Milho

Testes de nitrato no solo como indicadores complementares no manejo da adubação nitrogenada em milho

Escrito por Lisandro Rambo e outros

Soil nitrate tests as complementary indices for management of corn nitrogen application
Artigo original: “Cienc. Rural, Ago 2004, vol.34, no.4, p.1279-1287. ISSN 0103-8478”

1. Resumo

A recomendação de nitrogênio (N) para a cultura do milho teve um avanço expressivo recentemente na região Sul do Brasil, quando passou a considerar a cultura anterior em adição ao teor de matéria orgânica do solo e a expectativa do rendimento de grãos. A busca de otimização do sistema de recomendação é constante e, nesse sentido, há grande potencial da inclusão de parâmetros de solo e de planta como indicadores complementares da disponibilidade de N no solo, principalmente em sistemas altamente produtivos e com aplicação de altas doses de N. Dentre os parâmetros de solo destacam-se os testes de nitrato, os quais indicam a quantidade de N disponível e são denominados testes de intensidade. Em função da época de realização, os testes de nitrato podem ser divididos basicamente em (i) teste de pré-semeadura – TPS (“preplant soil nitrate test” – PPNT), (ii) teste de pré-aplicação de N em cobertura – TPNC (“pre-sidedress soil nitrate test” – PSNT), e (iii) teste de pós-colheita – TPC (“post-harvest soil nitrate test” – PHNT). Dentre estes testes, destaca-se o TPNC, o qual tem sido mais estudado e difundido, principalmente nos EUA, pois permite avaliar a variação da disponibilidade de N do solo durante o ciclo da cultura, possibilitando o manejo da adubação nitrogenada em situações específicas. Esta revisão visa abordar o potencial dos testes de nitrato na avaliação da disponibilidade de N no decorrer do ciclo do milho e sua utilização na predição da necessidade de N a ser suplementado. A hipótese é de que a utilização dos testes de nitrato resultem em maior flexibilidade no manejo da adubação nitrogenada em milho.

Palavras-chave: Zea mays, matéria orgânica, predição da adubação nitrogenada.

2. Abstract

Recently, nitrogen fertilization recommendation has had an expressive advance in Southern Brazil, when it began to take into account the contribution of the previous cover crop for the soil nitrogen (N) availability, in addition to organic matter and yield goal. Improvement of N management is constantly aimed. In this respect, there is a high potential to include soil and plant parameters as complementar indicators of soil N level, mainly in high yield systems and with high rates of N application. Within the soil parameters considered, one of the most impartant is the nitrate tests, which represent the readily available N and are known as intensity tests. According to the time of soil sampling, nitrate tests can be classified as: preplant soil nitrate test (PPNT), pre-sidedress soil nitrate test (PSNT), and post-harvest soil nitrate test (PHNT). Within these tests, one of the most important is the TPNC, which have been more studied and used, mainly in the EUA, because it allows the evaluation of the soil N availability during the crop development. It makes possible the management of nitrogen fertilization in specific situations. This review has the purpose of discussing the potential use of soil nitrate tests to evaluate N availability during crop development and to predict N requirements in maize. The hypothesis is that nitrate tests utilization result in higher flexibility of N fertilization management in this crop.

Key words: Zea mays, organic matter, prediction of nitrogen fertilization.

3. Introdução

A eficiência do uso do nitrogênio (N) em cereais no mundo é de apenas 33%. Considerando os 67% de N que não são aproveitados, tem-se uma perda anual de 15,9 bilhões de dólares em fertilização nitrogenada (RAUN & JOHNSON, 1999), em adição aos prováveis impactos negativos ao ambiente (SCHRÖDER et al., 2000). A quantidade de N aplicado tem aumentado rapidamente nas últimas décadas ao nível global. Dentre as conseqüências deste aumento, estão a elevação das perdas de nitrato do solo para os lencóis freáticos e para os sistemas marinhos, bem como dos gases que contém N para a atmosfera (MATSON et al., 1998).

Sistemas de manejo da adubação nitrogenada devem visar à maximização dos lucros, reduzir a susceptibilidade das plantas a pragas e moléstias, otimizar a qualidade de grãos, poupar energia e proteger o ambiente. De forma mais simplificada, STANFORD (1973) e KEENEY (1982) definem o manejo ideal da adubação nitrogenada como sendo aquele que permite satisfazer a necessidade da cultura com o mínimo de risco ambiental.

A alta mobilidade do nitrato no solo justifica a preocupação em relação ao manejo da adubação nitrogenada em solos agrícolas (VANOTTI & BUNDY, 1994). A lixiviação de nitrato é um fenômeno físico, favorecido pela baixa energia envolvida na sua adsorção às partículas do solo e também pela sua alta solubilidade em água (CERETTA, 1997). Este íon pode ser carreado pela água de percolação, resultando em perdas deste nutriente e contaminação do lençol freático e de cursos d’água (DYNIA & CAMARGO, 1999).

O potencial de contaminação ambiental pela lixiviação do nitrato tem motivado pesquisas de caráter agro-ecológico no mundo inteiro a partir da década de 80. Nos países do Reino Unido, o aumento do teor de nitrato na água causou grande discussão sobre os seus efeitos na saúde e no ambiente, estimulando um grande programa de pesquisa. Tendências similares alavancaram a pesquisa na Europa e na América do Norte (ADDISCTOTT, 2000). Particularmente nos Estados Unidos da América, algumas pesquisas têm sugerido relação entre a diminuição da quantidade de oxigênio na área do Golfo do México (área de hipoxia) e as perdas de N da parte agrícola na bacia do rio Mississipi, uma área que compreende mais de 30 estados (ANDRASKI et al., 2000). No Brasil, as menores doses de N aplicadas podem explicar, ao menos em parte, a menor preocupação na avaliação dos impactos da fertilização nitrogenada no ambiente. Entretanto, o aumento das doses de N em sistemas altamente produtivos, e o uso de fertilizantes nitrogenados associados com plantas de cobertura leguminosas e ou dejetos animais merecem atenção quanto ao seu impacto no ambiente (CERETTA et al., 2003; PORT et al., 2003), especialmente a contaminação das águas pela lixiviação de nitrato (RANDALL & MULLA, 2001).

No Sul do Brasil, especificamente nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a recomendação de adubação nitrogenada em milho apresentou melhoria expressiva recentemente. A nova recomendação passou a considerar a cultura anterior ao milho (N mineralizado ou N imobilizado), em adição ao teor de matéria orgânica do solo e à expectativa de rendimento de grãos (AMADO et al., 2002). Considerando o sistema de recomendação como em constante aperfeiçoamento, uma melhoria potencial é a inclusão de parâmetros complementares de solo e de planta que permitam o monitoramento da disponibilidade deste nutriente durante o ciclo da cultura visando maior precisão das doses recomendadas bem como maior flexibilidade do manejo do N na cultura do milho (ARGENTA, 2001). Neste sentido, esta revisão tem por objetivo apresentar e discutir o potencial de testes de nitrato no solo como indicadores complementares da disponibilidade de N no solo visando à tomada de decisão sobre o manejo da adubação nitrogenada em milho.

Fonte:  http://www.geniodalampada.com/index.php?option=com_content&view=article&id=242:testes-de-nitrato-no-solo-como-indicadores-complementares-no-manejo-da-adubacao-nitrogenada-em-milho&catid=53:outras&Itemid=73