Curiosidades

Tecnologia ajuda agricultores dos EUA a vencer corrida contra o clima

27/05/2014

O trator de Jim Walter se move sozinho enquanto ele permanece sentado na cabine, observando uma tela de computador que mostra as sementes de milho sendo plantadas no solo. Ao terminar sua jornada diária de 16 horas, ele havia plantado cerca de 125 hectares, o equivalente a 250 campos de futebol.

Tal desempenho no plantio não era possível há dez anos, muito menos quando Walter, que tem 66 anos, começou a se dedicar à agricultura, em 1970. Hoje, essa produtividade é comum em todo o Meio-Oeste, o coração agrícola dos Estados Unidos, resultado do investimento dos produtores em equipamentos cada vez mais sofisticados para realizar rapidamente o plantio nos curtos períodos de clima favorável.

Walter investiu US$ 15.000 para instalar, no seu trator John Deere, um sistema de posicionamento global, o GPS, que usa satélites para se mover automaticamente, monitorar a quantidade de sementes plantadas e armazenar os dados do plantio. Essa é uma das ferramentas da alta tecnologia que ajudaram os produtores americanos de milho a plantar 30% de toda a safra em apenas uma semana, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, o USDA.

“Ele faz de tudo”, diz Walter, enquanto dirige o trator numa noite escura pela sua fazenda em Illinois.

Chuvas fortes e temperaturas excepcionalmente frias em abril e maio atrasaram o período de plantio em quase todo o cinturão agrícola americano neste ano e em 2013, reduzindo ainda mais o período de plantio e tornando a nova tecnologia especialmente necessária. No ano passado, os produtores plantaram 43% de toda a safra, ou 16,6 milhões de hectares, em uma semana, um recorde desde que o governo começou a registrar os dados.

Em média, os produtores plantaram cerca de 12% da safra de grãos por semana desde que esses dados começaram a ser coletados, em 1980, de acordo com o governo.

Um boom no setor agrícola, sustentado pelos ganhos gerados com a alta no preço do milho, que subiu de forma significativa com o aumento do consumo global e perdas relacionadas a problemas climáticos, tornou a tecnologia de plantio oferecida pela Deere & Co. e concorrentes, como a Agco Corp., AGCO -0.33% um grande atrativo para os produtores.

Os fabricantes de equipamentos venderam 44.183 grandes tratores novos nos EUA em 2013, o quinto ano consecutivo de crescimento de vendas para uma máquina que chega a custar US$ 400.000, segundo a Associação dos Fabricantes de Equipamentos. As vendas de tratores e colheitadeiras somaram US$ 19,1 bilhões nos EUA no ano passado, segundo dados do USDA.

Agora, no entanto, produtores e fabricantes de equipamentos podem se tornar vítimas do sucesso das novas tecnologias.

A safra de milho recorde nos EUA do ano passado, que resultou em parte do uso de tecnologias avançadas, provocou uma queda de 40% nos preços do grão. Agora, a renda dos produtores está caindo e a John Deere e outras fabricantes de equipamentos afirmam que a demanda por tratores está diminuindo.

O lucro líquido agrícola dos EUA cairá 27% este ano, para US$ 95,8 bilhões, o menor nível desde 2010, de acordo com projeção de fevereiro do USDA, devido à queda nos preços dos grãos provocada pelo aumento da produção doméstica. A queda no lucro pode levar ao primeiro recuo nas vendas de tratores no país desde 2009, dizem analistas.

Na sua divulgação de resultados, em 14 de maio, a John Deere informou que suas vendas globais de equipamentos agrícolas cairão 7% no ano fiscal que se encerra em 31 de outubro, em comparação com US$ 29,1 bilhões no ano anterior. Estima-se que a vendas nos EUA devem recuar entre 5% e 10%, segundo a companhia.

A queda dos lucros no campo “está pressionando a demanda por equipamentos agrícolas, principalmente os equipamentos maiores”, informou a empresa.

Tendência semelhante é vista na América do Sul. Os fabricantes de equipamentos venderam 65.089 tratores para agricultores brasileiros em 2013, acima dos 28.577 registrados dez anos antes, segundo dados da Vertical Research Partners e da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea. Mas, este ano, as vendas na região devem cair 10%, previu a John Deere em seus resultados. Em fevereiro, a queda estimada pela empresa era de apenas 5%.

Os produtores ainda estão comprando novos equipamentos, mas não tão rápido como antes, diz Jeff Sloan, que trabalha na Sloan Implement Co., empresa dona de 17 concessionárias John Deere em Illinois e Wisconsin.

“Os agricultores hoje só podem renovar sua frota de vez em quando”, diz ele.

A John Deer começou a oferecer tratores que dirigem sozinhos há cerca de 15 anos. Os agricultores estavam céticos no começo, mas acabaram se rendendo aos benefícios de um trator que não precisa de operador, disse Sloan. Agora, os produtores podem fazer a atualização de um software que segue a rota desejada com precisão de centímetros, indica a quantidade de sementes necessária e transmite todos os dados com tecnologia de computação em nuvem.

Quando Walter, o produtor de DeKalb, começou a trabalhar como agricultor, há 44 anos, ele tinha uma plantadeira que fazia quatro sulcos na terra e plantava uma semente a cada poucos passos. Agora, ele faz 24 sulcos por vez e as sementes caem no solo a intervalos definidos e monitorados por uma plantadeira computadorizada — os intervalos são determinados por tipo, qualidade e umidade do solo.

Walter tinha pressa em semear a safra no início deste mês. Como muitos produtores, ele enfrentou atrasos no plantio por causa do mau tempo.

“Há um senso de urgência real para completar essa lavoura”, disse ele. “Se começar a chover amanhã e continuar por dez dias, terei que plantar na lama, o que não é bom.”

Junto com o sistema da John Deere para dirigir e monitorar a quantidade de sementes plantadas, Walter adaptou seu trator no ano passado com um computador feito pela Precision Planting, uma divisão da Monsanto Co., MON +0.17% que assegura que a semente é colocada no lugar certo a distâncias uniformes. O computador custa cerca de US$ 4.000. Esse custo pode dobrar para adicionar software e outros componentes que permitem atualizar um equipamento antigo.

O GPS não só possibilita que os agricultores plantem durante a noite — acelerando o processo — mas também assegura que eles não estão colocando duas sementes onde apenas uma é necessária. A tecnologia também permite que eles não deixem trechos de terra sem sementes.

Jamie Walter, filho de Jim e proprietário da fazenda com o pai, diz que o plantio dos 809 hectares das terras da família demorava quase duas semanas antes de eles adotarem a tecnologia do plantio de precisão. “A meta era dez dias”, diz Jamie. “Agora, nós podemos plantar todo nosso milho em cinco dias.”

Colaborou Bob Tita

Fonte: Wall Street Journal
Autor: Tony Dreibus, de DeKalb, Illinois