Gerenciamento de Produção

Tecnologia de despolpamento valoriza cafés verdes, boias e robusta, antes depreciados no mercado

Hanny Guimarães | Globo Rural

 

No processo de produção de cafés de qualidade, o cafeicultor brasileiro encontrou um forte aliado na máquina de descascamento. Ela é hoje amplamente usada no país para o despolpamento do grão cereja da variedade arábica, o que permite otimizar o manejo e, principalmente, ajuda a elevar a qualidade da bebida. Agora, o equipamento também está sendo aplicado no processamento de grãos verdes e boias, assim como no robusta maduro, todos pouco valorizados pelo mercado até então.

 

A tecnologia de descascamento para grãos imaturos e para os de menor densidade – daí a denominação boia, já que flutua na água – foi desenvolvida pelo professor Flávio Meira Borém, do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Lavras (Ufla), de Minas Gerais, que pesquisa o tema há cinco anos. A solução foi criada para minimizar um problema característico da produção de café no Brasil: a grande quantidade de frutos de menor qualidade na safra. Enquanto em países como a Colômbia os colhedores passam diversas vezes por cada pé de café, retirando apenas os frutos mais maduros e apropriados, por aqui é realizada uma colheita única, de 100% da planta, devido aos custos com mão de obra e fabricação, o que faz com que verdes e boias acabem sendo apanhados juntamente com os amadurecidos.

 

Há três anos, seguindo os conselhos de Borém, Renato Farhat Brito, proprietário da Fazenda Sete Cachoeiras Estate Coffee, em Três Pontas (MG), só vê vantagens no descascamento. “O mercado está aberto para qualquer café descascado e pagando mais por ele. Só o fato de descascar já garante um ágio de R$ 50 ao produto. Atualmente, um verde despolpado vale tanto quanto um maduro”, contabiliza. Na propriedade de 600 hectares, o cafeicultor colhe 24 mil sacas por safra. Cerca de 40% dos grãos são cereja, 10% são verdes e 10% são passas (boias). Os que restam são varrições (15%) e secos (25%), que são descartados. Brito comercializa o maduro descascado por R$ 550 e o imaturo e o boia por R$ 530 a saca.

 

Além de agregar valor à produção, o agricultor consegue economizar espaço na estrutura, aumentando o rendimento do terreiro, do secador e da tulha de armazenamento, já que o fruto sem a casca perde cerca de 40% do volume. “Usando esse processo, estou alcançando mercados aos quais não conseguia chegar, como torrefadoras canadenses e italianas e grandes exportadoras brasileiras”, afirma Brito, que investiu em uma máquina descascadora exclusiva para cada um dos três tipos de café com que trabalha. Na verdade, o mesmo equipamento que hoje realiza o descascamento do cereja pode ser utilizado para processar os demais grãos. Mas o volume de café que o produtor de Três Pontas processa é tão grande que ele utiliza três máquinas, uma para cada tipo de grão.

 

No método proposto pelo professor da Ufla, os grãos colhidos são levados para um lavador, que os separa por densidade. Com massa semelhante, verdes e maduros seguem para o descascador, já os boias vão para a peneira rotativa, onde são separados por tamanho. O cereja é separado do imaturo por meio de uma regulagem no equipamento e segue despolpado para a secagem. O verde ainda com casca volta para o descascamento – e a seguir também vai ao terreiro para secar. Por fim, o boia é descascado e tem o mesmo fim que os demais. “Os grãos não devem se misturar, pois têm umidade distinta”, diz Borém.

 

Realizando esse processo, o produtor consegue separar melhor o grão cereja, suavizar a adstringência (característica do café imaturo) e separar o passa, que possui doçura elevada, por conta do maior tempo de contato com a mucilagem (polpa rica em açúcares). Além disso, evita problemas de fermentação, que podem ocorrer quando o fruto seca com casca.

 

Instalar o equipamento custa cerca de R$ 50 mil, já incluindo a parte elétrica e a instalação, mas os agricultores garantem que o ganho compensa o investimento. No Espírito Santo, maior produtor de robusta do país, com 50 mil cafeicultores, grande parte das propriedades não faz o descascamento nem do grão maduro da variedade. Mas quem apostou no procedimento está lucrando. O produtor de café conilon da cidade de São Gabriel da Palha Dário Martinelli é um dos poucos no estado que realizam o processamento do cereja robusta – até o momento, apenas seis equipamentos estão instalados em território capixaba. “Comprei a máquina em 2002 e já no primeiro ano consegui quitar tudo. A indústria precisava do produto e pagou muito bem por ele”, conta o cafeicultor. “O mercado continua valorizando, por isso estamos fazendo até campanha para multiplicar a produção de cereja conilon descascado”.

 

Na fazenda de 60 hectares, Martinelli obtém 90 toneladas do grão processado, negociado com indústrias do setor por até R$ 280 a saca – o conilon convencional alcança cerca de R$ 200. “Com o beneficiamento, a bebida do robusta torna-se mais neutra e limpa e faz com que o produtor receba mais por isso”, afirma Borém.

 

Fonte: http://www.revistacafeicultura.com.br/index.php?tipo=ler&mat=39438&tecnologia-de-despolpamento-valoriza-cafes-verdes–boias-e-robusta–antes-depreciados-no-mercado.html