao parto (Silva del Rio et al., 2009).
Estudos na última década relatam que a incidência de gestações gemelares está ligada diretamente à produção mais alta de leite, como observado por Lopez et al. (2005) que observaram que vacas com produção <30kg/dia tiveram proporção de múltiplas ovulações insignificante comparadas àquelas com >30kg/dia que tiveram 51,6% de dupla ovulação. Este efeito está relacionado à concentração mais baixa de hormônios esteróides devido ao aumento do fluxo sanguíneo no fígado de vacas com mais alta produção de leite (Wiltbank et al., 2000). 

Figura 4. Diagnóstico de gestação aos 29 dias, com presença do embrião na luz uterina.

Diagnóstico de perdas gestacionais

O diagnóstico mais frequente de alteração no curso da prenhez é a mortalidade embrionária ou fetal. Pela US, estes eventos podem ser reconhecidos pela menor quantidade de fluido alantoidiano do que o esperado para determinado estágio da gestação, presença de fragmentos de membrana soltos no fluido, ausência de embrião/feto ou ausência de batimentos cardíacos no embrião/feto. A existência de um ou mais destes sinais são indicativos de perda gestacional (Gnemmi 2004). Quanto mais frequentemente é realizado o exame de confirmação da prenhez, maiores são as chances de se ressincronizar os animais que estavam gestando mas que sofreram perda. Assim, é importante que após o primeiro diagnóstico de gestação aos 28 dias, seja realizada sua confirmação aos 45-60 dias para criar novas oportunidades de inseminar os animais vazios.

Figura 5. Exame ultrassonográfico indicando perda gestacional observada pela deformidade do embrião.

Conclusões

O uso da US possibilita o diagnóstico precoce de gestação com índice de acurácia mais alto do que a palpação retal. Entretanto, vale ressaltar que a US também é importante no diagnóstico frequente de infecções uterinas e de perdas gestacionais, sendo para estes casos, mais eficiente do que a vaginoscopia, a palpação retal ou o metricheck. A detecção de vacas não prenhes no rebanho também é importante por reduzir o período de dias em aberto destas vacas, um dos maiores problemas das fazendas produtoras de leite, devido à ineficiente detecção de estro. Por estas razões, consideramos que programas de treinamento em US para veterinários de campo poderão proporcionar um importante salto de qualidade no uso da US como ferramenta no manejo reprodutivo de rebanhos leiteiros em todo o país.

Fonte: Rehagro  Autor: Anibal Ballarotti do Nascimento, Laboratório de Reprodução Animal – ESALQ – USP