Cana de Açúcar

Subprodutos da cana podem virar adubo. Por que não?

Em tempos bicudos, o manejo e uso de fontes alternativas na adubação da cana-de-açúcar pode ser uma opção interessante, conforme defende o professor Pedro Henrique de Cerqueira Luz, especialista em solos e nutrição de plantas e pesquisador da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos, da Universidade de São Paulo.

  Luz abordou o manejo de fontes alternativas organominerais para cana-de-açúcar na 1ª Reunião Técnica sobre Cana-de-Açúcar de 2009, ocorrida no dia 26 de março no Hotel Deville, em Maringá. O evento, com quatro etapas anuais, é promovido pela Alcopar e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), integrante da Ridesa (Rede Interuniversitária para Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro), com apoio da empresa Dow AgroSciences.

  O especialista disse que diante do momento econômico pelo qual passa o setor e as empresas em geral, e com o aumento significativo do preço dos fertilizantes nos últimos anos, assim como do seu peso nos custos de produção da cana, muitas usinas estão deixando de adubar suas lavouras. Nesta situação, otimizar o uso dos subprodutos gerados com o processo industrial da cana (torta de filtro, cinzas, água de lavagem e vinhaça), podem fazer diferença. “Estes resíduos já foram um problema ambiental para as usinas, agora são uma solução para os altos custos de adubação”, diz.

  Grande parte das usinas já faz uso destes, mas a sua aplicação na lavoura é feita basicamente nas proximidades da indústria porque esbarra no custo para se transportar esses materiais a distâncias maiores e na logística necessária, explica Cerqueira Luz. Uma forma de viabilizar isso seria trabalhar com o enriquecimento e a compostagem desses resíduos.
DICAS

  Quando a torta do filtro é usada in natura, o caminhão carrega 75% de água. Após 45 ou 60 dias de compostagem, esse percentual é reduzido para menos de 40%, além de aproveitar outros resíduos industriais menos nobres, como as cinzas, que também precisam ter uma destinação. A estes subprodutos podem ser agregados outros como os da produção animal (cama de frango e esterco de galinha e bovino e dejetos suínos). Em vez de fazer a compostagem, é possível ainda condicionar a torta para reduzir a água e calor.
  Outra forma de maximizar as áreas plantadas com torta de filtro ou composto, podendo dobrá-las ou mesmo triplicá-las, é enriquecer a mistura com um adubo a base de fósforo. O especialista em nutrição afirma que vários experimentos registram maior produtividade de cana com o uso da compostagem enriquecida quando comparado ao uso da adubação mineral. Isso ocorre por causa da matéria orgânica do composto, que aumenta a eficiência na absorção dos nutrientes.
Ricos em nutrientes
 
  A maior vantagem de se aproveitar os subprodutos da indústria canavieira é que ao fazer isso a usina estará disponibilizando matéria orgânica para o solo e para a planta. Esta traz uma série de benefícios físicos (aumento da capacidade de retenção e de infiltração d’água no solo, maior porosidade, amortecimento térmico e redução da densidade aparente do solo), químicos (aumento da capacidade de retenção de cátions – CTC do solo, fornecimento de macro e micronutrientes, liberação lenta dos nutrientes e redução da fixação de fósforo) e biológicos (melhoria do conjunto de microorganismos do solo e disponibilização de nutrientes).
  As características nutricionais da torta de filtro variam de acordo com o tipo de solo onde a cana esmagada estava plantada e do tratamento do caldo, mas além de ter 57,62% em média de matéria orgânica, tende a ser rica em fósforo, nitrogênio e cálcio e em micronutrientes, principalmente cobre e zinco, com ganhos de produtividade e longevidade para a cana-de-açúcar.
  O uso de torta de filtro também viabiliza o plantio de cana-de-açúcar em condições adversas (plantio de inverno) e traz reflexos favoráveis na conservação do solo.
  A quantidade de torta produzida por tonelada de cana moída depende do sistema de extração utilizado na usina. Se for uma moenda com filtro a vácuo rotativo, pode gerar em média 30 kg de torta por toneladas de cana moída produzindo 60 mil toneladas de torta na safra no caso de uma usina que esmague 2 milhões de toneladas. Com os mesmos volumes de cana moída, mas com o uso de um filtro prensa, a produção de torta cai para 20 kg por tonelada cana moída ou 40 mil toneladas na safra e com o uso de difusor como sistema de extração do caldo, obtém-se 5 a 6 kg por tonelada cana moída ou 12 mil toneladas na safra.
Diversos trabalhos com o uso de torta de filtro mostraram aumento de produtividade da lavoura, já que o subproduto da cana apresenta eficiência de 60% a 75% no fornecimento do fósforo necessário a cultura, 70% a 80% do nitrogênio e 90% a 95% do potássio, além de ter efeito nematicida, podendo reduzir o uso de defensivos no controle de nematóide.
Compostos podem adubar lavouras num raio de até 88 quilômetros da indústria

  Cerqueira Luz assegura que o condicionamento da torta de filtro, a compostagem e, principalmente, o enriquecimento destes, tornaram possível utilizar a adubação orgânica em lavouras plantadas mais distantes das indústrias, beneficiando principalmente a cana cultivada em solos de menor fertilidade. “Ao se concentrar o nutriente no composto, é possível reduzir a dosagem por área, aumentando a área plantada e viabilizando economicamente o transporte da compostagem para distâncias maiores”, explica.
  Com base em uma avaliação do custo da adubação orgânica e mineral feita em 2008, se a torta de filtro fosse usada in natura, onde são necessárias 60 toneladas por hectare, seria economicamente viável transportar e aplicar esta a uma distância de 25,7 quilômetros da indústria. Com a concentração do produto, onde se reduz a dosagem para 33 toneladas por hectare, seria possível levar o produto a uma distância de até 62 quilômetros, distância que poderia chegar a 88 quilômetros se o composto ou a torta de filtro for enriquecido com uma fonte de fósforo.
  “É preciso periodicamente verificar os custos de produção e aplicação da adubação orgânica e comparar com o adubo mineral para verificar o equilíbrio financeiro. Desde o segundo semestre de 2007 os preços dos fertilizantes minerais têm variado significativamente, portanto o ponto de equilíbrio financeiro entre o organomineral e o mineral também varia”.
Como produzir o composto orgânico

  Para produzir o composto orgânico é preciso selecionar as matérias-primas e os volumes a serem utilizados com base em suas características físicas, químicas e biológicas e de que forma contribuem para estabilizar a mistura. Há componentes que podem ser usados para enriquecer a mistura, como fertilizantes, corretivos e outras fontes orgânicas, como resíduos de criações. Neste caso tem que ser considerado qual sua disponibilidade na região, se atende à demanda e qual o custo. 
  Ao dimensionar e planejar o pátio de compostagem, a orientação é para distribuir os módulos de leiras de modo uniforme, observando a declividade do terreno (2% a 3%). “Tem que pensar que é uma fábrica de fertilizantes a céu aberto”, diz Cerqueira Luz. Também, a disposição e o tamanho das leiras devem facilitar o manejo (duas leiras paralelas com quatro metros de largura cada, tendo um metro entre elas e um espaço de 2,5 metros para passagem do trator entre os módulos). As matérias-primas não devem ser colocadas aleatoriamente, mas de forma a facilitar a mistura, considerando a proporção de cada item (torta de filtro, cinzas e gesso), de acordo com a qualidade do produto que deseja obter e a altura das leiras (1,7 metro).
  Com o uso de um compostador, revolver de forma frequente (cada dois ou três dias no início aumentando para uma vez por semana no final) para homogeneizar, aerar, diminuir a umidade e a temperatura. Além de identificar as leiras com datas, é preciso monitorar a temperatura (50 a 55ºC), a umidade (40% a 60%) e o pH (6,0 a 7,6) da mistura para saber quando o composto estará pronto para ser usado. Pode ser aplicado de forma localizada no sulco de plantio ou nas linhas de soqueira, como prática de adubação de manutenção, ou ainda em área total na própria soqueira ou nas áreas de reforma, como prática de adubação de correção.

 

Fonte: http://www.jornalparana.com.br/materia/ver_edicao.php?id=2168&tipo=102